13/08/2026
Para refletirmos...
Há pessoas em Cabo Verde que precisam de ajuda, sabem que precisam de ajuda, mas continuam a não procurar.
Algumas têm medo do diagnóstico. Outras têm vergonha. Outras pensam que serão julgadas.
Mas existe ainda um medo sobre o qual precisamos de falar mais. O medo de que aquilo que será contado dentro de um consultório deixe de permanecer dentro dele.
Este é um assunto delicado. Talvez até desconfortável. Mas, enquanto profissional de saúde mental e enquanto cabo-verdiano preocupado com o bem-estar da nossa população, acredito que existem assuntos que precisam ser discutidos precisamente porque são desconfortáveis: 𝐅𝐚𝐥𝐨 𝐝𝐨 𝐬𝐢𝐠𝐢𝐥𝐨 𝐩𝐫𝐨𝐟𝐢𝐬𝐬𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥.
Não para apontar o dedo a ninguém.
Não para colocar toda uma classe profissional no mesmo lugar. Não para afirmar que todos os profissionais quebram o sigilo. Isso seria injusto e cientif**amente incorreto.
Falo porque uma única experiência de quebra de confiança pode ser suficiente para uma pessoa decidir nunca mais procurar ajuda.
E quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas individual. Passa a ser um problema de saúde pública.
𝐎 𝐪𝐮𝐞 𝐞́ 𝐫𝐞𝐚𝐥𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐨 𝐬𝐢𝐠𝐢𝐥𝐨 𝐩𝐫𝐨𝐟𝐢𝐬𝐬𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥?
Muitas pessoas pensam que sigilo profissional signif**a apenas não contar a alguém aquilo que o paciente disse durante uma consulta, porém é muito mais do que isso.
Quando uma pessoa procura um profissional de saúde, entrega muito mais do que palavras.
Entrega informações sobre o seu corpo.
Sobre a sua família.
Sobre a sua sexualidade.
Sobre os seus medos.
Sobre os seus conflitos.
Sobre os seus comportamentos.
Sobre aquilo que talvez nunca tenha conseguido contar a mais ninguém.
Na 𝐏𝐬𝐢𝐜𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚, por exemplo, uma pessoa pode falar sobre pensamentos que nunca revelou à família, sobre experiências traumáticas, conflitos conjugais, dificuldades se***is, violência, consumo de substâncias, problemas financeiros, relações familiares, pensamentos autodestrutivos ou simplesmente sobre aquilo que sente vergonha de admitir.
Tudo isso faz parte da sua intimidade.
Por isso, o sigilo profissional não é um favor que o profissional faz ao paciente. É um dever ético.
É uma forma de proteger a dignidade, a privacidade e a confiança da pessoa que procurou ajuda.
Em 𝐂𝐚𝐛𝐨 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞, 𝐨 𝐩𝐫𝐨́𝐩𝐫𝐢𝐨 𝐄𝐬𝐭𝐚𝐭𝐮𝐭𝐨 𝐝𝐚 𝐎𝐫𝐝𝐞𝐦 𝐝𝐨𝐬 𝐏𝐬𝐢𝐜𝐨́𝐥𝐨𝐠𝐨𝐬 estabelece que o psicólogo deve defender e fazer defender o sigilo profissional e que é obrigado a guardar segredo relativamente aos factos de que tenha conhecimento no exercício das suas funções.
E a proteção não existe apenas na Psicologia.
O 𝐨𝐫𝐝𝐞𝐧𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐣𝐮𝐫𝐢́𝐝𝐢𝐜𝐨 𝐜𝐚𝐛𝐨-𝐯𝐞𝐫𝐝𝐢𝐚𝐧𝐨 reconhece o segredo profissional em diferentes profissões e prevê responsabilidade pela violação do sigilo profissional.
O 𝐂𝐨́𝐝𝐢𝐠𝐨 𝐏𝐞𝐧𝐚𝐥 𝐝𝐞 𝐂𝐚𝐛𝐨 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞 prevê, inclusive, punição para quem, incumprindo uma obrigação legal de sigilo ou reserva profissional, divulgue segredo de outra pessoa.
Portanto, estamos a falar de algo muito maior do que uma regra de boa educação.
Estamos a falar de ética, direitos, dignidade e responsabilidade profissional.
Mas existe uma coisa que precisamos entender
Sigilo não signif**a que um profissional nunca poderá partilhar qualquer informação em nenhuma circunstância.
Essa ideia também precisa ser corrigida.
Existem situações previstas pela legislação, pela ética profissional e pelas circunstâncias concretas do cuidado em que determinadas informações podem ou devem ser partilhadas.
Pode existir consentimento do próprio utente.
Pode existir uma obrigação legal.
Pode existir uma situação grave em que a proteção da vida ou da integridade de alguém esteja em causa.
Pode também existir necessidade de partilha dentro de uma equipa de saúde que esteja diretamente envolvida no cuidado. Mas mesmo nesses casos existe uma palavra que deveria orientar qualquer profissional responsável: 𝐍𝐞𝐜𝐞𝐬𝐬𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.
Não se deve partilhar tudo simplesmente porque se tem acesso a tudo.
Deve-se partilhar aquilo que é necessário, com quem realmente precisa saber, para uma finalidade legítima de cuidado ou proteção.
Uma informação clínica não se transforma em informação pública porque várias pessoas trabalham no mesmo serviço.
Um colega que não participa no acompanhamento não precisa conhecer detalhes íntimos do paciente apenas por curiosidade.
Um familiar não passa automaticamente a ter direito a conhecer tudo aquilo que um adulto contou numa consulta.
E uma conversa clínica não deve transformar-se numa história contada no corredor, no elevador, no café, no grupo de WhatsApp ou numa conversa entre amigos. Parece básico, mas a investigação mostra que nem sempre é.
Um 𝐞𝐬𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐫𝐞𝐚𝐥𝐢𝐳𝐚𝐝𝐨 𝐧𝐮𝐦 𝐡𝐨𝐬𝐩𝐢𝐭𝐚𝐥 𝐮𝐧𝐢𝐯𝐞𝐫𝐬𝐢𝐭𝐚́𝐫𝐢𝐨 𝐞𝐦 𝐄𝐬𝐩𝐚𝐧𝐡𝐚 observou mais de 33 mil horas de prática clínica e identificou violações de confidencialidade com uma frequência estimada de uma ocorrência a cada 62,5 horas. Mais da metade das violações observadas estavam relacionadas com consulta ou divulgação de dados clínicos ou pessoais a pessoas que não estavam envolvidas no cuidado do paciente.
Muitas ocorreram em espaços públicos, como corredores, elevadores, cafetarias e escadas. Os autores observaram ainda que muitas dessas situações eram não intencionais, mas algumas eram graves e repetidas.
Isto ensina-nos algo importante.Nem toda quebra de sigilo acontece porque alguém decidiu deliberadamente prejudicar um paciente.
Às vezes acontece por descuido.
Por falta de formação.
Por excesso de confiança.
Por uma conversa feita no lugar errado.
Por uma mensagem enviada para a pessoa errada.
Por uma fotografia.
Por uma publicação nas redes sociais.
Por uma conversa dentro de uma instituição onde pessoas que não deveriam ouvir acabam ouvindo.
Mas para quem está do outro lado, a consequência pode ser a mesma.
A confiança é quebrada.
𝐄 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐢𝐚𝐧𝐜̧𝐚 𝐞́ 𝐪𝐮𝐞𝐛𝐫𝐚𝐝𝐚, 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐚𝐜𝐨𝐧𝐭𝐞𝐜𝐞?
Aqui entramos num território muito importante para a Psicologia. Para procurar ajuda, uma pessoa precisa acreditar que existe segurança suficiente para se expor.
A pessoa precisa acreditar que pode dizer:
“Eu estou com medo.”
“Eu não estou bem.”
“Eu pensei em morrer.”
“Estou a sofrer violência.”
“Tenho vergonha do que fiz.”
“Não consigo controlar isto.”
“Não quero que a minha família saiba.”
“Estou a sofrer.”
Essas frases exigem 𝐯𝐮𝐥𝐧𝐞𝐫𝐚𝐛𝐢𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞. E vulnerabilidade exige confiança.
Quando existe a expectativa de que aquilo que será contado poderá circular socialmente, a pessoa pode começar a esconder informações, omitir sintomas, adiar consultas ou simplesmente não procurar ajuda.
Uma 𝐫𝐞𝐯𝐢𝐬𝐚̃𝐨 𝐬𝐢𝐬𝐭𝐞𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝟗𝟎 𝐞𝐬𝐭𝐮𝐝𝐨𝐬 sobre procura de ajuda em adolescentes encontrou que o estigma e as crenças negativas em relação aos serviços e profissionais de saúde mental estavam entre as principais barreiras.
A preocupação com confidencialidade também apareceu como uma barreira importante.
Experiências positivas anteriores com os serviços e maior literacia em saúde mental, por outro lado, funcionaram como facilitadores.
Outra 𝐫𝐞𝐯𝐢𝐬𝐚̃𝐨 𝐬𝐢𝐬𝐭𝐞𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐚, 𝐞𝐧𝐯𝐨𝐥𝐯𝐞𝐧𝐝𝐨 𝟏𝟒𝟒 𝐞𝐬𝐭𝐮𝐝𝐨𝐬 e mais de 90 mil participantes, encontrou uma associação negativa entre estigma e procura de ajuda. Entre as preocupações relacionadas com o estigma, as preocupações com a divulgação de informações estavam entre as mais frequentemente relatadas.
𝐄 𝐡𝐚́ 𝐮𝐦𝐚 𝐫𝐞𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐢𝐜𝐮𝐥𝐚𝐫𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐢𝐦𝐩𝐨𝐫𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐂𝐚𝐛𝐨 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞.
Um 𝐞𝐬𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐬𝐨𝐛𝐫𝐞 𝐚 𝐩𝐫𝐞𝐬𝐭𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐝𝐞 𝐜𝐮𝐢𝐝𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐬𝐚𝐮́𝐝𝐞 𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐬𝐚𝐮́𝐝𝐞 𝐝𝐨 𝐩𝐚𝐢́𝐬, 𝐫𝐞𝐚𝐥𝐢𝐳𝐚𝐝𝐨 𝐞𝐦 𝟐𝟎𝟏𝟓,identificou entre adolescentes entrevistados a falta de confidencialidade como um obstáculo à utilização regular dos serviços.
O problema foi identif**ado em localidades como 𝐕𝐚́𝐫𝐳𝐞𝐚, 𝐓𝐢𝐫𝐚 𝐂𝐡𝐚𝐩𝐞́𝐮, 𝐄𝐬𝐩𝐚𝐫𝐠𝐨𝐬 𝐞 𝐒𝐚𝐥 𝐑𝐞𝐢.
Ou seja, não estamos a falar apenas de uma preocupação abstrata.
Há evidência de que a confidencialidade influencia a relação das pessoas com os serviços de saúde em Cabo Verde.
E isso merece a nossa atenção.
Na saúde mental, isto pode ser ainda mais delicado.
Imagine um adolescente que descobre que aquilo que contou numa consulta chegou aos ouvidos de colegas, familiares ou pessoas da comunidade.
Imagine uma mulher que procura ajuda porque está a sofrer violência e depois percebe que pessoas da sua comunidade conhecem detalhes da sua situação.
Imagine um homem que finalmente decide falar sobre depressão, ansiedade, dependência ou pensamentos suicidas e depois descobre que a informação circulou.
Imagine alguém que procura ajuda psicológica porque está a enfrentar um conflito familiar e, dias depois, percebe que outras pessoas sabem detalhes daquilo que foi conversado.
Talvez essa pessoa nunca mais procure ajuda.
E talvez, na próxima vez que estiver a sofrer, escolha o silêncio.
É aqui que uma quebra de sigilo pode produzir uma consequência muito maior do que a exposição de uma informação.
Pode ensinar ao cérebro e à pessoa uma mensagem perigosa:
“Não é seguro confiar.”
A 𝐧𝐞𝐮𝐫𝐨𝐜𝐢𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚 mostra que o cérebro humano possui sistemas envolvidos na avaliação da confiança e da possibilidade de confiar ou não em outras pessoas.
𝐄𝐬𝐭𝐮𝐝𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐧𝐞𝐮𝐫𝐨𝐢𝐦𝐚𝐠𝐞𝐦 mostram, por exemplo, a participação da amígdala na aprendizagem sobre quem é confiável e quem não é.
Quando uma experiência demonstra que determinada pessoa ou contexto não é confiável, essa informação passa a influenciar decisões futuras de confiança.
É importante não simplif**ar isto dizendo que “uma quebra de sigilo estraga o cérebro”. A ciência não permite essa conclusão. Mas permite compreender algo muito mais humano.
Nós aprendemos com as nossas experiências sociais. Quando somos respeitados, podemos aprender que é possível confiar.
Quando somos expostos, humilhados ou traídos, podemos aprender a proteger-nos.
E uma pessoa que aprende que falar traz consequências pode começar a escolher não falar.
𝐂𝐚𝐛𝐨 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞 𝐞́ 𝐮𝐦𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐩𝐞𝐪𝐮𝐞𝐧𝐚. 𝐈𝐬𝐬𝐨 𝐭𝐨𝐫𝐧𝐚 𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐚𝐢𝐧𝐝𝐚 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐬𝐞𝐧𝐬𝐢́𝐯𝐞𝐥.
Nós conhecemo-nos. Temos familiares em comum. Temos amigos em comum. Encontramo-nos na rua.
Trabalhamos em instituições onde conhecemos pessoas que conhecem outras pessoas.
É precisamente por vivermos numa sociedade com relações tão próximas que a confidencialidade precisa ser levada ainda mais a sério.
Uma informação que num país muito grande poderia f**ar restrita a um pequeno círculo pode, numa comunidade pequena, espalhar-se rapidamente.
E quando estamos a falar de saúde, doença, saúde mental, sexualidade, violência, diagnóstico ou problemas familiares, a circulação dessa informação pode produzir vergonha, discriminação, conflitos familiares, isolamento social e até afastamento dos serviços de saúde.
𝐄𝐦 𝐣𝐮𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞 𝟐𝟎𝟐𝟔, uma médica cabo-verdiana chamou atenção para esta realidade ao afirmar que o receio de divulgação de informações clínicas faz com que alguns jovens evitem os serviços da sua própria área de residência e procurem atendimento noutros centros.
Paremos um momento para pensar nisso.
Uma pessoa precisar de ajuda e atravessar uma parte da cidade, ou procurar outro serviço, apenas porque não se sente suficientemente segura para ser atendida perto de casa.
Isto deveria fazer-nos refletir. O problema não é apenas a quebra do sigilo. É a cultura que pode permitir que ela aconteça.
Precisamos deixar de pensar que ética profissional é apenas aquilo que está escrito num código.
Ética também está na maneira como falamos sobre os pacientes quando eles não estão presentes.
Está na maneira como guardamos os processos.
Está na forma como utilizamos o WhatsApp.
Está na proteção dos computadores e telemóveis.
Está na forma como chamamos um paciente na receção.
Está no cuidado que temos para não conversar sobre casos em espaços onde outras pessoas podem ouvir.
Está naquilo que publicamos nas redes sociais.
Está naquilo que contamos aos nossos amigos.
Está na capacidade de reconhecer que ter acesso a uma informação não signif**a ter autorização para divulgá-la.
É também por isso que a formação sobre sigilo não deveria terminar quando um profissional recebe o seu diploma.
𝐀 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐬𝐭𝐢𝐠𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐫𝐞𝐚𝐥𝐢𝐳𝐚𝐝𝐚 𝐧𝐨 𝐁𝐫𝐚𝐬𝐢𝐥 𝐜𝐨𝐦 𝟑𝟒𝟎 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐢𝐜𝐢𝐩𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬, entre estudantes de Medicina e médicos, mostrou diferenças importantes no conhecimento sobre confidencialidade e concluiu pela necessidade de reforçar o ensino e a formação sobre o tema.
Outro 𝐞𝐬𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐛𝐫𝐚𝐬𝐢𝐥𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐬𝐨𝐛𝐫𝐞 𝐬𝐢𝐠𝐢𝐥𝐨 𝐦𝐞́𝐝𝐢𝐜𝐨 na era digital encontrou conhecimento considerado satisfatório em apenas 55,2% dos médicos avaliados relativamente a aspetos relacionados com sigilo e redes sociais, reforçando a necessidade de educação continuada.
Isto também é um alerta para Cabo Verde.
Não basta dizer ao profissional:
“Tenha cuidado com o sigilo.”
Precisamos formar.
Precisamos discutir casos.
Precisamos atualizar profissionais.
Precisamos criar procedimentos institucionais.
Precisamos proteger os dados.
Precisamos ensinar estudantes.
Precisamos conversar sobre o assunto dentro das próprias equipas de saúde.
E precisamos criar uma cultura em que proteger a informação do utente seja tão importante quanto prestar o cuidado clínico.
E nós, profissionais, também precisamos ter coragem para falar sobre isso
Defender o sigilo profissional não signif**a atacar colegas.
Pelo contrário.
É defender a própria profissão.
É defender aqueles que trabalham corretamente.
É defender a confiança da população.
É dizer ao cidadão:
“𝐐𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐯𝐨𝐜𝐞̂ 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫𝐚𝐫 𝐚𝐣𝐮𝐝𝐚, 𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐚 𝐬𝐞𝐫𝐚́ 𝐭𝐫𝐚𝐭𝐚𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐫𝐞𝐬𝐩𝐞𝐢𝐭𝐨.”
E essa mensagem precisa ser verdadeira.
Não devemos prometer um sigilo absoluto que a lei e a ética não permitem.
Devemos explicar ao utente, desde o início, o que é confidencial, quais são os seus limites e em que circunstâncias determinadas informações podem precisar ser partilhadas.
𝐓𝐫𝐚𝐧𝐬𝐩𝐚𝐫𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐭𝐚𝐦𝐛𝐞́𝐦 𝐠𝐞𝐫𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐢𝐚𝐧𝐜̧𝐚.
Na minha prática clínica, o sigilo profissional não é um detalhe administrativo.
É um dos pilares do meu trabalho.
A pessoa que entra no meu espaço de atendimento precisa saber que encontrou um lugar onde pode falar sem ser transformada em assunto de conversa.
Não signif**a que eu possa prometer que qualquer informação f**ará absolutamente isolada de qualquer circunstância prevista pela lei ou pela ética profissional.
Signif**a que aquilo que me é confiado no exercício da minha profissão é tratado com responsabilidade, respeito, prudência e confidencialidade.
Porque, antes de qualquer diagnóstico, técnica ou intervenção, existe uma pessoa.
E essa pessoa merece sentir-se segura.
Se queremos promover a saúde mental em Cabo Verde, não podemos falar apenas sobre a importância de procurar ajuda. Precisamos recuperar a confiança em Cabo Verde.
Também precisamos construir condições para que as pessoas se sintam seguras para procurá-la.
Não adianta dizer:
“Procure um psicólogo.”
“Vá ao médico.”
“Faça o exame.”
“Procure o centro de saúde.”
Se, ao mesmo tempo, uma pessoa acredita que aquilo que contar poderá circular pela comunidade.
A promoção da saúde começa também pela construção de confiança.
E confiança não se exige.
Constrói-se.
Consulta após consulta.
Pessoa após pessoa.
Profissional após profissional.
Instituição após instituição.
Precisamos de um sistema de saúde onde o cidadão não tenha de escolher entre receber cuidados e proteger a própria intimidade.
Precisamos de profissionais tecnicamente competentes, mas também eticamente responsáveis.
Precisamos de instituições que protejam a privacidade.
Precisamos de cidadãos informados sobre os seus direitos.
E precisamos de falar sobre aquilo que durante demasiado tempo talvez tenha sido tratado apenas nos bastidores.
O sigilo profissional não é silêncio.
É proteção.
Não é cumplicidade.
É responsabilidade.
Não é esconder informação.
É saber quem tem legitimidade para recebê-la, porquê, quando e até onde.
E, acima de tudo, não é um privilégio do profissional.
É uma proteção de quem procura ajuda.
Talvez alguém esteja a ler este texto e a lembrar-se de uma experiência que viveu.
Talvez alguém tenha deixado de procurar um médico.
Talvez alguém tenha desistido da Psicologia.
Talvez alguém tenha contado algo num consultório e depois tenha descoberto que outras pessoas sabiam.
Talvez alguém simplesmente tenha medo de procurar ajuda porque pensa:
“Em Cabo Verde, todo mundo acaba por saber.”
É precisamente essa crença que precisamos combater.
Não com promessas vazias.
Com ética.
Com formação.
Com responsabilidade.
Com fiscalização.
Com respeito.
E, sobretudo, com profissionais que compreendam que, quando uma pessoa entra num consultório e fecha a porta, ela não está apenas a entrar numa sala.
Está a entregar uma parte da sua vida.
Essa confiança merece ser protegida.
Porque quando protegemos o sigilo, não estamos apenas a proteger uma informação.
Estamos a proteger uma pessoa.
E, quando protegemos as pessoas, estamos também a proteger a saúde de Cabo Verde.
Um abraço,
Odair Mendonça Semedo
Psicólogo Clínico capacitado em Promoção da Saúde Mental.
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