17/02/2026
Ouvir de uma paciente idosa, no auge dos seus 90 anos, que o único pedido que ela me faria era que eu tratasse seu Mieloma sem tirar sua autonomia, mas que eu a tratasse, pois “o outro médico desistiu pela sua idade” me deixou bastante reflexivo. Está cada vez mais desafiador acompanhar os avanços da Medicina. Novas terapias, dr**as inteligentes e protocolos de precisão prometem um futuro onde o câncer pode se tornar uma condição crônica e não seria muito devanio dizer, curável. No entanto, ao direcionarmos nossos olhos para o horizonte da inovação, corremos o risco de negligenciar um grupo que já está aqui, e que cresce a cada dia: os pacientes idosos com doenças oncohematológicas.
O diagnóstico de uma leucemia, um linfoma ou um mieloma em indivíduos com mais de 75, 80 ou mesmo nonagenários frequentemente esbarra em um paradigma médico e social perigoso: o do idadeísmo terapêutico. A velhice, por si só, ainda é equivocadamente vista por muitos como um critério clínico definitivo. A frase “é muito idoso para aguentar o tratamento” ecoa em consultórios, não raro antecedendo uma avaliação geriátrica abrangente. Oferecer apenas cuidados paliativos de entrada, sem considerar o potencial de vida e resiliência do indivíduo, é uma forma sutil de abdicação.
Não se trata, evidentemente, de uma defesa irresponsável de terapias agressivas a qualquer custo. O cerne da questão é a individualização. Um octogenário ativo, com boa rede de apoio, função cognitiva preservada e comorbidades controladas pode ser um candidato melhor a um tratamento com intenção curativa do que um sexagenário frágil e com múltiplas patologias. A idade cronológica é um número pobre; a idade biológica e funcional é o verdadeiro guia.
(Continua nos comentários…)