07/04/2026
Hoje, a querida Marta Rechena | Psicologia da Saúde partilhou um texto que, embora de um autor desconhecido, tem uma analogia lindíssima e me conduziu a uma reflexão pessoal muito significativa:
”Dizemos que a primavera chega para todos, mas as flores não abrem ao mesmo tempo. A magnólia floresce quando o inverno ainda morde, a rosa espera pelo calor pleno, e o girassol só se ergue quando o sol está no topo. Se a magnólia se comparasse ao girassol, sentir-se-ia apressada. Se o girassol se comparasse à magnólia, sentir-se-ia atrasado. Mas a natureza não conhece o atraso; conhece apenas o amadurecimento.”
Quando surge a sensação de atraso, talvez possamos parar por um momento e fazer uma pergunta simples: atrasada em relação a quê, exatamente? Em relação a que flor? À magnólia que floresce ainda no frio, à rosa que espera pelo calor certo, ou ao girassol que só se levanta quando o sol está no auge?
A natureza não se organiza por comparações, organiza-se por ritmos. E, ainda assim, tantas vezes olhamos para o jardim dos outros como se fosse a medida certa para o nosso.
Talvez possamos, com alguma gentileza, mudar a forma como nomeamos aquilo que estamos a viver. Em vez de “ainda não floresci” ou “ainda não dei fruto”, talvez possamos dizer: estou a enraizar. Porque a raiz não se vê, mas é onde tudo começa. É no escuro, no silêncio e na profundidade que se constrói a possibilidade de vir a florescer. Não é ausência, falha ou atraso. É um processo.
E importa também não romantizar este lugar. Enraizar é, muitas vezes, cansativo e solitário. É cuidar do solo sem garantias visíveis, é continuar a regar quando ainda não há sinais à superfície, é sustentar a esperança num tempo que não controlamos. Mas isso não o torna menos real. Pelo contrário, torna-o mais exigente, mais corajoso, mais digno de ser reconhecido.
Nem todas estamos na fase da flor. Nem todas estamos na fase do fruto. Algumas de nós estão, precisamente, no momento mais invisível e estrutural de todos: a criar raiz.
E isso, embora não se veja, é o que sustenta tudo o que poderá vir a crescer.
🤍