07/09/2026
Há casais que passam anos a discutir sobre loiça, atrasos, mensagens, s**o, sogros, dinheiro, silêncio. E acreditam, com convicção, que é disso que estão a falar.
Quase nunca é.
Por baixo da discussão existe uma pergunta muito mais primitiva: “Ainda contas comigo quando eu te desagrado?” “Continuo a ter valor quando falho?” “Posso precisar de ti sem f**ar nas tuas mãos?” “Se eu baixar a guarda, desapareces?”
O conflito conjugal ganha intensidade quando o presente começa a ser usado como prova de uma verdade antiga. O parceiro atrasa-se e confirma que não somos prioridade. Corrige-nos e confirma que somos inadequados. Afasta-se e confirma que vamos f**ar sozinhos. Aproxima-se demasiado e confirma que não existe espaço para respirar.
É aqui que o casal deixa de reagir ao que aconteceu e começa a reagir ao signif**ado que construiu.
Por isso, muitas relações tornam-se campos de repetição. Um exige para ter a certeza de que importa, o outro afasta-se para não se sentir capturado. Quanto mais um procura, mais o outro foge. Quanto mais o outro foge, mais o primeiro protesta. Ambos acabam a fabricar exatamente aquilo que mais temiam encontrar.
O acompanhamento psicológico de casal interessa-se por esta coreografia invisível.
Não basta melhorar a comunicação quando a frase é apenas a superfície. É preciso perceber quem fala dentro de cada pessoa quando ela se sente ameaçada, que posição ocupa o outro naquele momento, que medo foi ativado, que necessidade ficou sem nome.
Até o desejo pode desaparecer quando a relação se torna excessivamente segura, previsível ou fusional. Para desejar alguém, é preciso continuar a reconhecê-lo como outro. Quando o casal elimina toda a distância, pode eliminar também parte da tensão que sustenta o erotismo.
Amar alguém durante muito tempo implica sim uma tarefa pouco romântica, mas muito adulta: conseguir distinguir o outro real daquele que construímos dentro de nós.
Porque muitas relações começam a mudar quando deixamos de perguntar apenas “o que fizeste comigo?” e começamos a perguntar “porque é que isto, em mim, ganhou este tamanho?”
📧 [email protected]
📞 937 206 928
sophieseromenho.pt