Dr Luiz Carlos Sardenberg - Psiquiatra

Dr Luiz Carlos Sardenberg - Psiquiatra Suporte Psiquiátrico para as questões da vida cotidiana, quebrando tabus da saúde metal em Cachoeiro.

Apesar do almoçoEu havia avisado, no story de ontem, que subiria a Pedra Azul com a culpa de quem deixa o consultório de...
06/06/2026

Apesar do almoço

Eu havia avisado, no story de ontem, que subiria a Pedra Azul com a culpa de quem deixa o consultório de portas fechadas numa sexta. Pois bem: cumpri a ameaça. Subi a serra com a consciência pesada e desci com ela leve — o que só prova que culpa é sentimento que não resiste a uma boa companhia.

O destino era o Lago Negro, dentro da Pousada Pedra Azul. O lugar é de uma beleza que quase ofende: lago, neblina, montanha e um azul que demorava a virar noite. A natureza caprichou. O restaurante, nem tanto.

Digamos que a equipe trabalhava num regime de improviso. O garçom surgia como aparição mariana — raro e sem avisar. A comida chegava com a pontualidade dos Correios e o sabor de quem cozinha contrariado. Houve grosseria, houve demora, houve um prato que era mais conceito do que alimento. Em qualquer outro dia, eu teria escrito uma resenha vingativa.

Mas não era qualquer outro dia.

Porque à mesa estava quase toda a minha família — faltavam só meus irmãos para fechar o quórum do amor. Meu pai, minha mãe, minha tia-avó que é a minha segunda mãe e nunca pediu desconto por isso. Amanda, atrás da câmera e, ainda assim, na frente de todo mundo. Meus filhos. O velho amor e o novo — esse que chega de mansinho e, quando a gente vê, já mandou f**ar.

Aristóteles, que entendia dessas coisas, escreveu na Política que a família é a comunidade que a natureza constituiu para suprir as necessidades cotidianas do homem. O grego era seco, mas tinha razão. Só errou no tamanho: a família não supre necessidade cotidiana nenhuma. Ela supre aquela que a gente nem sabia que tinha.

Rimos à beça. Falamos de tudo e de nada, que é o melhor dos assuntos. Nos olhamos muito — coisa que a gente vive esquecendo de fazer. As crianças felizes, eu mais ainda. Saí dali afetivamente recarregado — e garanto que não foi por causa da cozinha.

Agora são cinco da manhã. Tomo café sozinho e lembro de ontem. O amor genuíno é assim: altamente transmissível, delicadamente sensível, e com a mania de só aparecer por inteiro quando já virou lembrança.

Lembrar, talvez, seja a melhor parte.

03/06/2026

Muita gente acha que ansiedade é pensar demais. Mas o problema geralmente é outro.

Ansiedade é, antes de tudo, um cérebro em estado constante de alerta. Como se alguma ameaça estivesse sempre próxima.

Por isso surgem sintomas como tensão, dificuldade para relaxar, irritabilidade e sensação de que a mente nunca desliga.

Não é apenas pensamento. É o organismo inteiro funcionando como se estivesse em emergência.

E viver assim por muito tempo tem um custo.

Entender isso é um passo importante no cuidado com a saúde mental.

O Primeiro CaféLevantei ainda no escuro, antes da casa e antes do mundo, para fazer o café. Faço questão de fazer eu mes...
31/05/2026

O Primeiro Café

Levantei ainda no escuro, antes da casa e antes do mundo, para fazer o café. Faço questão de fazer eu mesmo. Há um mito de que qualquer um prepara um café, o que é tão falso quanto dizer que qualquer um cantava como o Sinatra. O primeiro do dia, então, é matéria para especialistas.

Fui para a varanda assistir ao sol nascer. Os pássaros passavam em formação, o céu trocava de luz como cenário de teatro, e confesso que me emocionei — sem vergonha nenhuma, que homem que não se emociona com um amanhecer perdeu alguma coisa pelo caminho.

Na cadeira, retomei os contos da Lygia Fagundes Telles, que escrevia como pouca gente neste país. Dormi no meio de um deles, o que não é demérito da Lygia e sim elogio à cadeira. Freud explicaria o sonho que tive; prefiro não dar esse gostinho a ele. Acordei com um beijo da Amanda, e aqui Shakespeare ajuda: somos feitos da matéria dos sonhos, mas o despertar, quando é assim, vale mais que o sonho.

À tarde, a banca de jornal com Pedro, Eduardo e Bernardo. Eles tratam as figurinhas com a seriedade que a Bolsa de Londres dedica ao ouro — repetidas viram moeda, trocas viram diplomacia. Eu, atrás do jornal, observava aquele mercado infantil funcionar melhor que muita economia adulta.

Ainda deu tempo do PSG, meu segundo time, ser bicampeão da Champions — façanha que há dez anos ninguém apostaria. E deu tempo, sobretudo, do tato e do cheiro da Amanda, que é o assunto sobre o qual um cavalheiro não se alonga.

Esse foi meu sábado em casa. E talvez o melhor dele seja isto: já é domingo, o café está pronto e o sol ensaia, mais uma vez, sua velha estreia. Há felicidades que não acabam; apenas amanhecem outra vez.

* Crônica de domingo, escrita ainda no escuro — com café e em voz alta.

Experiências emocionais difíceis nem sempre permanecem apenas na memória. Muitas vezes, elas continuam influenciando com...
27/05/2026

Experiências emocionais difíceis nem sempre permanecem apenas na memória. Muitas vezes, elas continuam influenciando comportamentos, relações e emoções na vida adulta.

Isso pode aparecer como ansiedade constante, insegurança, necessidade excessiva de aprovação ou dificuldade de confiar nas pessoas.

Do ponto de vista psiquiátrico, compreender a história emocional de cada indivíduo faz parte do processo de cuidado.

Identif**ar esses padrões permite construir formas mais saudáveis de lidar com emoções, vínculos e escolhas.

Há um momento da noite em que a cidade finalmente para de exigir alguma coisa da gente. Há dias em que tudo dá errado. N...
26/05/2026

Há um momento da noite em que a cidade finalmente para de exigir alguma coisa da gente.

Há dias em que tudo dá errado.

Não os grandes desastres, que esses pelo menos têm a dignidade da tragédia. Falo dos dias miúdos, esfarelados, em que o café entorna, o ônibus passa reto, e a gente chega em casa com aquela sensação de ter sido derrotado por adversários que sequer apareceram para lutar.

E então acontece uma coisa simples.

Volto à cadeira. Acendo o computador. E começo a escrever qualquer bobagem — uma tolice sobre o gato do vizinho, uma divagação sobre por que as meias somem na máquina, alguma observação sem nenhuma serventia prática para a humanidade.

Eu chamo isso de crônica, mas talvez seja só um bilhete que mando ao mundo dizendo: ainda estou aqui.

E o mundo, gentil, responde.

Chegam os amigos com seus elogios, e eu sei muito bem que metade é puro carinho, que eles aplaudiriam de pé se eu escrevesse a lista do supermercado. Mas isso, longe de diminuir o gesto, é justamente o que o torna precioso.

Porque o elogio amoroso não está dizendo “que texto genial”. Está dizendo outra coisa, mais alta: “vimos você, e gostamos que você esteja por aqui”.

Aí o dia ruim recua. Não some — f**a ali no canto, emburrado, mas inofensivo.

E quando levanto da cadeira, percebo, com certo espanto, que o mundo voltou ao normal. Como se nunca tivesse ido embora. Como se o problema todo tivesse sido apenas eu, de cabeça baixa, esquecido de olhar pra cima.

Talvez seja esse o segredo mais bem guardado da escrita tola dividida entre amigos: ela não conserta a vida. Só nos lembra, de mansinho, que a vida não precisava ser consertada.

Precisava de companhia.

E, sinceramente, às vezes isso basta.

Os últimos dias no Aché Summit 2026 foram de atualização científ**a intensa, troca entre colegas e reflexões importantes...
25/05/2026

Os últimos dias no Aché Summit 2026 foram de atualização científ**a intensa, troca entre colegas e reflexões importantes sobre os rumos da medicina e da psiquiatria.

Vivemos um momento de grandes avanços tecnológicos, inteligência artificial, medicina personalizada e novas formas de compreender o cérebro e o comportamento humano.

Mas talvez a principal percepção tenha sido esta:

quanto mais a medicina avança, mais percebemos a importância da individualização e da escuta.

A psiquiatria baseada em evidências não se afasta do humano. Pelo contrário, ela se torna sofisticada o suficiente para reconhecer que pessoas não são iguais e que o cuidado precisa considerar história, contexto e singularidade.

Saio do congresso renovado e lembrado de algo essencial:

o centro da medicina continua sendo o encontro entre ciência e humanidade.

Repostei essa crônica acima de quase um ano porque gostei de escrevê-la. Há textos que a gente publica e esquece; outros...
24/05/2026

Repostei essa crônica acima de quase um ano porque gostei de escrevê-la. Há textos que a gente publica e esquece; outros f**am por perto, como certas músicas ou certos poemas.

Congressos têm um curioso efeito sobre mim. Eu vou animado, disciplinado, disposto a ouvir palestras sobre múltiplos temas, conhecer gente, aprender coisas novas. Tudo muito digno, muito adulto. Mas bastam dois dias longe para eu começar a procurar voos mais cedo de volta, como um fugitivo olhando mapas. Fico na esperança de que talvez exista um encaixe milagroso, uma brecha no destino que me devolva antes para casa.

Aí lembrei de Próspero, de A Tempestade. Depois de anos numa ilha, senhor de toda a magia do mundo, ele faz a única coisa que importa: quebra o cajado, afoga os livros e volta pra casa. Largou o sobrenatural porque descobriu que poder nenhum se compara a ter alguém esperando do outro lado do mar. Shakespeare entendia dessas coisas.

Também eu, modestamente menos trágico e sem controlar ventos, descubro toda vez a mesma verdade: viajar é bom; voltar para casa e para a mulher que se ama é melhor ainda.

tem essa espécie de dom silencioso. Faz com que até aeroporto pareça caminho de casa.

Participando do Aché Summit 2026, um encontro dedicado à atualização científ**a e ao intercâmbio de conhecimento entre p...
22/05/2026

Participando do Aché Summit 2026, um encontro dedicado à atualização científ**a e ao intercâmbio de conhecimento entre profissionais da saúde.

A medicina está em constante evolução, e a psiquiatria acompanha esse movimento através da ciência, da pesquisa e da prática baseada em evidências.

Momentos como esse reforçam algo importante, cuidar da saúde mental também exige estudo contínuo, reflexão clínica e atualização responsável.

Seguimos ampliando conhecimento para oferecer um cuidado cada vez mais qualif**ado, humano e alinhado aos avanços da medicina.

**a

Tem manhãs que cabem num voo. Esta não coube — me acompanhou até aqui.Saí de Cachoeiro cedo — dessas saídas que só um co...
21/05/2026

Tem manhãs que cabem num voo. Esta não coube — me acompanhou até aqui.

Saí de Cachoeiro cedo — dessas saídas que só um congresso e um voo à tarde arrancam de um sujeito. Aproveitei a manhã pra conhecer o Cais das Artes, o museu novo de Vitória.

O prédio é brutalista — concreto aparente, linhas que não pedem desculpas por existir, projeto do Paulo Mendes da Rocha. E é curioso: o brutalismo tem um nome que assusta, parece coisa feita para o desconforto. Mas ali dentro o concreto bruto vira quase delicadeza, sem deixar de ser força, moldura. A luz entra, o vão respira, e o que era duro se revela acolhedor.

A primeira beleza do dia foi essa: sair dali com a convicção de que brutalidade e beleza não são opostos. São vizinhos.

Aí entrei nas fotos do Sebastião Salgado e entendi que o prédio só estava me preparando.

As imagens mostram um Brasil conhecidamente desconhecido — lindo, exuberante e indomável. Não é natureza domesticada para cartão-postal. É floresta densa, rio que parece veia aberta da terra, nuvem que parece anúncio bíblico, povos fotografados com uma dignidade que quase constrange quem olha.

Salgado não esconde a aspereza do mundo. Ele ilumina a aspereza até ela virar grandeza.

Fiquei andando devagar de uma foto a outra como quem não quer que acabe, percebendo que o que me prendia era justamente isso: a beleza nascendo de dentro da brutalidade. No prédio e na parede, a mesma ideia dita em duas línguas diferentes.

Depois veio a história dele: a fazenda da família virando deserto, ele e a Lélia replantando a Mata Atlântica árvore por árvore, até a floresta voltar e os rios também.

Um homem que decidiu devolver à terra o que a terra tinha perdido.

Agora vou pegar meu voo levando uma ideia teimosa: beleza e brutalidade quase sempre andam juntas.

No concreto que vira abrigo.
Na floresta selvagem que vira retrato.
Num homem que transforma deserto em mata.

Que não paremos de replantar.

O corpo frequentemente expressa aquilo que a mente não conseguiu elaborar emocionalmente.Experiências de estresse prolon...
20/05/2026

O corpo frequentemente expressa aquilo que a mente não conseguiu elaborar emocionalmente.

Experiências de estresse prolongado, traumas e emoções reprimidas podem aparecer através de sintomas físicos como tensão muscular, dores persistentes, alterações gastrointestinais, fadiga e sensação constante de alerta.

Isso acontece porque cérebro e corpo funcionam de forma integrada.

Quando emoções permanecem sem compreensão ou elaboração adequada, o organismo continua reagindo como se ainda estivesse diante de uma ameaça.

Nem todo sintoma físico tem origem exclusivamente emocional. Mas ignorar o impacto da saúde mental sobre o corpo também pode prolongar sofrimento.

Cuidar da mente é também cuidar do organismo como um todo.

Endereço

Rua Batista Fluminense, 11
Cachoeiro De Itapemirim, ES
29300190

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