10/09/2026
Quando o não aprender é aprendido antes da criança
É comum ouvirmos, ainda hoje, que determinadas crianças não aprendem. Quando se trata de criança com deficiência, essa afirmação pode aparecer quase como um comentário meio que "en passant", muitas vezes, não são pronunciadas com a intenção consciente de excluir e é justamente aí que está uma questão importante: o capacitismo não nasce apenas de atitudes individuais de preconceito, ele é também uma construção histórica, social, cultural e institucional. Eles são produzidos nos modos de olhar para os corpos, focando nas diferenças e não enxergando
as potencialidades de cada sujeito. Ao longo do tempo, a sociedade foi ensinada a associar deficiência a incapacidade, assim, certas ideias podem se instalar nesse imaginário social antes mesmo que nos darmos conta delas. Aprendemos, de diferentes maneiras, quem é considerado capaz, produtivo, inteligente, quem pode ocupar determinados espaços e, sobretudo, quem se espera que aprenda. A criança com deficiência frequentemente chega à escola precedida por nomeações que dizem sobre ela antes que alguém tenha se disposto a escutá-la. O diagnóstico, a deficiência, o laudo, a classificação, o nível de suporte ou a condição clínica podem tornar-se, inadvertidamente, uma espécie de antecipação do sujeito, ou seja, criança passa a ser vista a partir daquilo que lhe falta, e não a partir daquilo que pode produzir na relação com os pares, com o saber, com o Outro. Mas, é preciso perguntar: quando sugerimos que uma criança específica não aprende, estamos descrevendo uma impossibilidade da criança ou revelando, também, os limites das condições que lhe oferecemos para aprender?
Essa pergunta desloca o problema, pq não se trata de negar as deficiências, as limitações funcionais ou as necessidades específicas de cada sujeito, tampouco significa romantizar a inclusão, ou afirmar que todas as crianças aprenderão da mesma maneira: trata-se de não transformar uma condição em destino: uma criança pode não responder ao modelo de aprendizagem que a escola tradicionalmente reconhece (pode não falar, não desenhar organizado, brincar de forma funcional, escrever dentro do recorte etário, não permanecer sentada, não responder às atividades convencionais, não demonstrar aquilo que sabe pelos meios esperados), mas isso não autoriza concluir que não há aprendizagem, desejo, produção de sentido ou possibilidade de participação.
Talvez uma das formas mais perversas do capacitismo seja justamente fazer com que confundamos ausência de resposta com ausência de sujeito. A escola, então, encontra um desafio ético e político: sustentar a presença daquele que não corresponde ao aluno idealizado. Pq incluir não é apenas permitir que a criança esteja fisicamente dentro da escola, pertencer é outra coisa. Uma criança pode estar matriculada, frequentar um espaço, possuir um professor de apoio, receber adaptações e, ainda assim, permanecer simbolicamente do lado de fora. Pode estar presente no espaço físico e ausente do campo das expectativas. E aqui aparece uma questão decisiva: o que esperamos de uma criança quando acreditamos que ela não aprenderá? A expectativa não é neutra, ela organiza as ações, as escolhas pedagógicas, aquilo que é oferecido, o tempo que é disponibilizado, as perguntas que são feitas, os desafios que são propostos e até mesmo aquilo que é conseguido enxergar como aprendizagem. Se acreditamos que determinada criança apenas necessita de cuidados, podemos reduzir sua experiência escolar ao cuidado, se acreditamos que ela não compreenderá, talvez deixemos de falar com ela e de escutar seus silêncios. Isso abre uma ressonância muito ruim do que se entende como educação de qualidade como uma aposta no sujeito em suas capacidades, como estão amplamente debatidos em nossos normativos e nos meios acadêmicos vigentes. Muito importante continuar estudando, debatendo, buscando, aprendendo, inventando lugares, palavras e abrindo espaços para se surpreender com as crianças "desacreditadas" , que, não só aprendem, como nos ensinam de várias formas.
Daniella Salgado, pesquisadora das interfaces entre saúde, educação e psicanálise, com atuação profissional na enfermagem, na educação e na clínica psicanalítica.