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SEM LUVAS Podcast 🎙️ SEM LUVAS | Transparência radical na saúde 🇲🇿
Médicos e cidadãos em diálogo direto sobre ética, direitos e realidade do SNS. Sem filtros, apenas a verdade.

Só se resolve um problema quando se admite que é um problema…

18/10/2026
04/10/2026
06/09/2026

28/06/2026

Hoje quero falar sobre um assunto muito importante, motivado por uma chamada que recebi de uma pessoa conhecida. O seu familiar está internado há quase uma semana e, até hoje, a família não sabe exatamente o que ele tem, qual é o plano de tratamento nem quais são as expectativas da sua evolução.

Infelizmente, esta não é uma situação isolada.

Durante muitos anos, a medicina foi baseada num modelo paternalista, em que o médico decidia tudo e o doente apenas seguia as orientações. Mas a medicina moderna evoluiu.

Hoje, o doente e, quando necessário, o seu cuidador ou familiar, fazem parte da equipa de cuidados e devem participar na tomada de decisões sobre o tratamento, sempre que isso seja possível.

Em Moçambique, onde frequentemente enfrentamos limitações de medicamentos, exames e outros recursos, é ainda mais importante que a família esteja informada. Quando os familiares compreendem o que está a acontecer, conseguem colaborar melhor com a equipa de saúde, participar nas decisões quando necessário e evitar especulações ou mal-entendidos.

Por isso, quero deixar três recomendações muito simples para todas as famílias que têm um ente querido internado.

**Primeiro:** saiba o nome do médico responsável pelo seu familiar. Conhecer quem acompanha o doente facilita a comunicação e permite esclarecer dúvidas com a pessoa certa.

**Segundo:** pergunte qual é o diagnóstico. Se ainda não houver um diagnóstico definitivo, peça que lhe expliquem quais são as hipóteses em investigação e quais exames estão a ser realizados para chegar ao diagnóstico.

**Terceiro:** solicite informações sobre o prognóstico e o plano terapêutico. Pergunte qual é o tratamento que está a ser feito, quais são os objetivos desse tratamento, quais melhorias são esperadas e quais poderão ser os próximos passos.

Essas informações fazem parte dos direitos do paciente e dos seus familiares, sempre respeitando a vontade e a privacidade do doente.

Lembre-se: fazer perguntas com educação não significa desconfiar da equipa médica. Pelo contrário, demonstra interesse, fortalece a relação de confiança e contribui para um cuidado mais seguro e mais humano.

Uma família bem informada é uma família que apoia melhor o seu doente, compreende as dificuldades do tratamento e ajuda a evitar rumores e desinformação.

As imagens abaixo são excertos de uma conversa num grupo de WhatsApp composto por médicos, onde basicamente um colega pe...
21/05/2026

As imagens abaixo são excertos de uma conversa num grupo de WhatsApp composto por médicos, onde basicamente um colega pedia ajuda para perceber qual era o nome do fármaco que outro médico tinha prescrito ao seu familiar, partilhando apenas a fotografia da receita.

Como podem ver, até para médicos, surgiram várias hipóteses de leitura da mesma palavra e qualquer uma delas parecia correcta.

Isso abre espaço para um cenário perigoso: “o doente pode comprar ou receber um medicamento errado.”

É disso que vamos falar hoje.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, os erros relacionados com medicamentos estão entre as principais causas de danos evitáveis nos sistemas de saúde e representam um custo estimado em cerca de 42 mil milhões de dólares por ano globalmente.

Nos Estados Unidos, diferentes estudos estimam dezenas de milhares de mortes por ano relacionadas com erros médicos evitáveis, incluindo erros de medicação e prescrição. Algumas estimativas apontam para 44.000-98.000 mortes por ano devido a erros médicos.

E em Moçambique?

Até ao momento, não existem dados nacionais públicos consolidados que permitam estimar a mortalidade por erros médicos incluindo erros de prescrição.

Mas será porque não se morre por erro de prescrição?
Ou será porque ainda estamos a gerir as mortes por falta daquilo que está na prescrição? (Sim, a falta de medicamentos no sistema nacional de saúde, é uma realidade que não deve ser ignorada, mas isso é matéria para outra crónica)

Em Moçambique não levamos suficientemente a sério os danos que a famosa “letra do médico” pode causar.

Uma letra ilegível pode:
• Causar má comunicação entre profissionais de saúde;
• Levar o doente a receber o medicamento errado;
• Comprometer o seguimento clínico porque o próximo colega não percebe o que já foi feito;
• Provocar duplicação de exames ou tratamentos desnecessários;
• Atrasar decisões clínicas importantes;
• Gerar erros na farmácia e na administração do medicamento.

A grande revelação de hoje que sei que vai decepcionar a alguns, é a seguinte:

- Não existe isso de “letra de médico”.

Isso mesmo, o que existe é letra legível e letra ilegível.

Às vezes escreve-se mal por hábito, pressa, desorganização ou falta de preocupação com quem vai ler. Algumas pessoas defendem também que, em certos casos, a escrita confusa acaba por funcionar como uma forma de esconder inseguranças ou reduzir responsabilização (sim, é verdade).

Caro profissional de saúde:

A sua letra não precisa de ser bonita, ela só precisa de cumprir um requisito básico:

• “Todas as pessoas que a lerem devem perceber exactamente a mesma coisa.”

Escrever de forma ilegível não te faz médico ou bom profissional, ao contrário, coloca a vida do paciente em risco totalmente desnecessário.

Caro utente:
Não saia do consultório sem perceber o que está escrito na receita. Pergunte o nome do medicamento, a dose, quantas vezes por dia devem tomar e durante quanto tempo. Se necessário, anote no telemóvel.

Porque no fim do dia, quem vai tomar o medicamento errado é você.

19/05/2026

Lembrete para hoje.

Caro profissional de saúde, não existe isso de “levei um kit de primeiros socorros no hospital”.

• A frase correcta é: roubei um kit de primeiros socorros no hospital.

Não existe isso de:
“Levei um rolo de gaze no hospital.”

• A frase correcta é:
Roubei um rolo de gaze no hospital.

“Espera amanhã, vou levar algodão no hospital e vou trazer para ti.”

• A frase correcta é:
Espera amanhã, vou roubar algodão no hospital e trazer para ti.

Ao “levar” material do hospital (que, na verdade, é roubar) você está a agravar ainda mais a falta de material nas unidades sanitárias, material esse que é inexistente porque o governo não compra para as unidades sanitárias.

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