19/05/2026
Sou intensamente apaixonada pela prótese e pela reabilitação oral.
Nietzsche escreveu que “aquele que tem um porquê é capaz de suportar qualquer como”. Mas existem pessoas que não apenas suportam a vida. Elas transformam as próprias feridas em destino.
E antes de iniciar o aprender a reconstruir sorrisos, eu precisei aprender a sobreviver dentro de mim mesma.
O autismo me ensinou cedo o que é sentir o mundo em profundidade excessiva. Enquanto muitos habitavam a superfície das relações, eu afundava em percepções que ninguém parecia notar.
E foi nesse silêncio que comecei a enxergar:
há pessoas caminhando por aí com partes inteiras da alma apagadas.
Pessoas que desaprenderam a sorrir espontaneamente.
Que escondem a boca enquanto falam. Que evitam fotografias.
Algumas perdas não arrancam apenas dentes, ausência óssea, desgaste ou colapso funcional. Arrancam identidade.
A vida foi irônica quando me fez perceber que o que mais isolou também ampliou minha capacidade de tocar o humano com profundidade incomum.
O autismo me retirou muitas facilidades. Mas, em troca, me deu percepção, hiperfoco, e a capacidade de sentir nuances emocionais escondidas atrás de pequenos gestos.
E, acima de tudo, me deu uma forma radical de servir.
Hoje entendo que minhas mãos não trabalham apenas com próteses.
Elas recolhem fragmentos invisíveis de pessoas que estavam desaparecendo de si mesmas.