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Crónicas Oncológicas Eu sou eu e as minhas circunstâncias

07/09/2026

🧠🔥👂 3 efeitos secundários da quimioterapia menos falados

Quando se fala em efeitos secundários da quimioterapia, quase toda a gente pensa imediatamente em:

🤢 Náuseas
🤮 Vómitos
💇 Queda de cabelo
😴 Cansaço
🩸 Défesas baixas

Mas existem outros efeitos que podem ser muito mais silenciosos.

Não aparecem necessariamente nas análises.
Nem sempre são visíveis para quem está de fora.
E, em alguns doentes, podem continuar muito depois de a quimioterapia terminar.

Hoje vamos falar de três deles.
E perceber exatamente o que acontece dentro do organismo, porque acontece, se pode ser prevenido e o que podemos fazer quando aparece.

🧠 1. “Chemobrain”: quando o cérebro já não parece funcionar como antes

«Entro numa divisão e já não me lembro porque fui lá.»
«Sei a palavra, mas ela não me vem à cabeça.»
«Não consigo concentrar-me.»
«Antes conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo. Agora fico completamente perdido.»
«Leio uma página e tenho de voltar atrás porque não me lembro do que li.»

Isto é frequentemente chamado de “chemobrain”.

O termo médico mais utilizado atualmente é cancer-related cognitive impairment (CRCI) — alteração cognitiva relacionada com o cancro e/ou com o seu tratamento.

E há uma coisa importante:
não signif**a que a pessoa esteja a f**ar menos inteligente.

O problema pode estar na forma como determinadas funções cerebrais estão a trabalhar.

🧠 Que funções podem ser afetadas?

• Atenção
• Memória
• Velocidade de processamento
• Concentração
• Capacidade de encontrar palavras
• Organização
• Planeamento
• Multitarefa
• Funções executivas

Imagine que antes conseguia receber cinco informações, guardá-las e utilizá-las rapidamente.

Agora recebe duas ou três…
e parece que o cérebro f**a “bloqueado”.

🔬 Mas o que está realmente a acontecer?

Durante muito tempo, pensou-se que o problema era simplesmente a quimioterapia “matar células cerebrais”.

A realidade é muito mais complexa.

O cancro e os seus tratamentos podem desencadear alterações envolvendo:

🧬 Inflamação
🧠 Ativação das células imunitárias do cérebro, incluindo a microglia
⚡ Alterações na comunicação entre neurónios
🔥 Stress oxidativo
🔋 Alterações na função das mitocôndrias
🩸 Alterações vasculares
🧠 Alterações da substância branca e da conectividade cerebral

Além disso, a fadiga, a dor, o sono deficiente, a ansiedade, a depressão, a anemia, determinados medicamentos e o próprio stresse associado ao diagnóstico podem contribuir para piorar o funcionamento cognitivo.

Ou seja:
não existe necessariamente um único “culpado”.
É provavelmente o resultado da interação entre vários mecanismos biológicos e psicológicos.

A investigação mais recente continua a explorar precisamente estas vias, incluindo inflamação, stresse oxidativo, disfunção mitocondrial e alterações da neuroplasticidade.

⏳ E desaparece?

Pode melhorar.
Mas não acontece obrigatoriamente de um dia para o outro quando termina a quimioterapia.

Algumas pessoas recuperam progressivamente.
Outras continuam a apresentar sintomas durante meses ou mais tempo.
E a intensidade varia enormemente entre indivíduos.

🛡️ Podemos prevenir?

Ainda não existe um medicamento comprovado que impeça de forma garantida o aparecimento destas alterações.

E isso é importante dizer.

Não existe uma vitamina, suplemento ou “detox cerebral” comprovado capaz de prevenir o chemobrain.

Mas há estratégias que podem ajudar.

E uma das mais interessantes é precisamente…

🏃‍♂️ Exercicio físico

Não é apenas para manter a forma física.

A atividade física influencia a circulação cerebral, a neuroplasticidade, o metabolismo e vários mecanismos relacionados com a função cognitiva.

Dados recentes mostram benefícios do exercício sobre sintomas cognitivos em sobreviventes de cancro, e a orientação atual da ASCO considera o exercício uma das intervenções mais promissoras para estes problemas.

Também podem ajudar:

• Sono adequado
• Gestão da ansiedade e depressão
• Redução da fadiga
• Organização das tarefas
• Listas e lembretes
• Evitar multitarefa excessiva
• Reabilitação cognitiva quando indicada
• Exercício físico adaptado

Em pessoas com alterações mais signif**ativas, a reabilitação cognitiva pode trabalhar especif**amente as dificuldades que interferem com a vida diária.

🚨 E há uma regra fundamental:

Não atribua automaticamente qualquer alteração cognitiva à quimioterapia.

Uma alteração nova ou importante da memória ou do comportamento deve ser avaliada.

Porque pode existir outra causa tratável.

🔥 2. Neuropatia periférica: quando os nervos começam a "queimar"

🔥 Os pés parecem estar em fogo.

⚡ As mãos dão choques eléctricos.

🧊 O toque torna-se doloroso.

🧦 As meias parecem incomodar constantemente.

🚶‍♂️ Caminhar torna-se estranho.

👣 Parece que está a andar sobre algodão.

Isto pode ser neuropatia periférica induzida pela quimioterapia (CIPN).

E este é um dos efeitos secundários que pode mudar profundamente a autonomia de uma pessoa.

🧠 O que são os nervos periféricos?

São como uma gigantesca rede de cabos eléctricos.

Levam informação:

➡️ do corpo para o cérebro
➡️ do cérebro para os músculos

Permitem sentir:

• Dor
• Temperatura
• Pressão
• Vibração
• Toque
• Posição dos membros

Quando estes nervos são lesionados ou deixam de funcionar normalmente, as mensagens tornam-se distorcidas.

É por isso que uma pessoa pode sentir queimadura sem existir uma queimadura.

O cérebro está a receber uma informação nervosa anormal.

💊 Que medicamentos podem provocar isto?

Entre os mais conhecidos estão:

• Paclitaxel
• Docetaxel
• Oxaliplatina
• Cisplatina
• Vincristina
• Bortezomib
• Outros agentes neurotóxicos

Cada medicamento pode provocar lesões através de mecanismos diferentes.

Alguns interferem com os microtúbulos.

Outros provocam stresse oxidativo, alterações mitocondriais, inflamação ou alterações na função dos axónios.

O resultado final pode ser uma disfunção do nervo periférico.

🚨 E existe uma coisa que muitos doentes não sabem:

A neuropatia pode continuar depois de terminar a quimioterapia.

Por vezes melhora lentamente.

Mas em algumas pessoas pode persistir durante meses ou mesmo tornar-se duradoura.

É por isso que não devemos esperar até o doente dizer:

“Já não consigo andar normalmente.”

A neuropatia deve ser avaliada desde os primeiros sintomas.

🧊 Podemos prevenir?

Aqui existe uma área particularmente interessante:

crioterapia e criocompressão.

Durante determinados tratamentos, podem ser utilizadas luvas ou meias de arrefecimento para tentar reduzir a exposição dos tecidos periféricos ao medicamento.

A evidência ainda não é suficientemente forte para afirmar que funciona universalmente.

Mas a guideline da ASCO reconhece dados preliminares promissores para crioterapia, exercício, compressão e criocompressão, considerando-os opções que podem ser razoavelmente seguras quando corretamente utilizadas, embora ainda faltem estudos maiores e mais definitivos.

⚠️ E atenção especial à oxaliplatina:

o frio pode desencadear ou agravar sintomas neurológicos agudos característicos deste medicamento.

Por isso:

não coloque gelo nas mãos e nos pés durante uma perfusão de oxaliplatina por iniciativa própria.

A estratégia deve ser definida pela equipa.

💊 E se a neuropatia já apareceu?

Aqui temos uma das poucas respostas farmacológicas com evidência relativamente sólida.

Para neuropatia periférica dolorosa, a ASCO considera a duloxetina a opção farmacológica com melhor evidência.

Mas atenção:

não é um regenerador dos nervos.

O objetivo é reduzir a dor neuropática.

E o benefício, embora real, é limitado e não funciona igualmente bem em todas as pessoas.

Também podem ser importantes:

🏃 Exercício adaptado
🦵 Fisioterapia
⚖️ Treino de equilíbrio
🚶 Prevenção de quedas
🖐️ Terapia ocupacional
👣 Adaptação das atividades quotidianas

E quando a neuropatia se torna intolerável ou interfere com a função, a equipa de oncologia pode ter de ponderar redução da dose, atraso, suspensão ou substituição do medicamento neurotóxico.

❌ E suplementos?

Não comece vitamina B, vitamina E ou outros suplementos com o objetivo de prevenir neuropatia sem falar com a equipa.

A guideline da ASCO não recomenda vários desses agentes para prevenção da CIPN e, em alguns casos, pode existir risco de dano.

👂 3. Ototoxicidade: quando a quimioterapia pode afetar a audição

Este é provavelmente um dos efeitos mais esquecidos.

E pode ser devastador.

Porque ouvir não signif**a apenas perceber sons.

Signif**a:

🗣️ compreender uma conversa
❤️ ouvir a voz dos filhos
📞 falar ao telefone
🚗 perceber sons de alerta
🎵 ouvir música
👥 participar numa conversa num grupo

Alguns medicamentos anticancerígenos podem lesar o ouvido interno.

O exemplo clássico é a cisplatina.

E também outros derivados da platina podem estar envolvidos.

👂 Onde acontece o problema?

Dentro do ouvido interno existe a cóclea.

É uma estrutura minúscula, em forma de espiral, que transforma vibrações sonoras em sinais eléctricos enviados para o cérebro.

Dentro dela existem células extremamente especializadas:

as células ciliadas.

Estas células são essenciais para a audição.

E têm uma característica terrível:

quando são destruídas, não são facilmente substituídas.

🔬 O que faz a cisplatina?

A cisplatina pode entrar nas células da cóclea e desencadear uma cascata de lesão celular.

Entre os mecanismos estudados estão:

🔥 Stresse oxidativo
🧬 Lesão do ADN
⚡ Disfunção mitocondrial
🧪 Ativação de vias inflamatórias
💀 Morte celular programada — apoptose

O resultado pode ser lesão das células sensoriais e estruturas da cóclea.

E a perda auditiva tende inicialmente a afetar frequências mais altas, podendo depois tornar-se mais evidente na conversação.

😶 “Mas eu ainda ouço perfeitamente…”

É precisamente aqui que está o problema.

A perda pode começar em frequências que o doente não percebe conscientemente.

Por isso, quando a pessoa finalmente diz:

“Acho que estou a ouvir pior.”

já pode existir uma alteração signif**ativa.

Uma meta-análise estimou uma prevalência agrupada de cerca de 43% de perda auditiva ototóxica em pessoas expostas a cisplatina e/ou carboplatina, sendo mais elevada nos regimes com cisplatina.

🛡️ Então podemos prevenir?

Aqui a resposta é muito mais complicada.

Existem estratégias de investigação destinadas a proteger a cóclea.

Uma das mais estudadas é o tiossulfato de sódio.

Há resultados promissores, mas nos adultos a evidência ainda não é suficientemente robusta para dizer:

“Tome isto e f**ará protegido.”

Uma revisão sistemática de 2024 encontrou algum benefício preventivo com várias intervenções, mas concluiu que os benefícios globais eram modestos e que são necessários estudos de maior qualidade. O tiossulfato de sódio foi considerado a estratégia mais promissora.

Uma meta-análise mais recente em adultos também não encontrou redução clara da incidência ou gravidade da perda auditiva com as estratégias estudadas, mostrando como esta área ainda está longe de estar resolvida.

🎧 Então o que podemos fazer?

Uma das estratégias mais importantes é muito menos sofisticada:

detetar cedo.

Idealmente, quando existe risco de ototoxicidade, deve existir uma avaliação auditiva de base antes do tratamento e monitorização durante e depois do tratamento.

Porque detectar uma alteração precocemente permite à equipa:

➡️ confirmar que existe toxicidade
➡️ acompanhar a evolução
➡️ ponderar alterações do tratamento quando clinicamente apropriado
➡️ encaminhar para audiologia/otorrinolaringologia
➡️ iniciar reabilitação auditiva quando necessário

Protocolos de monitorização recomendam avaliações auditivas antes e durante determinados tratamentos com platina, precisamente para identif**ar alterações precocemente.

🔔 E o zumbido?

O doente pode não notar imediatamente uma perda auditiva, mas pode começar a ouvir:

🔔 apitos
🔔 zumbidos
🔔 sons agudos
🔔 sensação de ouvido cheio

Não ignore.

Um novo zumbido durante um tratamento potencialmente ototóxico merece ser comunicado à equipa.

🧬 O que estes três efeitos têm em comum?

À primeira vista parecem completamente diferentes.

Um afecta o cérebro.

Outro afecta os nervos.

Outro afecta o ouvido.

Mas existe uma característica comum:

podem representar toxicidade do sistema nervoso.

E podem ser particularmente difíceis porque:

❌ nem sempre são visíveis
❌ nem sempre aparecem nas análises habituais
❌ podem ser subestimados
❌ podem interferir com trabalho e autonomia
❌ podem persistir depois do tratamento

E existe ainda outra característica:

o momento em que falamos deles importa.

Não devemos esperar que o problema se torne grave.

🚨 A mensagem que todos os doentes devem guardar

Se durante a quimioterapia começar a sentir:

🧠 alterações importantes de memória, concentração ou capacidade de organizar tarefas

🔥 formigueiro, dormência, dor ou queimadura nas mãos e nos pés

👂 zumbido ou alteração da audição

não fique simplesmente à espera que passe.

Diga à equipa.

Quanto mais cedo o problema for identif**ado, maior é a possibilidade de avaliar causas, acompanhar a evolução e discutir medidas para reduzir o impacto.

E há uma diferença enorme entre:

«“Isto é um efeito secundário, aguente.”»
e
«“Isto é um efeito secundário conhecido. Vamos avaliar a intensidade, perceber o impacto e decidir o que podemos fazer.”»

A segunda abordagem é medicina de suporte oncológico.

❤️ Porque tratar o cancro não é apenas destruir o tumor

O objetivo de um tratamento oncológico não pode ser visto apenas através da resposta da TAC.

Também precisamos de perguntar:

Como está o doente a viver?

Consegue trabalhar?

Consegue andar?

Consegue dormir?

Consegue ouvir os filhos?

Consegue concentrar-se?

Consegue utilizar as mãos?

Consegue manter a sua independência?

Consegue reconhecer-se na pessoa que era antes do tratamento?

Porque sobreviver ao cancro é fundamental.

Mas sobreviver preservando o máximo possível da função, autonomia e qualidade de vida também é medicina oncológica.

💬 Agora queremos ouvir-vos

Qual destes efeitos secundários foi mais difícil para vocês?

🧠 Alterações da memória e concentração?

🔥 Neuropatia nas mãos e nos pés?

👂 Zumbido ou perda de audição?

Ou houve outro efeito secundário que mudou completamente a vossa vida e sobre o qual quase ninguém vos avisou?

Contem-nos nos comentários.

A vossa experiência pode ajudar outro doente a reconhecer um problema que ainda não percebeu que está relacionado com o tratamento.

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Porque há efeitos secundários que desaparecem quando termina a quimioterapia.

E há outros que podem acompanhar o doente durante meses ou anos.

Conhecê-los não é ter medo do tratamento.

É estar preparado para o enfrentar.

Comigo aconteceu mas senti com mais força  no final dos tratamentos. E chega a ser incapacitante...
07/09/2026

Comigo aconteceu mas senti com mais força no final dos tratamentos. E chega a ser incapacitante...

O cancro pode mudar a forma como uma pessoa pensa e reage?

“Ele já não é a mesma pessoa.”
“Está muito mais irritável.”
“Antes tinha paciência para tudo. Agora explode por qualquer coisa.”
“Parece que está sempre distante.”
“Esquece-se de coisas que antes nunca esquecia.”
“Há dias em que parece outra pessoa.”

🧑‍🧑‍🧒‍🧒 Estas frases são frequentemente ditas por familiares de pessoas com cancro.

E, por vezes, também pelo próprio doente:
“Não sei o que se passa comigo. Sinto que mudei.”

A resposta é: sim, o cancro e o seu tratamento podem alterar temporariamente — e, em alguns casos, de forma mais prolongada — a maneira como uma pessoa pensa, sente e reage.

Mas isto não signif**a necessariamente que a pessoa tenha “mudado de personalidade”.

Há várias razões possíveis.

🧠 O cérebro também sente o impacto do cancro

Quando uma pessoa recebe um diagnóstico de cancro, o organismo entra numa situação de enorme exigência física e emocional.

Medo, incerteza, dor, alterações do sono, fadiga, perda de autonomia, preocupação com a família, problemas financeiros e receio da morte podem manter o organismo num estado prolongado de stresse.

E um cérebro constantemente exposto a stresse não funciona necessariamente da mesma forma que antes.

A pessoa pode f**ar:

• mais irritável
• mais ansiosa
• emocionalmente mais sensível
• menos tolerante à frustração
• mais pessimista
• mais retraída
• com dificuldade em tomar decisões
• com menor capacidade de concentração

E isto pode acontecer mesmo numa pessoa que anteriormente era extremamente calma.

“Mas ele está diferente…”
Sim.

Mas antes de concluir que “é da personalidade”, é importante perguntar:

O que mudou fisicamente?

🤕 A dor, por exemplo, pode consumir uma enorme quantidade de energia mental.
Uma pessoa que está constantemente com dor tem menos recursos disponíveis para lidar com pequenos problemas do dia-a-dia.

😩 O mesmo acontece com a fadiga relacionada com o cancro.
Não estamos a falar simplesmente de estar cansado.
É uma exaustão que pode afectar a capacidade de concentração, actividade física, motivação e funcionamento diário.
E quando alguém passa dias ou semanas a sentir-se fisicamente esgotado, a sua capacidade de controlar emoções também pode diminuir.

😴 Dormir mal também muda o comportamento

O sono é outro factor frequentemente subestimado.

Dor, ansiedade, tratamentos, corticosteróides, hospitalizações, preocupação e alterações dos horários podem perturbar profundamente o sono.

E a privação de sono pode afectar:
atenção, memória, concentração, humor e capacidade de regular as emoções.

Uma pessoa que dorme mal durante vários dias pode tornar-se muito mais irritável, impulsiva ou emocional.

🧠 E existe o chamado “chemobrain”

Algumas pessoas submetidas a determinados tratamentos oncológicos descrevem alterações cognitivas como:

“Entro numa divisão e esqueço-me porque fui lá.”
“Tenho uma palavra na ponta da língua e não me consigo lembrar.”
“Leio uma coisa e tenho de voltar atrás.”
“Tenho dificuldade em concentrar-me.”
“Antes conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo. Agora não consigo.”

Este fenómeno é frequentemente designado por “chemobrain” ou défice cognitivo associado ao cancro e ao seu tratamento.

Apesar do nome, não ocorre exclusivamente com a quimioterapia.
Alterações cognitivas podem estar relacionadas com vários factores associados ao cancro: a própria doença, tratamentos, fadiga, ansiedade, depressão, perturbações do sono, dor e outras alterações físicas.

E podem afectar memória, atenção, velocidade de processamento e funções executivas.

💊 Os medicamentos também podem contribuir

Outro aspecto importante:

nem todas as alterações comportamentais são causadas directamente pelo cancro.

Alguns medicamentos utilizados durante o tratamento podem influenciar o humor, o sono, a atenção ou o comportamento.

Os corticosteróides, por exemplo, podem provocar em algumas pessoas alterações importantes do sono e do humor, ansiedade, agitação ou irritabilidade.

Por isso, uma mudança súbita de comportamento deve ser avaliada no contexto de toda a situação clínica, e não atribuída automaticamente ao carácter da pessoa.

⚠️ Mas há situações que não devem ser ignoradas

Uma alteração ligeira de concentração ou maior irritabilidade pode acontecer.

Mas uma mudança súbita e marcada do estado mental é diferente.

Confusão, desorientação, sonolência anormal, agitação intensa, alterações importantes do comportamento, alucinações ou dificuldade repentina em falar ou compreender podem indicar um problema médico que precisa de avaliação.

Infecções, alterações dos níveis de sódio ou cálcio, desidratação, alterações metabólicas, efeitos de medicamentos e outras complicações podem provocar delirium ou alterações agudas do estado mental.

Nestes casos, não devemos simplesmente dizer:

“É do cancro.”

É preciso procurar a causa.

❤️ E existe outra parte que raramente se fala

A pessoa pode estar a sofrer sem conseguir explicar aquilo que sente.
Pode saber que está mais irritável, mas não perceber porquê.
Pode querer estar sozinho, mas sentir culpa por afastar a família.
Pode esquecer-se de coisas e f**ar assustado.
Pode sentir-se frustrado porque já não consegue fazer aquilo que fazia antes.

Pode olhar para si próprio e pensar:
“Onde está a pessoa que eu era?”

E é aqui que a família pode fazer uma enorme diferença.

Em vez de:
“Estás impossível.”
“Já não se pode falar contigo.”
“Estás diferente.”
“Antes não eras assim.”

pode ser muito mais útil perguntar:

“Tens reparado que te tens sentido diferente?”
“Há alguma coisa que esteja a ser particularmente difícil?”
“Tens dormido bem?”
“Estás com dores?”
“Sentiste alguma alteração na memória ou na concentração?”

Às vezes, aquilo que parece mau feitio é dor.

Aquilo que parece desinteresse pode ser exaustão.

Aquilo que parece esquecimento pode ser défice cognitivo.

Aquilo que parece afastamento pode ser medo.

E aquilo que parece uma mudança de personalidade pode ser uma pessoa simplesmente a tentar sobreviver a uma situação extraordinariamente exigente.

🗣️ Agora queremos ouvir-vos

Se está a passar por um cancro, ou se acompanha alguém que está a passar por esta doença, queremos saber se reconhece alguma destas alterações.

Sentiu que mudou a sua memória?

A concentração?

A paciência?

O humor?

A forma de reagir às pessoas?

Ou sentiu que os outros começaram a dizer:

“Já não és a mesma pessoa.”

Conte-nos nos comentários.

Queremos ouvir as vossas experiências.

Porque falar sobre estas alterações também ajuda a perceber que determinadas experiências não são necessariamente “fraqueza”, “falta de vontade” ou “mau carácter”.

E pode ajudar outras pessoas a reconhecerem aquilo que estão a viver.

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Pode ser exactamente a explicação que essa pessoa precisava de encontrar.

Eu não sabia como o depois era duro...
03/09/2026

Eu não sabia como o depois era duro...

Terminei o tratamento e não estou feliz.

"Acabou."
A família respira de alívio. Os amigos felicitam. Alguém diz que agora é altura de voltar à vida normal. Talvez até haja uma celebração.
E, claro, existe alívio. Depois de meses de consultas, exames, cirurgias, quimioterapia, radioterapia ou outras terapêuticas, poder finalmente dizer "terminei" pode ser um momento extraordinário.

😶 Mas existe uma parte desta história de que se fala muito menos.
Para algumas pessoas, quando o tratamento termina, começa uma fase emocionalmente estranha e difícil.
Porque durante meses existiu um plano. Havia uma próxima consulta, uma próxima sessão, uma análise, um exame, uma medicação. Havia sempre alguma coisa para fazer.
E depois, de repente, há silêncio.

🏥 O hospital deixa de fazer parte da rotina diária.

As consultas tornam-se menos frequentes.
As pessoas à volta começam a assumir que está tudo bem.
E o doente pode f**ar sozinho com uma pergunta que ninguém parece saber responder:
"E agora?"

〰️ Quando toda a gente acha que acabou, mas para o doente ainda não acabou

É importante perceber uma coisa: terminar o tratamento não signif**a necessariamente que todas as consequências do cancro desapareceram.
O corpo pode continuar cansado. Podem persistir alterações da sensibilidade, neuropatia, problemas digestivos, alterações hormonais, dificuldades de concentração, alterações da sexualidade, cicatrizes, alterações da imagem corporal ou outras consequências relacionadas com a doença e com os tratamentos.

Alguns efeitos podem melhorar progressivamente. Outros podem persistir durante bastante tempo e alguns podem surgir ou tornar-se evidentes meses ou anos depois, dependendo do tipo de cancro e dos tratamentos realizados. Por isso, o acompanhamento depois do tratamento continua a ser importante.

Mas existe também uma consequência que não aparece numa TAC nem numa análise ao sangue:
a pessoa pode deixar de confiar no próprio corpo.
Uma dor de cabeça pode deixar de ser simplesmente uma dor de cabeça.
Uma dor nas costas pode transformar-se imediatamente na pergunta:
"Será que voltou?"
Uma noite mal dormida pode provocar medo.
Uma alteração intestinal pode desencadear uma pesquisa desesperada na internet.

E quando chega a data de uma consulta ou de um exame de controlo, a ansiedade pode aumentar novamente.
É aquilo que muitas pessoas chamam de "scanxiety", a ansiedade associada aos exames e consultas de vigilância. O NCI reconhece que o medo de recorrência pode ser uma fonte importante de sofrimento depois do tratamento.

😱 O medo de que o cancro volte

Este talvez seja um dos aspectos mais difíceis de explicar a quem nunca teve cancro.
Imagine passar meses a lutar contra uma doença e, finalmente, ouvir que o tratamento terminou.
A pessoa deveria estar feliz.
E está.
Mas ao mesmo tempo pensa:
"E se voltar?"
O medo de recorrência é muito comum entre sobreviventes de cancro. Estudos sistemáticos mostram que pode permanecer durante anos, embora a intensidade varie muito entre pessoas e ao longo do tempo. Uma meta-análise publicada em 2023 encontrou uma associação consistente entre o medo de recorrência e sintomas de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico.
Isto é importante porque desmonta uma ideia muito injusta:
ter medo de que o cancro volte não signif**a que a pessoa não esteja grata por estar viva.
Pode estar profundamente feliz por ter terminado o tratamento e, simultaneamente, aterrorizada com a possibilidade de voltar a passar por tudo.
As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.

🤚 "Mas o tratamento acabou. Agora tens de seguir em frente."

Esta frase é provavelmente bem-intencionada.
Mas pode ser dolorosa.
Porque "seguir em frente" não signif**a necessariamente esquecer o que aconteceu.
Uma pessoa que passou por um cancro pode precisar de tempo para reconstruir a relação com o próprio corpo, com a família, com o trabalho e consigo própria.
Durante o tratamento, talvez tenha sido necessário colocar tudo em segundo plano.
Agora espera-se que volte imediatamente a trabalhar.
Que volte a ser o pai ou a mãe de antes.
Que retome a vida social.
Que recupere a energia.
Que volte a ter relações se***is normalmente.
Que faça planos.
Que deixe de falar do cancro.

Mas a recuperação não funciona como um interruptor.
O fim do tratamento pode ser uma transição, não um regresso instantâneo à pessoa que existia antes do diagnóstico.
O próprio NCI descreve alterações físicas, emocionais, sociais, familiares, profissionais e relacionadas com a imagem corporal como componentes importantes da vida depois do tratamento.

🫗 Existe também um vazio

Durante o tratamento, o doente pode sentir que a sua vida está completamente organizada à volta do cancro.
Acorda e sabe o que tem de fazer.
Vai ao hospital.
Faz análises.
Recebe tratamento.
Tem efeitos secundários.
Fala com profissionais de saúde.
Volta para casa.
Prepara-se para a próxima etapa.
Há medo, mas também existe uma estrutura.
Quando o tratamento termina, essa estrutura desaparece parcialmente.
E algumas pessoas sentem um vazio que têm dificuldade em explicar.
Não porque queiram continuar doentes.
Não porque tenham gostado do tratamento.
Mas porque passaram meses num estado de alerta permanente e, de repente, precisam de reaprender a viver sem a mesma vigilância.
É uma mudança psicológica importante.
Durante o tratamento, a prioridade era sobreviver ao tratamento. Depois, é preciso reaprender a viver.
E são coisas diferentes.

🧑‍🧑‍🧒‍🧒 A família também pode mudar de comportamento

Durante a doença, talvez toda a gente perguntasse:
"Como estás?"
"Precisas de alguma coisa?"
"Como correu o tratamento?"
Depois do último tratamento, essas perguntas podem desaparecer rapidamente.
A família pensa:
"Já está tudo bem."
Os amigos pensam:
"Finalmente ultrapassou isto."
O empregador pensa:
"Agora pode voltar ao normal."
E o próprio doente pode sentir que já não tem legitimidade para dizer:
"Na realidade, ainda não estou bem."

É aqui que pode surgir uma espécie de solidão muito particular.
Não é necessariamente estar sozinho.
É sentir que as pessoas à volta deixaram de perceber aquilo que ainda está a acontecer dentro de nós.

🛠️ E voltar ao trabalho?

Para algumas pessoas, regressar ao trabalho é uma parte importante da recuperação.
Pode devolver estrutura, independência financeira, contacto social e uma sensação de normalidade.
Mas não é necessariamente simples.
A capacidade física pode ainda não ser a mesma.
A fadiga pode persistir.
A concentração pode estar alterada.
A pessoa pode ter medo de não conseguir desempenhar as mesmas funções.
Pode existir receio de discriminação.
Pode existir dificuldade em explicar ao empregador aquilo que ainda sente.
E pode existir uma enorme pressão interna para provar:
"Já estou bem."

Mas recuperar de um cancro não signif**a necessariamente recuperar imediatamente a mesma capacidade física e psicológica que existia antes.

🧑‍🦽 O corpo pode ter mudado

Há outro aspecto de que se fala pouco.
O cancro pode deixar marcas.
Uma cirurgia pode alterar o corpo.
A radioterapia pode deixar alterações na pele e nos tecidos.
Alguns tratamentos podem provocar queda de cabelo, alterações de peso ou mudanças hormonais.
Pode existir uma ostomia.
Pode existir uma cicatriz.
Pode existir neuropatia.
Pode existir infertilidade.
Pode existir disfunção sexual.

Pode existir uma sensação de que o corpo deixou de ser completamente familiar.
E isto pode afetar a autoestima, a intimidade e a relação com o parceiro.
Não é superficial.
O corpo é uma parte importante da forma como nos relacionamos connosco e com os outros.

🧘‍♂️ "Estou curado?"

Esta pode ser uma das perguntas mais difíceis.
E a resposta depende do tipo de cancro, estadio, tratamento e contexto clínico.
Nem todos os doentes terminam o tratamento com a mesma situação clínica. Algumas pessoas entram numa fase de vigilância depois de um tratamento com intenção curativa. Outras continuam tratamentos de manutenção. Outras vivem com doença que pode ser controlada durante longos períodos.
Por isso, não existe uma única experiência de "fim do tratamento".
É precisamente por isso que o acompanhamento deve ser individualizado.

Depois do tratamento, deve existir um plano que explique o seguimento, quais os exames necessários, que sintomas devem motivar contacto com a equipa, quais podem ser os efeitos tardios do tratamento e quem será responsável pelo acompanhamento. O NCI recomenda que os sobreviventes recebam um plano de acompanhamento adaptado ao tipo de cancro e aos tratamentos realizados.

😦 E se aparecer uma dor?

Aqui é preciso equilíbrio.
Depois de um cancro, é perfeitamente compreensível que uma pessoa fique atenta a qualquer alteração.
Mas isso não signif**a que cada sintoma seja uma recaída.
Uma dor de costas pode ser uma contratura.
Uma dor de cabeça pode ser apenas uma dor de cabeça.
Uma alteração intestinal pode ter dezenas de causas.
O próprio NCI alerta para este fenómeno: novos sintomas não signif**am necessariamente que o cancro regressou. Ainda assim, sintomas novos ou persistentes devem ser comunicados à equipa de saúde, que poderá avaliar se são relacionados com o tratamento, com a doença ou com outra causa.

O objectivo não é viver em estado de vigilância permanente.
É aprender a distinguir atenção à saúde de hipervigilância angustiante.
E isso nem sempre é fácil.

🛑 Quando o medo começa a controlar a vida

Ter medo é normal.
Mas o sofrimento não deve ser simplesmente aceite como inevitável.
Se a ansiedade é intensa, persistente e começa a interferir com o sono, trabalho, relações, atividade diária ou qualidade de vida, é importante falar com a equipa de saúde.
Não é preciso esperar até estar "no limite" para pedir ajuda.
As recomendações da ASCO para sobreviventes adultos de cancro defendem que os doentes e, quando apropriado, familiares ou pessoas próximas devem receber informação sobre ansiedade e depressão e ter acesso a recursos para avaliação e tratamento quando necessário.

Existem intervenções psicológicas estudadas especif**amente para o medo de recorrência, e revisões sistemáticas mostram benefício de diferentes abordagens psicoterapêuticas em determinados grupos de sobreviventes.
Pedir ajuda não signif**a que a pessoa esteja a lidar mal com a sobrevivência.
Signif**a reconhecer que sobreviver ao cancro também pode exigir cuidados.

👩‍⚕️ Então, o que deveria acontecer quando o tratamento termina?

Não deveria simplesmente acontecer isto:
"Terminou. Até à próxima."
Deveria existir uma transição.
Uma explicação clara sobre o que acontece a partir daquele momento.
Um plano de acompanhamento.
Informação sobre sintomas que devem ser comunicados.
Orientação sobre efeitos tardios.
Espaço para falar sobre fadiga, sono, sexualidade, imagem corporal, alimentação, atividade física, trabalho, relações familiares e saúde mental.
E, sobretudo, uma oportunidade para o doente fazer perguntas.

Algumas são simples, mas fundamentais:
Quem me vai acompanhar daqui para a frente?
Com que frequência vou ser avaliado?
Que exames vou fazer e porquê?
Que sintomas devo comunicar?
Quais os efeitos tardios que devo conhecer?
Quanto tempo poderá demorar até recuperar fisicamente?
É normal continuar a sentir ansiedade?
A quem posso pedir ajuda se sentir que não estou a conseguir lidar com esta fase?

Estas questões fazem parte de uma boa transição para a fase de sobrevivência.

Talvez o maior erro seja pensar que existe um "normal" para onde todos têm de voltar
Algumas pessoas recuperam rapidamente.
Outras precisam de meses.
Outras f**am com consequências permanentes.
Algumas querem falar sobre o cancro.
Outras preferem não falar.
Algumas sentem uma enorme vontade de celebrar.
Outras sentem medo.
Algumas querem voltar ao trabalho imediatamente.
Outras precisam de tempo.

Não existe uma única maneira correta de viver depois do tratamento.
O objetivo não deveria ser obrigar alguém a voltar a ser exatamente quem era antes do cancro.
Talvez seja construir uma vida nova a partir daquilo que aconteceu.
Com as marcas que f**aram.
Com aquilo que mudou.
Com aquilo que se perdeu.
Mas também com aquilo que continua.
E talvez seja por isso que o fim do tratamento possa ser simultaneamente um dos dias mais felizes e um dos mais assustadores

A última sessão pode trazer lágrimas de alegria.
Mas também pode trazer medo.
Pode trazer alívio.
Mas também vazio.
Pode trazer esperança.
Mas também a pergunta:
"E se voltar?"
Pode trazer vontade de recuperar a vida.
Mas também a sensação de que já não sabemos exatamente como fazê-lo.
E talvez seja importante que familiares e amigos compreendam isto.
Quando alguém termina o tratamento, talvez não precise de ouvir apenas:
"Finalmente acabou."
Talvez precise de ouvir:
"Eu sei que acabou uma fase. Mas sei que para ti ainda há muita coisa para processar. Estou aqui."
Porque o tratamento pode terminar num determinado dia.
A experiência do cancro não termina necessariamente nesse dia.
E ninguém deveria sentir vergonha por isso.

👂 Queremos ouvir quem passou por isto

Se já terminou um tratamento contra o cancro, queremos fazer-lhe uma pergunta que talvez seja mais importante do que todas as outras:
O que ninguém lhe explicou sobre o dia em que o tratamento acabou?
Sentiu alívio? Medo? Vazio? Liberdade? Ansiedade?
Sentiu que a sua família compreendeu o que estava a sentir ou começou imediatamente a agir como se estivesse tudo resolvido?

E existe uma pergunta ainda mais difícil:
Quando toda a gente à sua volta pensava que a doença tinha terminado, sentia que para si ela ainda continuava presente?
Conte-nos a sua experiência nos comentários.
Pode ajudar alguém que acabou agora o tratamento e está a sentir exatamente aquilo que pensava que só lhe acontecia a si.

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