07/09/2026
🧠🔥👂 3 efeitos secundários da quimioterapia menos falados
Quando se fala em efeitos secundários da quimioterapia, quase toda a gente pensa imediatamente em:
🤢 Náuseas
🤮 Vómitos
💇 Queda de cabelo
😴 Cansaço
🩸 Défesas baixas
Mas existem outros efeitos que podem ser muito mais silenciosos.
Não aparecem necessariamente nas análises.
Nem sempre são visíveis para quem está de fora.
E, em alguns doentes, podem continuar muito depois de a quimioterapia terminar.
Hoje vamos falar de três deles.
E perceber exatamente o que acontece dentro do organismo, porque acontece, se pode ser prevenido e o que podemos fazer quando aparece.
🧠 1. “Chemobrain”: quando o cérebro já não parece funcionar como antes
«Entro numa divisão e já não me lembro porque fui lá.»
«Sei a palavra, mas ela não me vem à cabeça.»
«Não consigo concentrar-me.»
«Antes conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo. Agora fico completamente perdido.»
«Leio uma página e tenho de voltar atrás porque não me lembro do que li.»
Isto é frequentemente chamado de “chemobrain”.
O termo médico mais utilizado atualmente é cancer-related cognitive impairment (CRCI) — alteração cognitiva relacionada com o cancro e/ou com o seu tratamento.
E há uma coisa importante:
não signif**a que a pessoa esteja a f**ar menos inteligente.
O problema pode estar na forma como determinadas funções cerebrais estão a trabalhar.
🧠 Que funções podem ser afetadas?
• Atenção
• Memória
• Velocidade de processamento
• Concentração
• Capacidade de encontrar palavras
• Organização
• Planeamento
• Multitarefa
• Funções executivas
Imagine que antes conseguia receber cinco informações, guardá-las e utilizá-las rapidamente.
Agora recebe duas ou três…
e parece que o cérebro f**a “bloqueado”.
🔬 Mas o que está realmente a acontecer?
Durante muito tempo, pensou-se que o problema era simplesmente a quimioterapia “matar células cerebrais”.
A realidade é muito mais complexa.
O cancro e os seus tratamentos podem desencadear alterações envolvendo:
🧬 Inflamação
🧠 Ativação das células imunitárias do cérebro, incluindo a microglia
⚡ Alterações na comunicação entre neurónios
🔥 Stress oxidativo
🔋 Alterações na função das mitocôndrias
🩸 Alterações vasculares
🧠 Alterações da substância branca e da conectividade cerebral
Além disso, a fadiga, a dor, o sono deficiente, a ansiedade, a depressão, a anemia, determinados medicamentos e o próprio stresse associado ao diagnóstico podem contribuir para piorar o funcionamento cognitivo.
Ou seja:
não existe necessariamente um único “culpado”.
É provavelmente o resultado da interação entre vários mecanismos biológicos e psicológicos.
A investigação mais recente continua a explorar precisamente estas vias, incluindo inflamação, stresse oxidativo, disfunção mitocondrial e alterações da neuroplasticidade.
⏳ E desaparece?
Pode melhorar.
Mas não acontece obrigatoriamente de um dia para o outro quando termina a quimioterapia.
Algumas pessoas recuperam progressivamente.
Outras continuam a apresentar sintomas durante meses ou mais tempo.
E a intensidade varia enormemente entre indivíduos.
🛡️ Podemos prevenir?
Ainda não existe um medicamento comprovado que impeça de forma garantida o aparecimento destas alterações.
E isso é importante dizer.
Não existe uma vitamina, suplemento ou “detox cerebral” comprovado capaz de prevenir o chemobrain.
Mas há estratégias que podem ajudar.
E uma das mais interessantes é precisamente…
🏃♂️ Exercicio físico
Não é apenas para manter a forma física.
A atividade física influencia a circulação cerebral, a neuroplasticidade, o metabolismo e vários mecanismos relacionados com a função cognitiva.
Dados recentes mostram benefícios do exercício sobre sintomas cognitivos em sobreviventes de cancro, e a orientação atual da ASCO considera o exercício uma das intervenções mais promissoras para estes problemas.
Também podem ajudar:
• Sono adequado
• Gestão da ansiedade e depressão
• Redução da fadiga
• Organização das tarefas
• Listas e lembretes
• Evitar multitarefa excessiva
• Reabilitação cognitiva quando indicada
• Exercício físico adaptado
Em pessoas com alterações mais signif**ativas, a reabilitação cognitiva pode trabalhar especif**amente as dificuldades que interferem com a vida diária.
🚨 E há uma regra fundamental:
Não atribua automaticamente qualquer alteração cognitiva à quimioterapia.
Uma alteração nova ou importante da memória ou do comportamento deve ser avaliada.
Porque pode existir outra causa tratável.
🔥 2. Neuropatia periférica: quando os nervos começam a "queimar"
🔥 Os pés parecem estar em fogo.
⚡ As mãos dão choques eléctricos.
🧊 O toque torna-se doloroso.
🧦 As meias parecem incomodar constantemente.
🚶♂️ Caminhar torna-se estranho.
👣 Parece que está a andar sobre algodão.
Isto pode ser neuropatia periférica induzida pela quimioterapia (CIPN).
E este é um dos efeitos secundários que pode mudar profundamente a autonomia de uma pessoa.
🧠 O que são os nervos periféricos?
São como uma gigantesca rede de cabos eléctricos.
Levam informação:
➡️ do corpo para o cérebro
➡️ do cérebro para os músculos
Permitem sentir:
• Dor
• Temperatura
• Pressão
• Vibração
• Toque
• Posição dos membros
Quando estes nervos são lesionados ou deixam de funcionar normalmente, as mensagens tornam-se distorcidas.
É por isso que uma pessoa pode sentir queimadura sem existir uma queimadura.
O cérebro está a receber uma informação nervosa anormal.
💊 Que medicamentos podem provocar isto?
Entre os mais conhecidos estão:
• Paclitaxel
• Docetaxel
• Oxaliplatina
• Cisplatina
• Vincristina
• Bortezomib
• Outros agentes neurotóxicos
Cada medicamento pode provocar lesões através de mecanismos diferentes.
Alguns interferem com os microtúbulos.
Outros provocam stresse oxidativo, alterações mitocondriais, inflamação ou alterações na função dos axónios.
O resultado final pode ser uma disfunção do nervo periférico.
🚨 E existe uma coisa que muitos doentes não sabem:
A neuropatia pode continuar depois de terminar a quimioterapia.
Por vezes melhora lentamente.
Mas em algumas pessoas pode persistir durante meses ou mesmo tornar-se duradoura.
É por isso que não devemos esperar até o doente dizer:
“Já não consigo andar normalmente.”
A neuropatia deve ser avaliada desde os primeiros sintomas.
🧊 Podemos prevenir?
Aqui existe uma área particularmente interessante:
crioterapia e criocompressão.
Durante determinados tratamentos, podem ser utilizadas luvas ou meias de arrefecimento para tentar reduzir a exposição dos tecidos periféricos ao medicamento.
A evidência ainda não é suficientemente forte para afirmar que funciona universalmente.
Mas a guideline da ASCO reconhece dados preliminares promissores para crioterapia, exercício, compressão e criocompressão, considerando-os opções que podem ser razoavelmente seguras quando corretamente utilizadas, embora ainda faltem estudos maiores e mais definitivos.
⚠️ E atenção especial à oxaliplatina:
o frio pode desencadear ou agravar sintomas neurológicos agudos característicos deste medicamento.
Por isso:
não coloque gelo nas mãos e nos pés durante uma perfusão de oxaliplatina por iniciativa própria.
A estratégia deve ser definida pela equipa.
💊 E se a neuropatia já apareceu?
Aqui temos uma das poucas respostas farmacológicas com evidência relativamente sólida.
Para neuropatia periférica dolorosa, a ASCO considera a duloxetina a opção farmacológica com melhor evidência.
Mas atenção:
não é um regenerador dos nervos.
O objetivo é reduzir a dor neuropática.
E o benefício, embora real, é limitado e não funciona igualmente bem em todas as pessoas.
Também podem ser importantes:
🏃 Exercício adaptado
🦵 Fisioterapia
⚖️ Treino de equilíbrio
🚶 Prevenção de quedas
🖐️ Terapia ocupacional
👣 Adaptação das atividades quotidianas
E quando a neuropatia se torna intolerável ou interfere com a função, a equipa de oncologia pode ter de ponderar redução da dose, atraso, suspensão ou substituição do medicamento neurotóxico.
❌ E suplementos?
Não comece vitamina B, vitamina E ou outros suplementos com o objetivo de prevenir neuropatia sem falar com a equipa.
A guideline da ASCO não recomenda vários desses agentes para prevenção da CIPN e, em alguns casos, pode existir risco de dano.
👂 3. Ototoxicidade: quando a quimioterapia pode afetar a audição
Este é provavelmente um dos efeitos mais esquecidos.
E pode ser devastador.
Porque ouvir não signif**a apenas perceber sons.
Signif**a:
🗣️ compreender uma conversa
❤️ ouvir a voz dos filhos
📞 falar ao telefone
🚗 perceber sons de alerta
🎵 ouvir música
👥 participar numa conversa num grupo
Alguns medicamentos anticancerígenos podem lesar o ouvido interno.
O exemplo clássico é a cisplatina.
E também outros derivados da platina podem estar envolvidos.
👂 Onde acontece o problema?
Dentro do ouvido interno existe a cóclea.
É uma estrutura minúscula, em forma de espiral, que transforma vibrações sonoras em sinais eléctricos enviados para o cérebro.
Dentro dela existem células extremamente especializadas:
as células ciliadas.
Estas células são essenciais para a audição.
E têm uma característica terrível:
quando são destruídas, não são facilmente substituídas.
🔬 O que faz a cisplatina?
A cisplatina pode entrar nas células da cóclea e desencadear uma cascata de lesão celular.
Entre os mecanismos estudados estão:
🔥 Stresse oxidativo
🧬 Lesão do ADN
⚡ Disfunção mitocondrial
🧪 Ativação de vias inflamatórias
💀 Morte celular programada — apoptose
O resultado pode ser lesão das células sensoriais e estruturas da cóclea.
E a perda auditiva tende inicialmente a afetar frequências mais altas, podendo depois tornar-se mais evidente na conversação.
😶 “Mas eu ainda ouço perfeitamente…”
É precisamente aqui que está o problema.
A perda pode começar em frequências que o doente não percebe conscientemente.
Por isso, quando a pessoa finalmente diz:
“Acho que estou a ouvir pior.”
já pode existir uma alteração signif**ativa.
Uma meta-análise estimou uma prevalência agrupada de cerca de 43% de perda auditiva ototóxica em pessoas expostas a cisplatina e/ou carboplatina, sendo mais elevada nos regimes com cisplatina.
🛡️ Então podemos prevenir?
Aqui a resposta é muito mais complicada.
Existem estratégias de investigação destinadas a proteger a cóclea.
Uma das mais estudadas é o tiossulfato de sódio.
Há resultados promissores, mas nos adultos a evidência ainda não é suficientemente robusta para dizer:
“Tome isto e f**ará protegido.”
Uma revisão sistemática de 2024 encontrou algum benefício preventivo com várias intervenções, mas concluiu que os benefícios globais eram modestos e que são necessários estudos de maior qualidade. O tiossulfato de sódio foi considerado a estratégia mais promissora.
Uma meta-análise mais recente em adultos também não encontrou redução clara da incidência ou gravidade da perda auditiva com as estratégias estudadas, mostrando como esta área ainda está longe de estar resolvida.
🎧 Então o que podemos fazer?
Uma das estratégias mais importantes é muito menos sofisticada:
detetar cedo.
Idealmente, quando existe risco de ototoxicidade, deve existir uma avaliação auditiva de base antes do tratamento e monitorização durante e depois do tratamento.
Porque detectar uma alteração precocemente permite à equipa:
➡️ confirmar que existe toxicidade
➡️ acompanhar a evolução
➡️ ponderar alterações do tratamento quando clinicamente apropriado
➡️ encaminhar para audiologia/otorrinolaringologia
➡️ iniciar reabilitação auditiva quando necessário
Protocolos de monitorização recomendam avaliações auditivas antes e durante determinados tratamentos com platina, precisamente para identif**ar alterações precocemente.
🔔 E o zumbido?
O doente pode não notar imediatamente uma perda auditiva, mas pode começar a ouvir:
🔔 apitos
🔔 zumbidos
🔔 sons agudos
🔔 sensação de ouvido cheio
Não ignore.
Um novo zumbido durante um tratamento potencialmente ototóxico merece ser comunicado à equipa.
🧬 O que estes três efeitos têm em comum?
À primeira vista parecem completamente diferentes.
Um afecta o cérebro.
Outro afecta os nervos.
Outro afecta o ouvido.
Mas existe uma característica comum:
podem representar toxicidade do sistema nervoso.
E podem ser particularmente difíceis porque:
❌ nem sempre são visíveis
❌ nem sempre aparecem nas análises habituais
❌ podem ser subestimados
❌ podem interferir com trabalho e autonomia
❌ podem persistir depois do tratamento
E existe ainda outra característica:
o momento em que falamos deles importa.
Não devemos esperar que o problema se torne grave.
🚨 A mensagem que todos os doentes devem guardar
Se durante a quimioterapia começar a sentir:
🧠 alterações importantes de memória, concentração ou capacidade de organizar tarefas
🔥 formigueiro, dormência, dor ou queimadura nas mãos e nos pés
👂 zumbido ou alteração da audição
não fique simplesmente à espera que passe.
Diga à equipa.
Quanto mais cedo o problema for identif**ado, maior é a possibilidade de avaliar causas, acompanhar a evolução e discutir medidas para reduzir o impacto.
E há uma diferença enorme entre:
«“Isto é um efeito secundário, aguente.”»
e
«“Isto é um efeito secundário conhecido. Vamos avaliar a intensidade, perceber o impacto e decidir o que podemos fazer.”»
A segunda abordagem é medicina de suporte oncológico.
❤️ Porque tratar o cancro não é apenas destruir o tumor
O objetivo de um tratamento oncológico não pode ser visto apenas através da resposta da TAC.
Também precisamos de perguntar:
Como está o doente a viver?
Consegue trabalhar?
Consegue andar?
Consegue dormir?
Consegue ouvir os filhos?
Consegue concentrar-se?
Consegue utilizar as mãos?
Consegue manter a sua independência?
Consegue reconhecer-se na pessoa que era antes do tratamento?
Porque sobreviver ao cancro é fundamental.
Mas sobreviver preservando o máximo possível da função, autonomia e qualidade de vida também é medicina oncológica.
💬 Agora queremos ouvir-vos
Qual destes efeitos secundários foi mais difícil para vocês?
🧠 Alterações da memória e concentração?
🔥 Neuropatia nas mãos e nos pés?
👂 Zumbido ou perda de audição?
Ou houve outro efeito secundário que mudou completamente a vossa vida e sobre o qual quase ninguém vos avisou?
Contem-nos nos comentários.
A vossa experiência pode ajudar outro doente a reconhecer um problema que ainda não percebeu que está relacionado com o tratamento.
❤️ Obrigado aos nossos subscritores.
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Porque há efeitos secundários que desaparecem quando termina a quimioterapia.
E há outros que podem acompanhar o doente durante meses ou anos.
Conhecê-los não é ter medo do tratamento.
É estar preparado para o enfrentar.