02/09/2026
Em Santo Agostinho, concupiscência não significa simplesmente desejo sexual. É algo bem mais profundo.
A palavra vem do latim concupiscentia e significa um desejo intenso ou desordenado. Na tradição cristã, é a inclinação humana a buscar satisfação nas coisas criadas de maneira desordenada, colocando-as acima do que deveria orientar a vida — Deus e o bem.
Quando Santo Agostinho fala nas Confissões das “três formas de concupiscência”, ele está dialogando com 1 João 2,16. São elas:
1. Concupiscência da carne — concupiscentia carnis
É a busca desordenada pelos prazeres dos sentidos: comida, bebida, sexualidade, conforto, experiências sensoriais etc. O problema, para Agostinho, não é sentir prazer, mas tornar-se governado pelo prazer.
2. Concupiscência dos olhos — concupiscentia oculorum
É mais interessante do que simplesmente “querer possuir aquilo que vemos”. Agostinho a relaciona especialmente à curiosidade desordenada: querer ver, experimentar e saber apenas pela excitação de saber. É a necessidade incessante de novidade e estímulo. Trazendo para hoje, lembra muito o impulso de consumir informações, imagens, redes sociais e vidas alheias sem que aquilo realmente nos transforme.
3. Soberba da vida — superbia vitae / ambitio saeculi
É o desejo de ser admirado, reconhecido, poderoso ou superior. Aqui entram vaidade, status, prestígio e necessidade de aprovação. É quando deixamos de fazer algo porque é verdadeiro ou bom e começamos a fazê-lo para sermos vistos.
E isso deixa a passagem ainda mais bonita.
Quando Agostinho escreve:
“Examinei minhas fraquezas de pecador nas três formas de concupiscência…”
ele está fazendo praticamente um exame radical do próprio coração:
O que me domina?
O prazer?
A curiosidade?
Ou a necessidade de ser reconhecido?
E logo depois vem a questão da Verdade. Para Agostinho, o problema não está no mundo em si, mas em nossa relação desordenada com ele. O coração procura fora aquilo que, no pensamento dele, só encontra repouso quando sua ordem interior volta para Deus.