23/09/2026
🧬 Hormonoterapia: quando o tratamento contra o cancro bloqueia as hormonas
“Não é quimioterapia. Então como é que este medicamento combate o cancro?”
É uma pergunta que muitos doentes fazem quando ouvem falar pela primeira vez em hormonoterapia.
E a resposta é fascinante.
Alguns cancros utilizam determinadas hormonas do próprio organismo como estímulo para crescer.
Nestes casos, em vez de atacar diretamente todas as células que se dividem rapidamente, podemos retirar ou bloquear o estímulo hormonal de que o tumor depende.
É uma estratégia completamente diferente da quimioterapia.
E, para determinados cancros, pode ser uma das partes mais importantes de todo o tratamento.
🧬 O que significa um cancro ser “hormonossensível”?
As hormonas funcionam como mensageiros químicos.
No cancro da mama, por exemplo, algumas células tumorais apresentam recetores de estrogénio e/ou progesterona.
Quando uma hormona se liga ao seu recetor, pode ativar sinais que favorecem a sobrevivência e multiplicação dessas células.
É por isso que, quando o tumor apresenta recetores hormonais, os médicos podem utilizar medicamentos capazes de bloquear esses sinais ou reduzir a quantidade de hormona disponível.
E existe aqui uma distinção importante:
a hormonoterapia não é simplesmente “dar hormonas”.
Na oncologia, o objetivo é precisamente o contrário:
👉 impedir que determinadas hormonas estimulem as células tumorais.
🎀 Cancro da mama: um dos exemplos mais importantes
No cancro da mama, saber se o tumor apresenta recetores hormonais é fundamental.
Se o tumor for HR positivo — recetor hormonal positivo — a hormonoterapia pode fazer parte do tratamento.
Pode ser utilizada depois da cirurgia para reduzir o risco de recidiva, antes da cirurgia em determinadas situações ou no contexto de doença avançada.
E aqui existe algo que surpreende muitos doentes:
Pode ser necessário tomar hormonoterapia durante anos.
Cinco anos continua a ser uma duração muito comum no tratamento adjuvante, mas algumas pessoas podem beneficiar de uma duração superior, dependendo do risco de recidiva, do tratamento recebido, dos efeitos adversos e de outros fatores individuais.
Não existe uma duração igual para todas as pessoas.
A decisão é personalizada.
💊 Tamoxifeno: bloquear o recetor
O tamoxifeno é um dos medicamentos mais conhecidos da hormonoterapia do cancro da mama.
Ele liga-se ao recetor de estrogénio e interfere com a capacidade do estrogénio de estimular a célula tumoral.
É frequentemente utilizado em mulheres antes da menopausa, embora possa ter outras utilizações dependendo da situação clínica.
Pode provocar:
• afrontamentos;
• suores noturnos;
• alterações menstruais;
• secura ou corrimento vaginal;
• alterações da função sexual.
Mas existe outro ponto importante que merece ser conhecido:
o tamoxifeno também apresenta riscos específicos, incluindo um aumento do risco de tromboembolismo e, em mulheres após a menopausa, de cancro do endométrio.
Isso não significa que seja um tratamento perigoso ou que deva ser interrompido.
Significa que os benefícios e os riscos têm de ser avaliados individualmente.
E é precisamente por isso que nunca se deve suspender a hormonoterapia por iniciativa própria.
💊 Inibidores da aromatase
Depois da menopausa, os ovários deixam de ser a principal fonte de estrogénio, mas o organismo continua a produzir pequenas quantidades.
Os inibidores da aromatase, como:
• anastrozol
• letrozol
• exemestano
reduzem a produção periférica de estrogénio.
São muito utilizados no tratamento do cancro da mama HR positivo em mulheres pós-menopáusicas.
Mas existe um problema que pode tornar o tratamento difícil de suportar:
dores articulares e musculares.
Algumas pessoas descrevem rigidez ao levantar-se, dor nas mãos, joelhos, ancas ou ombros.
Também podem surgir afrontamentos, fadiga e sintomas geniturinários.
E há outra questão particularmente importante:
🦴 os ossos.
A redução prolongada dos níveis de estrogénio pode acelerar a perda de massa óssea e aumentar o risco de osteoporose e fraturas.
Por isso, a saúde óssea deve fazer parte do acompanhamento.
Dependendo do risco individual, podem ser necessários exames como a densitometria óssea e, em determinadas situações, medicamentos específicos para proteção óssea.
👩🦰 E nas mulheres que ainda não chegaram à menopausa?
Aqui a situação é diferente.
Os ovários continuam a produzir estrogénio.
Em determinadas mulheres com cancro da mama HR positivo e maior risco de recidiva, pode ser recomendada supressão da função ovárica, muitas vezes através de medicamentos que bloqueiam temporariamente essa função.
Pode ser associada ao tamoxifeno ou a um inibidor da aromatase, dependendo da situação.
O problema?
O organismo pode entrar num estado semelhante à menopausa.
Podem surgir:
🔥 afrontamentos
🌙 suores noturnos
💧 secura vaginal
❤️ alterações da libido
🧠 alterações do humor
🦴 perda de massa óssea
E isto leva-nos a uma questão fundamental.
Um tratamento pode estar a funcionar contra o cancro e, ao mesmo tempo, estar a afetar profundamente a qualidade de vida.
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
🧬 E existe ainda outro tipo de hormonoterapia
Alguns medicamentos, como o fulvestrant, atuam diretamente sobre o recetor de estrogénio e promovem a sua degradação.
Em determinadas situações de doença avançada, podem ser utilizados outros medicamentos hormonais ou combinações com terapias dirigidas.
Isto é particularmente importante porque a oncologia moderna deixou de pensar na hormonoterapia como simplesmente:
“tome um comprimido e bloqueie o estrogénio.”
Hoje existem diferentes estratégias e combinações, escolhidas de acordo com as características do tumor e da doença.
👨⚕️ E no cancro da próstata?
Aqui falamos principalmente de androgénios, sobretudo testosterona.
Muitos cancros da próstata utilizam o sinal do recetor androgénico para crescer.
A terapia de privação androgénica (ADT) procura reduzir drasticamente esse estímulo hormonal.
Pode ser feita através de medicamentos que diminuem a produção de testosterona ou através de outras estratégias que bloqueiam a ação dos androgénios.
Em determinadas situações, a ADT é utilizada juntamente com radioterapia.
Na doença avançada, pode ser combinada com medicamentos que bloqueiam de forma mais potente o recetor androgénico e outras vias hormonais.
Ou seja:
a hormonoterapia do cancro da próstata também evoluiu muito.
Já não estamos simplesmente perante a ideia antiga de “baixar a testosterona”.
Existem hoje estratégias combinadas muito mais sofisticadas.
⚠️ Mas bloquear hormonas também tem consequências
As hormonas não servem apenas para alimentar células tumorais.
Elas desempenham funções importantes em todo o organismo.
Por isso, quando as bloqueamos durante meses ou anos, podem surgir efeitos em diferentes sistemas.
🦴 Ossos
A hormonoterapia pode aumentar a perda de massa óssea.
No homem submetido a ADT prolongada, por exemplo, a avaliação da densidade mineral óssea é uma parte importante do acompanhamento.
❤️ Metabolismo e coração
A privação androgénica pode favorecer aumento de peso, perda de massa muscular, alterações da glicemia e dos lípidos.
Por isso, peso, atividade física, colesterol e glicemia devem ser acompanhados.
💪 Massa muscular
A perda de testosterona pode contribuir para perda de massa muscular e força.
O exercício, especialmente a combinação de exercício aeróbico e treino de resistência, tem um papel importante na preservação da função física durante a ADT.
❤️ Sexualidade
A diminuição da libido e alterações da função sexual são efeitos muito relevantes e, infelizmente, muitas vezes pouco discutidos.
Mas não devem ser considerados um assunto “menor”.
A sexualidade também faz parte da qualidade de vida.
🧠 E a memória? E o “brain fog”?
Algumas pessoas submetidas a hormonoterapia descrevem:
“Sinto a cabeça mais lenta.”
“Esqueço-me de coisas simples.”
“Tenho dificuldade em concentrar-me.”
Estas queixas existem e têm sido estudadas.
No entanto, a relação entre hormonoterapia e alterações cognitivas não é simples, e os estudos não são completamente consistentes.
Além disso, sono insuficiente, ansiedade, depressão, fadiga, menopausa induzida e o próprio impacto do diagnóstico podem contribuir para estas dificuldades.
Por isso, não se deve assumir automaticamente que qualquer problema de memória é causado pelo medicamento.
Mas também não se deve ignorá-lo.
Se está a acontecer, fale com a equipa.
⏳ “Vou ter de tomar isto para sempre?”
Não necessariamente.
No cancro da mama localizado, a hormonoterapia pode durar vários anos.
Na doença avançada, pode ser mantida enquanto estiver a controlar a doença e for considerada adequada.
No cancro da próstata, a duração depende da situação clínica e do objetivo do tratamento.
E o tratamento pode ser modificado.
Pode ser necessário mudar de medicamento.
Pode ser necessário associar outro tratamento.
Pode ser necessário interromper ou adaptar uma estratégia por causa dos efeitos secundários.
Isso não significa necessariamente que o tratamento tenha falhado.
Significa que o tratamento está a ser adaptado à pessoa e à evolução da doença.
⚠️ Se a hormonoterapia está a provocar efeitos secundários que estão a afetar a sua vida, não sofra em silêncio.
Dor articular.
Afrontamentos.
Insónia.
Secura vaginal.
Perda de desejo sexual.
Disfunção erétil.
Alterações de humor.
Fadiga.
Alterações metabólicas.
Perda de massa muscular.
Problemas ósseos.
Tudo isto merece ser discutido.
Existem estratégias para muitos destes problemas.
E, em algumas situações, pode ser possível adaptar o tratamento.
Não pare a medicação sozinho.
Fale com a equipa que o acompanha.
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O que vai acontecer agora?
Porque é que preciso deste tratamento?
Como funciona?
Que efeitos secundários posso ter?
O que é normal?
O que devo comunicar à equipa?
Porque é que um tratamento muda?
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Não para substituir o médico.
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Se conhece alguém que está a fazer hormonoterapia — ou que vai começar — partilhe este artigo com essa pessoa.
Às vezes, compreender o tratamento não o torna mais fácil.
Mas torna o caminho muito menos desconhecido.
OncoConsigo