Sophie Seromenho

Sophie Seromenho Somos uma clínica localizada em Setúbal que alia psicologia, neuropsicologia, nutrição clínica e coaching

Uma maternidade minimamente saudável dá muito trabalho.Não apenas porque há fraldas para mudar, noites interrompidas e r...
14/06/2026

Uma maternidade minimamente saudável dá muito trabalho.

Não apenas porque há fraldas para mudar, noites interrompidas e rotinas que deixam de existir. Nasce um bebé, mas nasce também uma mãe e um pai. E ninguém lhes ensina a fazer o luto da vida que tinham.

Do silêncio da casa. Do corpo disponível para si próprio. Da espontaneidade do desejo. Do casal que podiam ser antes de haver alguém que dependesse deles para tudo.

A chegada de um filho é um terramoto do amor. Não porque destrua o vínculo, mas porque o obriga a reorganizar-se. O parceiro deixa temporariamente de ser o centro. O sono desaparece. A paciência encurta. A pele f**a mais fina. O pedido de ajuda soa a crítica. O esquecimento parece desamor. Duas pessoas exaustas começam a falar a partir das suas feridas e não das suas intenções.

E, no entanto, é precisamente aqui que o amor adulto é posto à prova.

Amar não é apenas desejar o outro quando tudo corre bem. É conseguir lembrar-se de quem o outro é quando ele já não consegue mostrar a sua melhor versão. É reconhecer que aquela mulher irritada talvez esteja há meses a dormir aos bocados. Que aquele homem distante talvez se sinta perdido no lugar que agora ocupa. É perceber que o inimigo raramente é o parceiro. É, tantas vezes, o cansaço, a solidão e a fantasia cruel de que deveríamos estar a viver isto com gratidão permanente.

Uma maternidade suficientemente boa não precisa de perfeição. Precisa de reparação. De dois adultos capazes de pedir desculpa, de redistribuir o peso, de dizer “eu já não consigo sozinho” sem vergonha.

A maior herança que um casal pode oferecer a um filho não seja a ausência de conflito, mas a experiência de um amor que, apesar do desencontro, encontra sempre o caminho de regresso a casa. Como já disse, o melhor item do enxoval de um bebé é a saúde mental dos seus pais.

Crescer nunca foi aprender a não precisar. Crescer é descobrir que depender, amar e continuar a existir são verbos que se conjugam juntos.

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11/06/2026

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Quando sofremos, o mundo encolhe. A esperança torna-se distante, a curiosidade desaparece, a confiança em nós próprios f...
08/06/2026

Quando sofremos, o mundo encolhe. A esperança torna-se distante, a curiosidade desaparece, a confiança em nós próprios fragmenta-se. E, nesses momentos, precisamos de alguém que conserve por nós aquilo que temporariamente perdemos.

O psicólogo não caminha à tua frente nem te leva pela mão. Caminha ao teu lado. Ajuda-te a olhar para zonas de ti que foram esquecidas, negadas ou abandonadas. Ajuda-te a descobrir palavras para emoções que sempre existiram mas nunca tiveram nome.

Com o tempo, aquilo que inicialmente parecia vir do outro começa a nascer dentro de ti. A serenidade deixa de ser emprestada. A esperança deixa de ser oferecida. A capacidade de pensar, sentir e sonhar regressa como algo próprio.

E esta é a verdadeira beleza do acompanhamento psicológico. Não criar dependência, mas tornar-se progressivamente desnecessário. Porque aquilo que encontraste na relação passa a viver dentro de ti.

E, um dia, percebes que não levas o psicólogo contigo. Levas a parte de ti que ele ajudou a nascer.

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Já pensaram como os adultos têm tanto medo da dependência?Temos tanto medo de precisar dos outros que, por vezes, educam...
06/06/2026

Já pensaram como os adultos têm tanto medo da dependência?

Temos tanto medo de precisar dos outros que, por vezes, educamos os filhos como se o grande objetivo da infância fosse torná-los independentes o mais depressa possível… Queremos que durmam sozinhos assim que saem da maternidade. No seu berço, no seu quarto, sem reclamar. Que se acalmem sozinhos. Que não peçam colo ou muito pouco. Que não chorem muito. Que não fiquem demasiado agarrados. Que precisem menos dos pais… Mas porquê esta urgência? Um bebé nasce completamente dependente!

A dependência não é um erro do desenvolvimento! É o ponto de partida do desenvolvimento. É através dela que aprende quem é, como se sente seguro, como regula as emoções e como constrói confiança nas relações. Mas, infelizmente, vivemos numa cultura que glorif**a a autossuficiência e essa estende-se até ao bebé recém-nascido. Admiramos quem não precisa de ninguém. Quem aguenta tudo sozinho. Quem não incomoda. Quem não pede ajuda. Como se a vulnerabilidade fosse uma fraqueza e a dependência uma falha moral.

Mas a verdade é que ninguém se torna verdadeiramente independente porque foi empurrado para longe das pessoas que ama. Tornamo-nos autónomos porque, em algum momento da vida, nos sentimos suficientemente seguros para nos afastarmos sem medo. Uma criança segura explora. Uma criança segura arrisca. Uma criança segura separa-se. Não porque deixou de precisar dos pais, mas porque aprendeu que a relação continua a existir mesmo quando eles não estão presentes.

Por isso é que tantas discussões sobre parentalidade falam mais das ansiedades dos adultos do que das necessidades dos bebés. Porque um bebé que procura colo, proximidade e conforto está apenas a fazer aquilo para que foi biologicamente programado. Quem parece ter dificuldade em tolerar essa dependência somos nós, os adultos.

O sucesso dos nossos filhos não passa por serem independentes. Passa por lhe darmos segurança suficiente para que consiga explorar em liberdade quem é, sabendo que poderá sempre voltar para casa. E essa casa será para sempre o nosso colo.

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No outro dia li os comentários a uma notícia sobre uma escolha hipotética entre salvar um animal ou um idoso. O que me i...
04/06/2026

No outro dia li os comentários a uma notícia sobre uma escolha hipotética entre salvar um animal ou um idoso. O que me impressionou não foi a pergunta. Foi a quantidade de pessoas que respondiam que salvariam o animal sem pensar duas vezes, muitas delas com orgulho, como se isso revelasse uma superioridade moral.

E fez-me pensar.

Um dos maiores problemas da nossa época é a falta de empatia. É a irresponsabilidade emocional.

Vivemos numa sociedade cada vez mais preocupada com os seus direitos e cada vez menos consciente das suas responsabilidades para com os outros. Falamos incessantemente sobre autocuidado, limites, amor-próprio e proteção emocional, mas parecemos esquecer que viver em sociedade implica também reconhecer a vulnerabilidade alheia.

Porque a maturidade emocional não se mede pela capacidade de cuidar apenas daquilo que nos desperta ternura. Mede-se pela capacidade de reconhecer dignidade mesmo onde ela se tornou difícil de ver.

Os animais merecem proteção. Merecem respeito. Merecem cuidado. Mas inquieta-me a facilidade com que algumas pessoas parecem retirar humanidade aos próprios seres humanos. Como já não sabemos lidar com a decepção, com a frustração, com a tristeza.

Talvez seja mais fácil amar aquilo que não nos confronta com as nossas próprias feridas. Talvez seja mais fácil investir afeto em quem não nos obriga a lidar com a ambivalência, com a culpa, com a dependência ou com o medo da rejeição. Mas a maturidade emocional nunca se construiu na ausência dessas experiências. Construiu-se precisamente na capacidade de as suportar.

Porque crescer implica aceitar uma verdade difícil: as pessoas que amamos nunca serão apenas aquilo que gostaríamos que fossem. Serão sempre mais contraditórias, mais imperfeitas e mais complexas do que a nossa fantasia permite.

E talvez o verdadeiro problema comece quando deixamos de conseguir amar aquilo que não é perfeito. Quando deixamos de reconhecer valor na fragilidade humana. Quando a nossa capacidade de compaixão passa a depender da inocência que projetamos nos outros e não da vulnerabilidade real que existe diante de nós.

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Durante demasiado tempo, muitas pessoas viveram esmagadas pelo peso das expectativas dos outros, sacrif**ando desejos, n...
03/06/2026

Durante demasiado tempo, muitas pessoas viveram esmagadas pelo peso das expectativas dos outros, sacrif**ando desejos, necessidades e identidade em nome da pertença. Mas talvez exista uma pergunta que estamos a fazer cada vez menos: o que aconteceu à responsabilidade emocional?

As relações, sejam elas de que natureza forem, não vivem apenas de direitos. Vivem também de deveres invisíveis. Vivem da capacidade de reconhecer que aquilo que fazemos, dizemos ou omitimos tem impacto na vida de quem nos rodeia. E que amar alguém implica inevitavelmente aceitar alguma responsabilidade por esse impacto.

Fala-se muito sobre aquilo que os outros nos fizeram sentir mas talvez seja preciso falar-se mais sobre aquilo que também fazemos sentir aos outros. Eu sei que é muito mais confortável ocupar o lugar de quem sofre do que o lugar de quem, por vezes, também faz sofrer. E a psicologia pop favorece muito este papel de vitimização e identif**ar culpados, mas felizmente ou infelizmente, a maturidade emocional não se mede apenas pela capacidade de reconhecer as próprias feridas… Mede-se também pela capacidade de reconhecer as feridas que deixamos nos outros. Pela disponibilidade para reparar, escutar, compreender e assumir a nossa parte na história.

Nenhuma relação (e repito, seja de que natureza for) sobrevive quando duas pessoas estão exclusivamente preocupadas em proteger-se. O amor exige algo mais difícil. Exige que sejamos capazes de continuar a existir como pessoas sem esquecer que as nossas escolhas produzem consequências emocionais em quem amamos.

Mas talvez aí esteja o problema: estamos tão obcecados em olhar para o espelho que nos esquecemos de olhar pela janela. Tão centrado no eu, eu, eu, eu, que começamos, lentamente, a perder a capacidade de pensar no Outro. E, por isso, fugimos cada vez mais da intimidade e daquilo que nos torna realmente humanos: a vulnerabilidade, o contacto, a profundidade social.

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Talvez nunca tenhamos estado tão cegos. Não por falta de conhecimento, mas por excesso de ruído.As redes sociais deram-n...
02/06/2026

Talvez nunca tenhamos estado tão cegos. Não por falta de conhecimento, mas por excesso de ruído.

As redes sociais deram-nos uma janela para o mundo, mas também construíram um espelho gigantesco onde passamos horas a contemplar a nossa própria imagem. Aos poucos, o outro deixou de ser alguém para se tornar audiência. Deixou de ser um rosto para ser um perfil. Deixou de ser uma pessoa para ser uma opinião.

A cultura digital alimenta uma fantasia perigosa, a de que o mundo existe para confirmar aquilo que já pensamos. Os algoritmos mostram-nos aquilo de que gostamos, aquilo com que concordamos, aquilo que reforça as nossas certezas. Qualquer pessoa pode sentir-se sábio após três vídeos de trinta segundos. A dúvida tornou-se insuportável. A complexidade tornou-se aborrecida. O pensamento foi substituído pela reação instantânea.

A inteligência nasce do confronto com a dúvida. A sabedoria nasce do encontro com aquilo que nos desafia. Mas a internet recompensa a rapidez, não a profundidade. Recompensa a reação, não a reflexão. Recompensa a indignação instantânea, não o pensamento.

Por isso vemos cada vez mais pessoas cheias de opiniões e vazias de curiosidade. Pessoas que confundem visibilidade com conhecimento. Pessoas que acreditam que estar informadas é o mesmo que compreender. Pessoas que sabem repetir frases, mas já não sabem pensar.

Talvez a pior cegueira não seja deixar de ver o mundo. Talvez seja deixar de ver o outro. Porque quando o outro desaparece da nossa consciência, sobra apenas o eu. E quando uma sociedade inteira gira à volta do eu, cresce o egoísmo, empobrece a empatia e enfraquece o sentido de comunidade.

A tragédia do nosso tempo não está na tecnologia. Está na forma como a utilizamos para fugir ao desconforto de pensar, de escutar e de reconhecer a nossa ignorância. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. Nunca foi tão fácil permanecer superficial.

A pior cegueira continua a ser a mental. A que nos convence de que sabemos tudo quando deixámos de fazer perguntas. A que nos faz acreditar que estamos ligados ao mundo quando, na verdade, estamos apenas fechados dentro do eco da nossa própria voz.

Nunca foi tão fácil saber o que os outros fazem e nunca foi tão difícil estar em paz com aquilo que somos. As redes soci...
30/05/2026

Nunca foi tão fácil saber o que os outros fazem e nunca foi tão difícil estar em paz com aquilo que somos. As redes sociais transformaram-se numa espécie de montra infinita onde cada pessoa exibe fragmentos cuidadosamente escolhidos da sua existência. Não vemos a vida. Vemos a versão editada da vida.

Este concerto do Bad Bunny, a meu ver, representou extremamente bem este medo persistente de estar a perder alguma coisa, a que chamamos FOMO. Não existe propriamente uma falta real, mas sim, a ilusão da abundância. Enquanto estamos em casa, vemos alguém numa praia paradisíaca. Enquanto trabalhamos, vemos alguém a viajar. Enquanto descansamos, vemos alguém a produzir. Enquanto estamos felizes, vemos alguém aparentemente mais feliz. E o psiquismo humano, tão vulnerável à comparação, começa lentamente a confundir a realidade com o espetáculo.

O problema não é invejarmos a vida dos outros. O problema é esquecermo-nos de habitar a nossa.

Há algo de profundamente infantil nesta fantasia coletiva de que os outros vivem permanentemente satisfeitos. Como uma criança que acredita que a família ao lado não discute, que o colega nunca sofre, que o amigo nunca sente medo. As redes sociais alimentam essa ilusão omnipotente. Fazem-nos acreditar que existe algures uma vida perfeita à qual não fomos convidados.

Mas ninguém publica a ansiedade das três da manhã. Ninguém fotografa o vazio depois da conquista. Ninguém partilha a discussão que aconteceu antes da fotografia sorridente. O sofrimento continua lá. Apenas deixou de ser visível.

O verdadeiro desafio psicológico do nosso tempo é recuperar a capacidade de tolerar a exclusão. Aceitar que não podemos estar em todo o lado, viver todas as experiências, conhecer todas as pessoas, aproveitar todas as oportunidades. A maturidade emocional começa quando percebemos que escolher uma vida implica inevitavelmente renunciar a milhares de outras.

A felicidade nunca nasceu da acumulação de experiências. Nasce da capacidade de estar inteiro naquela que estamos a viver. Porque quem passa a vida a olhar para a festa dos outros acaba por faltar à sua própria. E esta é a forma mais silenciosa e contemporânea de solidão.

Crescer talvez seja isto, descobrir que o medo não desaparece com a idade, apenas muda de roupa, aprende novas linguagen...
28/05/2026

Crescer talvez seja isto, descobrir que o medo não desaparece com a idade, apenas muda de roupa, aprende novas linguagens, infiltra-se nas relações, no trabalho, no amor, na parentalidade, no silêncio das noites e na forma como olhamos para nós próprios quando ninguém está a ver. A criança acredita que os adultos sabem viver. Depois crescemos e percebemos uma verdade profundamente inquietante, quase melancólica, os adultos também improvisam. Também tremem. Também têm medo de perder, de falhar, de enlouquecer, de não serem suficientemente amados, suficientemente importantes, suficientemente vistos.

Há qualquer coisa de profundamente humano no medo. O medo obriga-nos a reconhecer o limite. Obriga-nos a abandonar a fantasia narcísica de omnipotência que tantas vezes sustenta a infância psíquica. Enquanto crianças, acreditamos que o mundo existe para nos proteger. Mais tarde percebemos que viver implica vulnerabilidade constante. Amar alguém é perigoso. Ter um filho é perigoso. Entregar o coração a outra pessoa é perigoso. Até olhar honestamente para dentro de nós pode ser perigoso, porque há zonas internas que preferíamos nunca encontrar.

Talvez seja por isso que tantas pessoas passam a vida inteira a fugir. Fugimos para o trabalho excessivo, para relações vazias, para distrações permanentes, para o ruído incessante das redes sociais, porque o silêncio obriga-nos a ouvir aquilo que tentamos calar. E o medo, quando não é pensado, transforma-se facilmente em irritação, controlo, agressividade, afastamento ou anestesia emocional.

Mas existe um momento particular no amadurecimento psíquico em que algo muda. Não porque o medo desapareça, mas porque deixamos de exigir que ele desapareça para continuar a viver. Talvez a coragem nunca tenha sido ausência de medo. Talvez a coragem seja simplesmente a capacidade de continuar apesar dele.

E talvez seja precisamente aí que deixamos de ser crianças, no instante em que percebemos que ninguém virá salvar-nos totalmente, mas ainda assim continuamos capazes de amar, criar vínculos, cuidar e permanecer vivos por dentro. Porque amadurecer não é tornar-se invulnerável. É suportar a fragilidade sem abandonar a capacidade de sentir.

Crescer talvez seja isto: descobrir que o medo não desaparece com a idade, apenas muda de roupa, aprende novas linguagen...
28/05/2026

Crescer talvez seja isto: descobrir que o medo não desaparece com a idade, apenas muda de roupa, aprende novas linguagens, infiltra-se nas relações, no trabalho, no amor, na parentalidade, no silêncio das noites e na forma como olhamos para nós próprios quando ninguém está a ver. A criança acredita que os adultos sabem viver. Depois crescemos e percebemos uma verdade profundamente inquietante, quase melancólica, os adultos também improvisam. Também tremem. Também têm medo de perder, de falhar, de enlouquecer, de não serem suficientemente amados, suficientemente importantes, suficientemente vistos.

Há qualquer coisa de profundamente humano no medo. O medo obriga-nos a reconhecer o limite. Obriga-nos a abandonar a fantasia narcísica de omnipotência que tantas vezes sustenta a infância psíquica. Enquanto crianças, acreditamos que o mundo existe para nos proteger. Mais tarde percebemos que viver implica vulnerabilidade constante. Amar alguém é perigoso. Ter um filho é perigoso. Entregar o coração a outra pessoa é perigoso. Até olhar honestamente para dentro de nós pode ser perigoso, porque há zonas internas que preferíamos nunca encontrar.

Talvez seja por isso que tantas pessoas passam a vida inteira a fugir. Fugimos para o trabalho excessivo, para relações vazias, para distrações permanentes, para o ruído incessante das redes sociais, porque o silêncio obriga-nos a ouvir aquilo que tentamos calar. E o medo, quando não é pensado, transforma-se facilmente em irritação, controlo, agressividade, afastamento ou anestesia emocional.

Mas existe um momento particular no amadurecimento psíquico em que algo muda. Não porque o medo desapareça, mas porque deixamos de exigir que ele desapareça para continuar a viver. Talvez a coragem nunca tenha sido ausência de medo. Talvez a coragem seja simplesmente a capacidade de continuar apesar dele.

E talvez seja precisamente aí que deixamos de ser crianças, no instante em que percebemos que ninguém virá salvar-nos totalmente, mas ainda assim continuamos capazes de amar, criar vínculos, cuidar e permanecer vivos por dentro. Porque amadurecer não é tornar-se invulnerável. É suportar a fragilidade sem abandonar a capacidade de sentir.

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