21/05/2026
A gente vive num cenário curioso: estamos sendo estimulados o tempo todo com comida hiperpalatável, telas, consumo, excesso de informação… e depois transformam desejar em doença.
Então vem: remédio para não sentir fome. Remédio pra dormir. Cafeína nas alturas pra acordar e ter “energia”. Hormônio pra libido. Caneta deu depressão? Mais um remédio. Ansiedade por viver uma vida desconectada do próprio ritmo? Outro remédio.
O corpo virou inimigo. O desejo virou inimigo.
Mas será???
Sem algum tipo de “fome”, ninguém se move em direção a nada.
Tem diferença entre: “eu desejo porque estou viva” e “eu consumo compulsivamente porque estou desconectada de mim.”
Acho que existe algo profundamente humano em desejar um chocolate quente num dia frio, um pão quentinho, uma sopa reconfortante, uma refeição compartilhada. Isso não deveria automaticamente signif**ar fraqueza moral.
Mas claro, sempre vale o bom senso: faz sentido isso hoje? Entrei num ciclo de querer só comer mal? Estou garantindo os nutrientes pra deixar meu corpo feliz? Estou escutando meu corpo? Percebendo minhas emoções, meus ciclos, meu ritmo? Ou só acelerando num modo de vida incompatível comigo? Só sendo levada pelas demandas de fora?
O desejo está participando da vida… ou tentando substituir a vida?
Eu acho meio bizarro...pra mim, ok?! um remédio pra perder desejo, pra não querer comer.
Porque fome, vontade e desejo estão profundamente ligados à vida e à saúde.
Quando adoecemos, muitas vezes perdemos o apetite. Perdemos o brilho. Perdemos o interesse.
Eu, particularmente, amo provar coisas novas. Amo testar receitas novas. E normalmente, se não estou animada pra isso, talvez eu não esteja muito bem. Seja no corpo. Seja na cabeça.
Talvez o problema não seja simplesmente desejar...
Talvez o problema seja termos desaprendido a escutar o que esse desejo está tentando nos contar.