20/04/2026
Há pessoas que vivem como se só existissem duas possibilidades: tudo ou nada.
Tudo de uma vez. Tudo perfeito. Tudo correspondido. Tudo resolvido.
Ou então nada. Nada serve. Nada basta. Nada vale. Nada continua.
Essa lógica parece objetiva, mas quase nunca é. Na psicanálise, esse funcionamento pode revelar muito mais do que uma simples forma de pensar. Ele pode apontar para uma dificuldade de sustentar o entre, o intervalo, a falta, a espera, a imperfeição, o inacabado. E é justamente aí que muita coisa da vida acontece.
A imagem diz muito sem dizer tudo: No primeiro quadro, “tudo”. No segundo, “ou”. No terceiro, o vazio. E talvez seja exatamente esse vazio que mais incomoda.
Porque o branco final não entrega a resposta. Não fecha a frase. Não organiza a angústia. Ele devolve ao observador a responsabilidade de completar aquilo que falta. E nem sempre estamos prontos para isso.
Muitas vezes, o “tudo ou nada” não é força. É defesa.
É uma tentativa rígida de não entrar em contato com aquilo que escapa ao controle. Afinal, onde não há meio-termo, também não há risco de elaborar nuances. Só resta a fantasia de plenitude ou o abismo da ausência.
Mas a vida psíquica não se sustenta bem nos extremos por muito tempo.
Desejar não é ter tudo. Frustrar-se não é ficar sem nada. Amar não é fusão. Perder não é desaparecer.
Maturidade emocional, em muitos casos, começa quando alguém suporta não preencher imediatamente o último quadro.
Talvez o mais difícil não seja lidar com o nada. Talvez seja suportar o espaço em branco.
Aquele lugar onde não há garantia, mas há verdade. Onde não há completude, mas há possibilidade. Onde não há resposta pronta, mas há sujeito.
E você, quando olha para esse vazio, completa com o quê? Se esse tema toca algo em você, talvez exista aí uma boa pergunta para ser escutada com mais profundidade.
Carina Neves
Psicóloga e Psicanalista
Atendimentos presenciais e online pelos canais digitais.