27/05/2025
》A mulher que enganou o mundo para fazer história: a saga de Jeanne Baret, a primeira mulher a dar a volta ao mundo
Em uma França ainda mergulhada nos dogmas do século XVIII, nasceu em 27 de julho de 1740, na modesta região de Borgonha, uma mulher destinada a quebrar todas as regras impostas a seu gênero. Jeanne Baret veio ao mundo em um lar pobre, onde ser mulher e camponesa significava viver à margem da educação e da ciência. E, no entanto, ela se tornaria a primeira mulher a circum-navegar o globo — uma façanha reservada até então apenas aos grandes navegadores da história.
Pouco se sabe sobre sua infância. Como aprendeu a ler? Quem lhe despertou o amor pela natureza? O que sabemos é que, por volta dos 20 anos, órfã e sem perspectivas, ela começou a trabalhar como governanta e assistente do renomado naturalista Philibert Commerson — um homem quase 13 anos mais velho, respeitado no meio científico e com conexões na elite intelectual francesa. O que começou como trabalho virou parceria, e dessa parceria nasceu uma paixão arrebatadora.
Quando Commerson foi convidado a integrar a primeira expedição francesa de circum-navegação, liderada por Louis Antoine de Bougainville, sabia que mulheres eram proibidas a bordo por lei — e por tradição. Mas também sabia que Jeanne era muito mais do que uma simples empregada: ela era sua colaboradora intelectual, uma naturalista nata. Assim, decidiram quebrar as regras. Jeanne cortou os cabelos, assumiu um nome masculino e embarcou clandestinamente disfarçada de homem.
Durante a jornada ao redor do mundo, Commerson ficou debilitado por uma grave infecção na perna, o que tornou Jeanne ainda mais essencial. Em paradas como no Brasil, foi ela quem explorou a mata, coletou amostras de plantas exóticas, fez anotações minuciosas e levou o material ao navio para análise. Seu trabalho contribuiu enormemente para a botânica da época — embora jamais tenha recebido o devido crédito.
Mas o segredo não duraria para sempre.
Ao chegar ao Taiti, nativos rapidamente reconheceram que Jeanne era, na verdade, uma mulher. A revelação abalou a tripulação. Ela foi acusada, atacada e humilhada. E, ainda assim, resistiu. Ao lado de Commerson, desembarcou nas Ilhas Maurício, onde continuaram seus estudos botânicos sob a proteção do governador local, também francês. Juntos classificaram centenas de espécies da flora local.
Commerson faleceu em 1773, e mais uma vez, Jeanne viu-se sozinha no mundo. Mas não se entregou. Casou-se com Jean Dubernat, um militar francês, e voltou à sua terra natal. E foi assim, discretamente, sem honras nem celebrações, que Jeanne Baret concluiu a volta ao mundo — tornando-se a primeira mulher da história a fazê-lo.
Morreu em 1807, aos 67 anos, sem ter sido reconhecida por sua bravura, inteligência e contribuição à ciência.
Hoje, sua história ecoa como um símbolo de resistência, coragem e paixão pelo conhecimento.
Uma mulher que precisou esconder quem era para provar do que era capaz. E mesmo assim, deixou sua marca para sempre.
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