11/10/2026
"No Alentejo, caiar a casa era uma competição e a vizinha estava a ver.
Todos os anos, na primavera, as mulheres caiavam as paredes, também por vaidade, mas a cal não estava ali só para impressionar. Primeiro, o calor. O branco reflecte a luz do Sol e a casa aguenta melhor o verão. Depois, a própria casa, era feita de adobe e taipa, ou seja de terra. A cal liga bem com a terra, deixa a parede respirar e ajuda a travar a humidade e os fungos. Em betão armado já não funciona e havia a higiene.
A cal é alcalina e desinfecta. Na epidemia de cólera de mil oitocentos e cinquenta e cinco, estava na lista dos desinfectantes aconselhados, ao lado do formol e do ácido fénico. Para tudo isto, o preço ajudava, era barata.
No Alentejo, chegava de barco pelo Guadiana e seguia de carroça até à porta. Por isso, a competição fazia todo o sentido. A vizinha olhava para o branco. A parede, essa, estava a trabalhar.
(...) cores mais vivas nos contornos das janelas, das portas e na parte inferior das fachadas, sendo as cores mais utilizadas o azul ou amarelo. A escolha dessas cores não é ao acaso; segundo as tradições alentejanas, estas cores evitavam que os insetos e os maus espíritos invadissem a casa."
Fonte: Maciel Arts e João Monge Ferreira