14/06/2026
Uma maternidade minimamente saudável dá muito trabalho.
Não apenas porque há fraldas para mudar, noites interrompidas e rotinas que deixam de existir. Nasce um bebé, mas nasce também uma mãe e um pai. E ninguém lhes ensina a fazer o luto da vida que tinham.
Do silêncio da casa. Do corpo disponível para si próprio. Da espontaneidade do desejo. Do casal que podiam ser antes de haver alguém que dependesse deles para tudo.
A chegada de um filho é um terramoto do amor. Não porque destrua o vínculo, mas porque o obriga a reorganizar-se. O parceiro deixa temporariamente de ser o centro. O sono desaparece. A paciência encurta. A pele f**a mais fina. O pedido de ajuda soa a crítica. O esquecimento parece desamor. Duas pessoas exaustas começam a falar a partir das suas feridas e não das suas intenções.
E, no entanto, é precisamente aqui que o amor adulto é posto à prova.
Amar não é apenas desejar o outro quando tudo corre bem. É conseguir lembrar-se de quem o outro é quando ele já não consegue mostrar a sua melhor versão. É reconhecer que aquela mulher irritada talvez esteja há meses a dormir aos bocados. Que aquele homem distante talvez se sinta perdido no lugar que agora ocupa. É perceber que o inimigo raramente é o parceiro. É, tantas vezes, o cansaço, a solidão e a fantasia cruel de que deveríamos estar a viver isto com gratidão permanente.
Uma maternidade suficientemente boa não precisa de perfeição. Precisa de reparação. De dois adultos capazes de pedir desculpa, de redistribuir o peso, de dizer “eu já não consigo sozinho” sem vergonha.
A maior herança que um casal pode oferecer a um filho não seja a ausência de conflito, mas a experiência de um amor que, apesar do desencontro, encontra sempre o caminho de regresso a casa. Como já disse, o melhor item do enxoval de um bebé é a saúde mental dos seus pais.
Crescer nunca foi aprender a não precisar. Crescer é descobrir que depender, amar e continuar a existir são verbos que se conjugam juntos.
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