03/10/2024
Se você já passou pela minha vida - ou faz parte dela, peço que leia esse post até o final.
Muitos ainda não sabem, mas recebi meu diagnóstico do TEA há aproximadamente 2 anos e nesse período vivi as 4 fases do pós-diagnóstico:
1) Euforia: Quando nós, autistas, recebemos o diagnóstico tardio, ficamos aliviados porque muitos acontecimentos do passado começam a ter explicação e a culpa que sentíamos por nos sentirmos inadequados passa e aí começamos a nos ver com mais gentileza;
2) Raiva: Com o tempo, vamos percebendo todos os prejuízos que tivemos e o quanto ficamos "para trás" na corrida social. Quantos amigos perdemos, quantas oportunidades de trabalho ficaram de lado, quantos projetos incríveis inacabados e quantas experiências sociais precisamos abrir mão em virtude das milhares de crises sensoriais que tínhamos e que nem sabíamos que eram crises. Começamos a realmente enxergar o quanto perdemos com o diagnóstico tardio e a falta do suporte à época certa;
3) Depressão: Quando a raiva passa, começamos a luta pelas terapias e por conscientizar as pessoas que estão à nossa volta. A gente acha que vai ser acolhida, ... O que recebemos é um balde de preconceito, capacitismo e julgamento. Resultado: A gente se dá conta de que nada é tão simples e que o fato de sabermos o motivo de tudo, não é suficiente para consertar o passado e nem escrever um novo futuro. Os planos de saúde não colaboram, o governo não tem capacidade para nos atender e na rede privada faltam profissionais que atendam adultos "funcionais" e que realmente tenham experiência com pacientes que possuam altas habilidades e superdotação. Os que têm esse conhecimento são caríssimos. Neste momento somos invadidos de sentimentos de medo, tristeza, solidão e desesperança. Começamos a ver que a solução é buscar outros adultos que tiveram seus diagnósticos tardiamente para nos apoiar.
Aceitação: Com o exemplo de outros autistas adultos vamos conseguindo levantar da cama, reescrever uma nova história e seguir em frente. Vamos aprendendo a aceitar como são nossas crises, a evitar programações com sabedoria e, principalmente, vamos entendendo como podemos ser "funcionais" profissionalmente.
Eu mudei a minha forma de advogar, peguei meus 18 anos de experiência na advocacia empresarial e minha habilidade de ensinar e escrevi um livro, formatei uma palestra sobre o tema e desenhei um treinamento para líderes de equipes.
Eu aprendi que na vida a gente tem 2 grandes alegrias: Uma é quando a gente nasce, e a outra, é quando a gente descobre porquê nasceu. Agora eu sei que eu nasci para isso: para ser a voz de outros autistas adultos e ao mesmo tempo ser apoio para a sociedade.
Um dia peguei uma carona com 3 pessoas que não se conheciam e, ao contar minha história, soube que todos tinham contato com pessoas autistas na família. Os 3 me disseram que eu havia transformado a vida deles porque eles não entendiam muita coisa e haviam punido injustamente "seus autistas". Os 3 se emocionaram e mandaram mensagens carinhosas para os seus (uma filha, um namorado e um pai). Se eu consegui fazer isso em um carro, na estrada, durante um comboio Sp-Santos, imaginem o que eu posso fazer em um ambiente adequado!
Deus é tão perfeito que me permitiu ter uma sólida experiência em grandes empresas, fazendo com que eu soubesse me posicionar nestes ambientes e falar com empregados e diretores. Ou seja, minha missão em conscientizar a sociedade é através das empresas, pois é lá que estão milhares de pais e mães que muitas vezes nem sabem que são ou que têm filhos atípicos. Eles estão sofrendo com suas rotinas e nem imaginam que pode ser por isso.
Ser autista nível 01 ou 02 de suporte não é nada simples. Está bem longe de ser leve, então, por favor, parem de desqualificar nossos diagnósticos e comecem a nos ouvir com generosidade. A sociedade precisa começar a mudar. Hoje somos 1 autista para cada 36 neurotípicos e este dado nem está atualizado. Como será daqui a 10 anos? Que mundo você está deixando para seus filhos e netos? A minha palestra é impactante e motivacional sim, mas acima de tudo, é rica em conhecimento. Peço a você, que está do outro lado da tela, que me indique para uma empresa que conhece, eu quero servir e estou à disposição.
E antes que você comente aqui: "Ah, você não parece autista", permita-me dizer: autista não tem cara, nem todo autista tem estereotipias visíveis, nem todo autista tem as mesmas comorbidades e a maioria das autistas mulheres mascara os sintomas, o que piora tudo. O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento, é uma deficiência oculta. E essa é só a pontinha de um iceberg imenso que eu quero explicar.
As principais dificuldades das pessoas com TEA são: linguagem, interação social, processos de comunicação e comportamento social. Não se engane, falar não é o mesmo que comunicar. Ensinar não é o mesmo que se relacionar. Eu falo e ensino bem, mas para essas duas funções eu não preciso ser boa em reciprocidade social (coisa que não sou). Enfim, se eu continuar explicando tudo, vou acabar explodindo os caracteres e postando meu livro na íntegra em um post 😅.
Posso contar com você? Você pode compartilhar este post com alguém que trabalhe em alguma empresa? Me ajuda a ajudar alguém?
Vou deixar meus contatos abaixo:
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Obrigada por ter chegado até aqui!