27/07/2024
Cada paciente é único. Nos últimos anos, alguns milhares de animais passaram pelas minhas mãos, meus cuidados, e alguns acabaram sendo mais marcantes do que outros.
Esse safado aí é o Queijo, um doguinho super bonzinho e simpático, que veio na clínica para tratar dos seus problemas oculares (xeroftalmia, vulgo olho seco e uma úlcera de córnea). Seus tutores estavam com muita dificuldade em passar os colírios, e nós, com muita dificuldade em realizar os exames nos seus olhos, pois ele vira uma fera, rosna e tenta morder quando nos aproximamos dos olhos dele. Felizmente (ou infelizmente) nós precisamos usar algumas técnicas de contenção para conseguirmos fazer os exames.
E sim, ele tentou me morder, tentou morder o Pedro (nosso clínico), ficou pi***la mesmo. Mas com bastante esforço conseguimos realizar os exames e pingar os colírios que ele necessitava.
Acontece que cerca de cinco minutos depois de lutarmos contra a braveza do Queijo, ele voltou a ser o cão simpático e engraçado de sempre. E para fechar, dormiu na minha mochila de anestésicos.
Entra aí a reflexão. Nós seres humanos somos rancorosos por natureza. Se eu fosse ele, jamais voltaria a chegar perto de quem enfiou e pingou coisas nos meus olhos. Mas ele não. Fiquei pensando como seria a humanidade se tivéssemos um pouco mais de "humanidade" como o Queijo.
Pessoas fazem mal umas às outras, e isso acaba com o nosso dia. Uma fechada no trânsito, uma resposta atravessada, uma situação indesejada que nos faz ficar pensando naquilo por horas, dias ou até mais. E eventualmente acabamos por mudar a nossa natureza e nosso modo de agir baseado nesses pequenos "traumas".
O Queijo voltou a ser o cachorro simpático de sempre e, com o tempo, se acostumou ao manejo dos veterinários e facilitou o seu tratamento ocular.
Fico pensando se fôssemos como o Queijo. O mundo certamente seria um lugar melhor para se viver.
Destes milhares, o Queijo foi um dos que me marcaram.
Seja como o Queijo.