04/10/2026
No meu dia a dia acompanhando crianças e adolescentes do nosso país, seja enquanto psicólogo de crianças e adolescentes como educador, venho observando um crescente casos de crianças e adolescentes em que os pais emigraram e que apresentam impacto psicológico que familiares e nem a nossa sociedade vê. Na reflexão de hoje, quero trazer essa questão para juntos e com fundamentos científicos analisar esse tema emergente: 𝗔 𝗲𝗺𝗶𝗴𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼.
O Interessante é que essas crianças e adolescentes sabem exatamente em que país os pais estão, sabem quando telefonam, reconhecem a voz pelo telefone e até conseguem contar quantos dias faltam para o próximo encontro, mas não sabem explicar por que razão, mesmo tendo tudo o que precisam, continuam a sentir que lhes falta alguma coisa. E talvez seja precisamente aqui que precisamos começar a refletir.
Em 𝗖𝗮𝗯𝗼 𝗩𝗲𝗿𝗱𝗲, a emigração faz parte da história de muitas famílias. É, para muitos, um caminho de procura de melhores condições de vida, de realização de sonhos e de construção de um futuro diferente para os filhos. Há sacrifícios, coragem, esperança e muito amor por detrás de tantas partidas.
Desta forma, existe uma realidade sobre a qual precisamos falar mais: a saúde mental de quem f**a.
Como tinha dito anteriormente, tenho acompanhado, na clínica psicológica, na escola e no contacto com crianças e adolescentes, situações que merecem a nossa atenção.
Crianças que vivem com os 𝗮𝘃𝗼́𝘀, 𝘁𝗶𝗼𝘀 𝗼𝘂 𝗼𝘂𝘁𝗿𝗼𝘀 𝗳𝗮𝗺𝗶𝗹𝗶𝗮𝗿𝗲𝘀 enquanto os pais estão fora. Jovens que crescem com a promessa de um reencontro, de um processo de reagrupamento familiar ou de um dia em que finalmente poderão viver com a mãe, o pai ou ambos.
São crianças e adolescentes que podem estar bem cuidadas, alimentadas, matriculadas na escola e rodeadas de pessoas que se preocupam com elas. E, ainda assim, apresentam ansiedade, saudades intensas, medo de perder os pais, tristeza, dificuldades de concentração, desmotivação escolar e uma preocupação constante com o futuro e isso merece ser compreendido, uma vez que cuidar de uma criança ou de um adolescente não é apenas garantir que nada lhe falte materialmente. É também ajudá-la a sentir que não está sozinha emocionalmente.
𝗘 𝗮𝘁𝗲𝗻𝗰̧𝗮̃𝗼: não estou a dizer que os pais que emigraram abandonaram os filhos, nem a desvalorizar o esforço de quem ficou responsável pelos cuidados. A distância não é sinónimo de falta de amor, mas o amor, por si só, nem sempre consegue eliminar os efeitos emocionais de uma separação prolongada.
Uma criança pode compreender que a mãe foi trabalhar para lhe dar uma vida melhor e, ao mesmo tempo, sentir uma tristeza profunda por não poder abraçá-la quando precisa.
Pode estar feliz ao receber uma encomenda ou uma transferência e, minutos depois, sentir saudades. Pode falar com o pai ou a mãe por videochamada e, quando a chamada termina, voltar a sentir o vazio da sua ausência.
A criança não deixa de precisar da presença só porque compreende a razão da partida.
Na Psicologia, existe o conceito de 𝗹𝘂𝘁𝗼 𝗺𝗶𝗴𝗿𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼, que nos ajuda a compreender as perdas emocionais associadas à migração. Não se trata necessariamente de uma morte, mas da ausência de pessoas, lugares, rotinas e relações signif**ativas.
Quando falamos dos filhos que f**am, podemos encontrar uma espécie de luto pela presença que não têm no quotidiano, pelo abraço adiado e por uma infância que vai acontecendo enquanto esperam. E há algo que me preocupa particularmente, pois algumas destas crianças e adolescentes começam a viver emocionalmente no futuro.
A escola deixa de representar uma possibilidade de construção da própria vida e passa a ser vista apenas como uma etapa que precisam suportar até conseguirem emigrar e reencontrar os pais.
𝗘𝘀𝗰𝘂𝘁𝗼 𝗳𝗿𝗮𝘀𝗲𝘀 𝗰𝗼𝗺𝗼: Quando eu for para Portugal... Quando a minha mãe me levar... Quando sair o meu documento...Quando eu estiver com o meu pai...
E os dias passam e parece que esse quando é a única palavra preferida deles.
Os anos escolares avançam. Os processos demoram. As promessas de reencontro continuam, mas a criança não sabe quando acontecerão.
Entretanto, a sua vida está a acontecer aqui. É neste intervalo entre a esperança e a incerteza que precisamos prestar atenção ao sofrimento psicológico. Não porque sonhar em emigrar seja um problema, mas porque nenhuma criança deveria sentir que a sua vida só começará verdadeiramente quando sair de Cabo Verde.
A 𝗶𝗻𝘃𝗲𝘀𝘁𝗶𝗴𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗰𝗶𝗲𝗻𝘁𝗶́𝗳𝗶𝗰𝗮 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 𝗳𝗶𝗹𝗵𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝗽𝗮𝗶𝘀 𝗲𝗺𝗶𝗴𝗿𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀 identif**a associações entre a separação parental e dificuldades emocionais, incluindo ansiedade, sintomas depressivos e solidão.
Uma 𝗿𝗲𝘃𝗶𝘀𝗮̃𝗼 𝘀𝗶𝘀𝘁𝗲𝗺𝗮́𝘁𝗶𝗰𝗮 𝗽𝘂𝗯𝗹𝗶𝗰𝗮𝗱𝗮 𝗲𝗺 𝟮𝟬𝟮𝟬, 𝗾𝘂𝗲 𝗿𝗲𝘂𝗻𝗶𝘂 𝟯𝟬 𝗲𝘀𝘁𝘂𝗱𝗼𝘀, encontrou resultados variáveis entre países e contextos, mostrando também a importância das condições de cuidado, das relações familiares e da comunicação entre pais e filhos (Antia et al., 2020).
Estes resultados não permitem afirmar que todas as crianças com pais emigrados desenvolverão dificuldades psicológicas, nem devem ser automaticamente generalizados à realidade cabo-verdiana, mas são suficientemente relevantes para nos lembrar que esta dimensão merece acompanhamento.
E talvez precisemos de começar a olhar para alguns comportamentos de outra maneira. A criança ou adolescente que parece desinteressada na escola pode estar emocionalmente ocupada com a ausência dos pais.
O adolescente que se mostra irritado pode não estar simplesmente a ser malcriado.
A criança que pergunta repetidamente quando a mãe vem pode estar a tentar encontrar segurança numa situação que não consegue controlar.
O jovem que perdeu a motivação pode estar a sentir que o seu esforço não tem sentido enquanto o reencontro não acontece.
Não devemos atribuir automaticamente todos estes comportamentos à emigração. Mas também não podemos ignorar essa possibilidade quando procuramos compreender o que está por detrás deles.
Por vezes, o comportamento que nos incomoda é a única forma que a criança encontrou para mostrar uma dor que ainda não sabe explicar.
E é por isso que esta reflexão precisa chegar às famílias, aos cuidadores, aos professores e à comunidade.
Precisamos perguntar mais vezes a estas crianças e adolescentes como se sentem, e não apenas se já falaram com os pais.
Precisamos permitir que expressem saudades sem as fazer sentir ingratas.
Precisamos evitar promessas de reencontro que não sabemos se poderão ser cumpridas em determinada data.
Precisamos ajudar os pais que estão fora a manter uma presença afetiva consistente, para além das remessas, dos presentes e das chamadas ocasionais.
Precisamos ajudar os filhos a construir uma vida com sentido no presente, sem lhes retirar o direito de sonhar com o reencontro, porque uma criança ou adolescente não precisa escolher entre amar os pais que partiram e sentir-se ligada às pessoas que cuidam dela aqui.
Pode amar uns e outros. Pode sentir saudades e continuar a crescer. Pode ter esperança no reencontro e, ao mesmo tempo, descobrir possibilidades para a sua vida hoje, mas não precisa fazer esse caminho sozinha.
Enquanto Psicólogo e Educador de Crianças e Adolescentes, acredito que precisamos trazer mais atenção psicológica para esta realidade.
Não para culpabilizar quem emigra, mas para cuidar daqueles que também vivem as consequências emocionais da partida.
A 𝗮𝗻𝘀𝗶𝗲𝗱𝗮𝗱𝗲, 𝗮 𝘁𝗿𝗶𝘀𝘁𝗲𝘇𝗮 𝗽𝗲𝗿𝘀𝗶𝘀𝘁𝗲𝗻𝘁𝗲, 𝗼 𝗺𝗲𝗱𝗼, 𝗮𝘀 𝗱𝗶𝗳𝗶𝗰𝘂𝗹𝗱𝗮𝗱𝗲𝘀 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗮𝗿𝗲𝘀 𝗲 𝗼 𝘀𝗼𝗳𝗿𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 relacionado com a separação podem e devem ser avaliados.
O 𝗮𝗰𝗼𝗺𝗽𝗮𝗻𝗵𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗽𝘀𝗶𝗰𝗼𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗼 pode ajudar crianças e adolescentes a compreenderem as suas emoções, desenvolverem estratégias para lidar com a saudade, fortalecerem a segurança emocional e recuperarem a motivação e o sentido de continuidade da própria vida.
Para os pais que estão fora, aos familiares que cuidam e aos jovens que vivem esta realidade: pedir ajuda psicológica não signif**a que falharam. Signif**a que reconheceram que também existe uma dimensão emocional que precisa de cuidado.
Se o seu filho ou criança ou adolescente que vive contigo e seus pais estão fora e percebes que estão a viver a ausência parental com sofrimento, ansiedade, dificuldades escolares ou uma espera que parece estar a consumir a sua infância, podemos trabalhar isso em acompanhamento psicológico, respeitando a sua história, a dinâmica familiar e a realidade de cada família.
A emigração pode mudar o país onde uma família vive, mas não deve signif**ar que a saúde mental de quem f**a seja esquecida.
Quem parte também merece cuidado. Quem f**a também precisa de ser escutado. E nenhuma criança ou adolescente deveria ter de suspender a própria vida à espera de voltar a sentir a sua família por perto.
𝗨𝗺 𝗮𝗯𝗿𝗮𝗰̧𝗼,
Odair Mendonça Semedo
Psicólogo de Crianças e Adolescentes
Capacitado em Promoção da Saúde Mental, Autoconhecimento e Inteligência Emocional
C.I.P. 132/2024
𝗥𝗲𝗳𝗲𝗿𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮𝘀 𝗰𝗶𝗲𝗻𝘁𝗶́𝗳𝗶𝗰𝗮𝘀 𝘂𝘁𝗶𝗹𝗶𝘇𝗮𝗱𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗳𝘂𝗻𝗱𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗮 𝗿𝗲𝗳𝗹𝗲𝘅𝗮̃𝗼:
Antia, K., Boucsein, J., Deckert, A., Dambach, P., Bärnighausen, T., & Winkler, V. (2020). Effects of international labour migration on the mental health and well-being of left-behind children: A systematic literature review. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(12), Article 4335. https://doi.org/10.3390/ijerph17124335
Fellmeth, G., Rose-Clarke, K., Zhao, C., Busert, L. K., Zheng, Y., Massazza, A., Sonmez, H., Eder, B., Blewitt, A., Lertgrai, W., Orcutt, M., Ricci, K., Mohamed-Ahmed, O., Burns, R., Knipe, D., Hargreaves, S., Hesketh, T., Opondo, C., & Devakumar, D. (2018). Health impacts of parental migration on left-behind children and adolescents: A systematic review and meta-analysis. The Lancet, 392(10164), 2567–2582.
https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)32558-3
Wang, Y., Li, X., Yang, P., & Yu, Z. (2024). Does parental migration affect left-behind children’s social anxiety? A systematic review and meta-analysis. International Journal of Mental Health Promotion, 26(5), 335–343. https://doi.org/10.32604/ijmhp.2024.048483