Sophie Seromenho

Sophie Seromenho Somos uma clínica localizada em Setúbal que alia psicologia, neuropsicologia, nutrição clínica e coaching

Há casais que passam anos a discutir sobre loiça, atrasos, mensagens, s**o, sogros, dinheiro, silêncio. E acreditam, com...
07/09/2026

Há casais que passam anos a discutir sobre loiça, atrasos, mensagens, s**o, sogros, dinheiro, silêncio. E acreditam, com convicção, que é disso que estão a falar.

Quase nunca é.

Por baixo da discussão existe uma pergunta muito mais primitiva: “Ainda contas comigo quando eu te desagrado?” “Continuo a ter valor quando falho?” “Posso precisar de ti sem f**ar nas tuas mãos?” “Se eu baixar a guarda, desapareces?”

O conflito conjugal ganha intensidade quando o presente começa a ser usado como prova de uma verdade antiga. O parceiro atrasa-se e confirma que não somos prioridade. Corrige-nos e confirma que somos inadequados. Afasta-se e confirma que vamos f**ar sozinhos. Aproxima-se demasiado e confirma que não existe espaço para respirar.

É aqui que o casal deixa de reagir ao que aconteceu e começa a reagir ao signif**ado que construiu.

Por isso, muitas relações tornam-se campos de repetição. Um exige para ter a certeza de que importa, o outro afasta-se para não se sentir capturado. Quanto mais um procura, mais o outro foge. Quanto mais o outro foge, mais o primeiro protesta. Ambos acabam a fabricar exatamente aquilo que mais temiam encontrar.

O acompanhamento psicológico de casal interessa-se por esta coreografia invisível.

Não basta melhorar a comunicação quando a frase é apenas a superfície. É preciso perceber quem fala dentro de cada pessoa quando ela se sente ameaçada, que posição ocupa o outro naquele momento, que medo foi ativado, que necessidade ficou sem nome.

Até o desejo pode desaparecer quando a relação se torna excessivamente segura, previsível ou fusional. Para desejar alguém, é preciso continuar a reconhecê-lo como outro. Quando o casal elimina toda a distância, pode eliminar também parte da tensão que sustenta o erotismo.

Amar alguém durante muito tempo implica sim uma tarefa pouco romântica, mas muito adulta: conseguir distinguir o outro real daquele que construímos dentro de nós.

Porque muitas relações começam a mudar quando deixamos de perguntar apenas “o que fizeste comigo?” e começamos a perguntar “porque é que isto, em mim, ganhou este tamanho?”

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

Talvez o problema comece quando perguntamos demasiado depressa: “esta pessoa faz-me feliz?”É uma pergunta sedutora, mas ...
04/09/2026

Talvez o problema comece quando perguntamos demasiado depressa: “esta pessoa faz-me feliz?”

É uma pergunta sedutora, mas infantilmente absoluta. Coloca o outro no lugar de regulador da nossa vida interna. Se me procura, sinto-me importante. Se se afasta, sinto-me descartável. Se me deseja, existo. Se está distraído, começo a perguntar o que há de errado comigo. Sem percebermos, uma relação pode transformar-se num aparelho sofisticado de medição da nossa própria importância.

E depois chamamos “problemas de relação” a coisas que, muitas vezes, começaram muito antes daquela relação existir.

Há pessoas que precisam de provas constantes porque nunca conseguiram guardar dentro de si a experiência de serem amadas. Há quem interprete distância como abandono, silêncio como rejeição, autonomia como desinteresse. Há quem provoque conflitos precisamente quando tudo está tranquilo, porque a tranquilidade é estranhamente desconhecida e o conflito, pelo menos, confirma que ainda existe alguma ligação.

É por isso que amar pode ser profundamente desconfortável.

Uma relação suficientemente próxima começa inevitavelmente a tocar nos lugares onde somos menos adultos do que imaginávamos. Aparecem ciúmes que envergonham, exigências desproporcionadas, vontade de fugir, necessidade de controlar, medo de depender. O outro torna-se testemunha das partes de nós que preferíamos manter elegantemente escondidas.

É aí que a intimidade realmente começa: Quando conseguimos permanecer perante alguém sem transformar cada frustração numa prova de desamor. Quando podemos precisar sem exigir fusão, zangarmo-nos sem destruir, afastarmo-nos sem abandonar e depender sem desaparecer dentro do outro.

Amar profundamente exige uma capacidade pouco romântica: reconhecer que a pessoa diante de nós nunca será inteiramente nossa.

E continuar a escolhê-la depois dessa descoberta.

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

Há vínculos em que a intimidade soa a amor, mas funciona como uma lenta cedência de território interno. Para evitar o co...
01/09/2026

Há vínculos em que a intimidade soa a amor, mas funciona como uma lenta cedência de território interno. Para evitar o conflito, calamos uma necessidade. Para impedir o afastamento, aceitamos o que nos fere. Para conservar o outro, vamos retirando partes de nós da relação. Um desejo aqui, um limite ali, uma opinião que já não dizemos. Até que a relação permanece, mas quem a habita já quase desapareceu.

Este desaparecimento raramente acontece de uma só vez. Aprende-se muito cedo que ser amado pode depender de sermos fáceis, úteis, previsíveis ou emocionalmente pouco exigentes. A criança adapta-se para proteger o vínculo do qual depende. O problema surge quando essa estratégia atravessa os anos e passa a organizar a intimidade adulta. O corpo aproxima-se, a presença mantém-se, mas o desejo próprio f**a clandestino. A pessoa chama cuidado à vigilância, compreensão à autoanulação e compromisso ao medo de perder.

Um vínculo suficientemente bom suporta duas pessoas inteiras. Permite proximidade sem fusão, distância sem abandono, conflito sem ameaça de destruição. Amar implica reconhecer que o outro tem um mundo interno que não controlamos e preservar o nosso sem o usar como arma. Quando uma relação exige que um dos dois diminua para que o outro se sinta seguro, instala-se uma paz construída sobre o silêncio. E o silêncio prolongado transforma-se em ressentimento, exaustão, ansiedade ou vazio.

Talvez a pergunta decisiva seja «quem me torno quando estou com ela?», além desta: «esta pessoa ama-me?». Consigo pensar, desejar, discordar, descansar e dizer não? Ou passo o tempo a antecipar reações, a corrigir-me e a ocupar cada vez menos espaço?

Estar próximo sem desaparecer exige tolerar que a diferença possa desiludir o outro. Exige aceitar que nenhum vínculo saudável elimina a solidão própria de existir. Intimidade é poder regressar ao outro sem ter de abandonar-se primeiro.

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

Uma das verdades mais difíceis de suportar numa relação é que raramente amamos apenas a pessoa que está diante de nós. A...
29/08/2026

Uma das verdades mais difíceis de suportar numa relação é que raramente amamos apenas a pessoa que está diante de nós. Amamos também aquilo que fizemos dela dentro da nossa cabeça. Amamos a promessa que lhe atribuímos, o lugar que esperamos que ocupe, aquilo que imaginamos que poderá reparar em nós. E talvez seja por isso que algumas desilusões amorosas doam de forma tão desproporcional ao que realmente aconteceu.

Quando alguém não responde como esperávamos, quem nos desiludiu? A pessoa real ou a personagem que construímos silenciosamente para ela representar?

Há relações onde passamos anos a discutir com alguém que talvez nunca tenha existido. Pedimos ao outro que prove que somos importantes, desejáveis, suficientemente bons, impossíveis de abandonar. Depois chamamos amor à urgência com que precisamos dessa confirmação.

As vezes dizemos ou ouvimos: “tu mudaste”, “já não és a pessoa por quem me apaixonei”, “antes eras diferente”. E se o outro não tiver mudado assim tanto? E se apenas tiver começado a escapar ao papel que lhe atribuímos?

Apaixonarmo-nos contém inevitavelmente alguma cegueira. Há sempre uma parte do outro que completamos com material nosso. Vemos o que existe, mas também aquilo que desejamos encontrar. E quanto maior for a nossa fome emocional, mais fácil se torna confundir desejo com conhecimento.

É por isso que a intimidade pode ser muito menos romântica do que imaginamos. Aproximarmo-nos verdadeiramente de alguém exige tolerar a queda da fantasia. Descobrir que aquela pessoa não veio reparar a nossa infância, confirmar permanentemente o nosso valor, adivinhar necessidades que nunca verbalizámos ou preencher todos os lugares vazios que carregamos. E talvez amar comece verdadeiramente quando conseguimos suportar que o outro seja profundamente outro.

E f**a uma pergunta bastante incómoda: se retirasses da pessoa que amas tudo aquilo que projetaste nela, tudo aquilo que esperas receber através dela e tudo aquilo que precisas que ela represente sobre ti, quem sobraria? E ainda escolherias essa pessoa?

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

Há pessoas que passam a vida a tentar não ter medo. E se o problema começar precisamente aí?Porque precisamos de tanta s...
28/08/2026

Há pessoas que passam a vida a tentar não ter medo. E se o problema começar precisamente aí?

Porque precisamos de tanta segurança para viver? O que imaginamos que aconteceria se, por instantes, deixássemos de controlar? Que perigo é esse que antecipamos continuamente? E será o perigo verdadeiramente exterior, ou haverá dentro de nós qualquer coisa que sentimos não conseguir suportar?

A pessoa ansiosa pergunta muitas vezes: “E se correr mal?”. Mas talvez exista uma pergunta anterior: “E se correr bem?”. Porque viver também assusta. Crescer assusta. Amar assusta. Ser visto assusta. Desejar alguma coisa profundamente signif**a reconhecer que precisamos, e reconhecer que precisamos coloca-nos perante a possibilidade de perder.

Então protegemo-nos.

Evitamos a viagem, adiamos a decisão, permanecemos na relação conhecida, antecipamos todas as possibilidades, pensamos antes de sentir. Chamamos prudência ao medo, controlo à insegurança, preparação ao adiamento.

Mas de que nos estamos realmente a proteger?

Se eu não desejar, ninguém me pode frustrar? Se não amar, ninguém me pode abandonar? Se não arriscar, nunca terei de descobrir os meus limites? E se passar a vida inteira a impedir a queda, quando aprenderei que consigo cair sem desaparecer?

Talvez exista na ansiedade uma tentativa profundamente humana de tornar previsível aquilo que nunca o será: a vida.

Mas quanto mais tentamos garantir que nada nos acontece, menos coisas nos acontecem.

E quando é que a proteção começa a custar mais do que aquilo de que nos protege?

Há uma diferença silenciosa entre estar seguro e sentir-se vivo. A segurança procura conservar. O desejo empurra-nos para aquilo que ainda não conhecemos. E amadurecer talvez implique suportar esta tensão sem exigir que uma das partes desapareça.

Porque viver contém sempre risco.

Então talvez a pergunta deixe de ser: “Quando vou finalmente sentir-me segura para viver?”

E passe a ser:

“Enquanto o medo de viver for maior do que o medo de chegar ao fim sem ter vivido, quem estará realmente a escolher a minha vida?”

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

E se a questão nunca tiver sido simplesmente gostarmos ou não gostarmos do nosso corpo?Quando uma mulher diz “quero muda...
26/08/2026

E se a questão nunca tiver sido simplesmente gostarmos ou não gostarmos do nosso corpo?

Quando uma mulher diz “quero mudar isto em mim”, quem está exatamente a falar dentro desse desejo? De onde veio a ideia de que aquela parte precisava de ser diferente? Quando começou a incomodar? Quem estava presente quando começou a ser olhada com vergonha? Que comentários ouviu? Que corpos aprendeu a admirar? E, sobretudo, o que imagina que acontecerá quando finalmente tiver o corpo que deseja?

Será mais desejada? Mais escolhida? Mais segura? Mais feminina? Menos abandonável?

Porque nenhum desejo nasce completamente isolado. Desejamos a partir da nossa história, das relações que tivemos, dos olhares que nos constituíram e das imagens às quais aprendemos a atribuir valor.

Mas isto também não signif**a que todo o desejo estético seja submissão. Podemos perguntar: será que uma mulher deixa de ser livre porque gosta de maquilhagem, quer emagrecer, fazer uma cirurgia ou modif**ar o corpo? Ou retirar-lhe essa possibilidade em nome de uma suposta libertação não seria também decidir por ela aquilo que deveria desejar?

Talvez a pergunta mais incómoda seja outra: quanto há de escolha naquilo que sentimos como escolha?

eu quero ser magra, porque quero ser magra? Se quero parecer mais jovem, o que signif**a para mim envelhecer? Se preciso de me sentir bonita, de quem preciso que venha esse reconhecimento? Se ninguém pudesse ver o meu corpo, continuaria a querer modificá-lo?

E quando digo “faço isto por mim”, quem é esse “mim”? Uma identidade constrói-se também através do olhar dos outros. Então, onde termina o meu desejo e começa aquilo que aprendi a desejar para continuar a ser amada?

Talvez nunca exista uma resposta totalmente limpa.

Podemos desejar genuinamente uma mudança e, ao mesmo tempo, carregar medo de rejeição. Podemos sentir prazer estético e procurar validação. Podemos escolher e estar condicionadas. O psiquismo suporta contradições muito melhor do que os discursos políticos.

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

O corpo das mulheres nunca foi apenas um corpo. Foi, durante séculos, território político, moral, económico e social. Os...
25/08/2026

O corpo das mulheres nunca foi apenas um corpo. Foi, durante séculos, território político, moral, económico e social. Os média e quem nos rodeia dizem-nos como devíamos parecer, quanto espaço podemos ocupar, que partes devíamos esconder, quais devíamos mostrar, quando era aceitável envelhecer, engordar, emagrecer, desejar, parir, amamentar ou simplesmente existir sem pedir desculpa.

Nos, mulheres, aprendemos muito cedo a olhar para o corpo de fora para dentro. Antes de perguntarmos “como me sinto aqui?”, aprendemos a perguntar “como estou a ser vista?” Ou “como quero ser vista pelos outros?”. Imaginem, então, neste cenário, as nossas adolescentes a aprenderem logo aos 11-12 anos a verem o seu corpo feminino sobretudo através do olhar do outro. Elas deixam de ser um lugar de experiência e transformam- se num objeto permanentemente observado, corrigido e avaliado.

E há sempre uma nova exigência! Ser magra, mas com curvas. Ter glúteos, mas pouca gordura. Envelhecer, mas sem parecer velha. Ser mãe, mas recuperar rapidamente o corpo anterior. Ser sensual, mas não demasiado. Cuidar da aparência, mas fingir que não dá trabalho. Amar o corpo, mas continuar a comprar tudo aquilo que promete modificá-lo.

Mas um corpo feminino não precisa de justif**ar as suas mudanças. Pode ter estrias, gordura, músculo, cicatrizes, pelos, rugas, flacidez. Pode transformar-se depois de uma gravidez, de uma doença, de uma perda, do envelhecimento ou simplesmente porque os organismos vivos mudam.
Isto não é sobre não podermos modificá-lo porque obviamente que podemos fazê-lo. Ao contrário do que muitos pensam, o feminismo não exige que uma mulher adore cada centímetro do seu corpo, nem transforma qualquer desejo estético numa traição política. A questão mais interessante é perceber de onde vem esse desejo, quanto há nele de escolha e quanto há de medo de deixar de ser desejável.

Precisamos de ensinar as nossas mulheres a questionar esta vigilância interior que aprendemos desde a adolescência a exercer sobre nós próprias! Porque o corpo feminino tem muito mais para fazer nesta vida do que ser bonito enquanto a atravessa.

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

Os vínculos humanos não sobrevivem porque duas pessoas conseguem nunca falhar uma à outra. Sobrevivem quando a falha pod...
22/08/2026

Os vínculos humanos não sobrevivem porque duas pessoas conseguem nunca falhar uma à outra. Sobrevivem quando a falha pode ser reconhecida, pensada e reparada. Amar alguém implica inevitavelmente desiludi-lo. Não há relação íntima sem desencontro, porque não há duas pessoas com o mesmo desejo, o mesmo ritmo, as mesmas necessidades ou a mesma história.

O problema começa quando esperamos do outro uma presença perfeita. Nesse lugar, qualquer ausência parece abandono, qualquer diferença parece rejeição e qualquer erro parece prova de desamor. A relação deixa então de ser encontro entre duas pessoas inteiras e passa a ser convocada para reparar, permanentemente, uma falta antiga.

Crescer emocionalmente implica poder descobrir outra coisa: posso precisar de ti sem exigir que existas apenas para mim. Posso zangar-me contigo sem precisar de te destruir. Posso desiludir-te sem concluir que deixei de merecer o teu amor. Posso reconhecer que te magoei e aproximar-me novamente.

É nessa possibilidade de reparação que o vínculo amadurece.

Quando alguém falha connosco e consegue permanecer suficientemente próximo para escutar a dor que provocou, acontece algo muito mais transformador. A experiência deixa de confirmar que toda a falha termina em abandono. Surge uma memória emocional nova: podemos magoar-nos e continuar ligados.

Talvez amar seja também isto.. Reconhecer que o outro nunca preencherá completamente aquilo que nos falta e, ainda assim, encontrá-lo. Suportar a frustração de ele ser diferente daquilo que desejávamos, sem deixar de o ver como alguém digno de amor.

Uma relação suficientemente boa não elimina a falta. Dá-nos companhia para a atravessar. E, quando existe culpa, permite transformá-la em responsabilidade, cuidado e reparação.

Porque o vínculo humano não se constrói na perfeição. Constrói-se na capacidade de voltar ao encontro depois daquilo que nos separou.

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

A depressão começa muitas vezes antes da tristeza. Começa quando uma pessoa deixa, pouco a pouco, de poder ser quem é.A ...
19/08/2026

A depressão começa muitas vezes antes da tristeza. Começa quando uma pessoa deixa, pouco a pouco, de poder ser quem é.

A criança precisa do amor dos outros para sobreviver psicologicamente. E, quando percebe que certas partes de si ameaçam esse amor, adapta-se. Se a sua zanga incomoda, aprende a engoli-la. Se a sua autonomia é vivida como afastamento, aprende a depender. Se aquilo que deseja encontra indiferença, crítica ou ausência, aprende a desejar menos. Vai sobrevivendo, mas pagando essa sobrevivência com partes de si.

Talvez uma das dimensões mais profundas da depressão esteja precisamente aqui, no empobrecimento do desejo.

O deprimido pode sofrer porque perdeu alguém, mas também porque se perdeu de si próprio na relação com os outros. Viveu demasiado para corresponder, agradar, não desiludir, conservar vínculos ou conquistar um amor que nunca pareceu inteiramente seguro.

A agressividade, necessária para nos diferenciarmos e defendermos, pode então voltar-se contra o próprio. Em vez de contestar quem o diminuiu, diminui-se. Em vez de reconhecer aquilo que lhe fizeram, acusa-se. Em vez de sentir raiva, sente culpa. A relação que um dia existiu fora passa a acontecer dentro.

É assim que se constrói uma voz interna cruel. “Não valho.” “Não consigo.” “Sou um peso.” O outro já nem precisa de estar presente. O seu olhar foi interiorizado.

Por isso, compreender a depressão exige escutar também aquilo que ficou impedido de existir. A raiva que nunca pôde ser sentida, a necessidade que parecia excessiva, a autonomia que ameaçava o vínculo, o desejo abandonado para continuar a ser amado.

O acompanhamento psicológico procura devolver movimento ao que ficou paralisado. Recuperar a capacidade de sentir, desejar, escolher, investir e amar. Porque há uma diferença profunda entre estar vivo e sentir que a vida nos pertence.

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

Há sintomas que insistem porque carregam uma função que a própria pessoa ainda não consegue reconhecer. Repetem-se no co...
17/08/2026

Há sintomas que insistem porque carregam uma função que a própria pessoa ainda não consegue reconhecer. Repetem-se no corpo, nas relações, nas escolhas, nos medos, nos mesmos lugares onde jurámos que nunca mais voltaríamos. E quanto mais tentamos arrancá-los de nós, mais parecem encontrar outra porta por onde entrar.

O sinthoma (sim, como Lacan escreveu) permite pensar algo ainda mais profundo: há formas de sofrimento que, apesar de dolorosas, ajudam a manter a pessoa psiquicamente organizada. Funcionam como um nó. Um modo singular de manter juntas partes de si que, sem aquele arranjo, poderiam tornar-se difíceis de sustentar.

Por isso, retirar um sintoma sem compreender aquilo que ele segura pode produzir mais angústia do que liberdade.

A obsessão pode organizar o caos.
O controlo pode conter uma sensação profunda de desamparo.
A ansiedade pode manter a pessoa permanentemente preparada para um perigo que já não sabe nomear.
Uma relação destrutiva pode proteger contra uma solidão ainda mais intolerável.
A repetição pode preservar uma ligação inconsciente àquilo que se perdeu.

Há sofrimento, mas há também uma tentativa de solução.

Talvez seja esta uma das ideias mais desconfortáveis da psicologia: aquilo que nos faz sofrer pode, simultaneamente, estar a impedir que alguma coisa dentro de nós se desfaça.

O trabalho psicológico exige então delicadeza. Antes de perguntar “como eliminamos isto?”, talvez seja necessário perguntar: “o que é que isto mantém unido?”

Porque há sintomas que só podem perder a sua necessidade quando encontramos outras formas de sustentar aquilo que eles sustentavam. E, por vezes, a transformação mais profunda acontece quando deixamos de travar uma guerra contra o sintoma e começamos a escutar a estranha lógica com que ele tentou, durante tanto tempo, manter-nos inteiros.

📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt

Endereço

Praça Do Marquês De Pombal, 3, 1º Andar
Setúbal
2900-562

Horário de Funcionamento

09:00 - 21:00

Notificações

Seja o primeiro a receber as novidades e deixe-nos enviar-lhe um email quando Sophie Seromenho publica notícias e promoções. O seu endereço de email não será utilizado para qualquer outro propósito, e pode cancelar a subscrição a qualquer momento.

Atalhos

Compartilhar