29/03/2026
Não sei se isso acontece com outras mães, mas a maternidade tem me feito revisitar, no corpo, sensações antigas.
Como se, de repente, eu estivesse de novo no frio e na garoa do Parque Augusta. Ou sentisse nas bochechas o vento de um dia de sol, caminhando pela Unifesp, a caminho de um café com bolo naquela padaria de esquina bem paulistana. Às vezes, é a umidade de Alter do Chão que retorna à pele, junto com o cheiro de protetor solar e a luz forte antes de pegar um barco.
São memórias que não vêm como lembrança — vêm como sensação.
E talvez isso faça parte de um luto sutil: o da Carol que existia antes. Não como perda, exatamente, mas como transformação.
Hoje, meditando, percebi isso com mais clareza. As sensações vinham, iam, se reorganizavam no corpo. E eu só observava.
Quando abri os olhos, a Cora estava aninhada no meu colo. Sua mão pequena repousava no meu peito. E ali havia algo diferente das memórias: não era passado, nem antecipação. Era presença.
Por um instante, pensei que estar tão presente pudesse intensificar esse luto — como se ver com clareza tornasse a mudança mais dura.
Mas foi o contrário.
A presença não aprofunda a perda. Ela sustenta a travessia.
É ela que permite que as memórias existam sem nos levar com elas.
E que o agora — com tudo o que é — também possa ser habitado.
Talvez seja isso que o mindfulness me ensina, hoje, na prática mais concreta que já vivi:
não interromper o fluxo da experiência, mas aprender a estar com ele.
Respiração após respiração. Momento após momento.