06/06/2026
Apesar do almoço
Eu havia avisado, no story de ontem, que subiria a Pedra Azul com a culpa de quem deixa o consultório de portas fechadas numa sexta. Pois bem: cumpri a ameaça. Subi a serra com a consciência pesada e desci com ela leve — o que só prova que culpa é sentimento que não resiste a uma boa companhia.
O destino era o Lago Negro, dentro da Pousada Pedra Azul. O lugar é de uma beleza que quase ofende: lago, neblina, montanha e um azul que demorava a virar noite. A natureza caprichou. O restaurante, nem tanto.
Digamos que a equipe trabalhava num regime de improviso. O garçom surgia como aparição mariana — raro e sem avisar. A comida chegava com a pontualidade dos Correios e o sabor de quem cozinha contrariado. Houve grosseria, houve demora, houve um prato que era mais conceito do que alimento. Em qualquer outro dia, eu teria escrito uma resenha vingativa.
Mas não era qualquer outro dia.
Porque à mesa estava quase toda a minha família — faltavam só meus irmãos para fechar o quórum do amor. Meu pai, minha mãe, minha tia-avó que é a minha segunda mãe e nunca pediu desconto por isso. Amanda, atrás da câmera e, ainda assim, na frente de todo mundo. Meus filhos. O velho amor e o novo — esse que chega de mansinho e, quando a gente vê, já mandou f**ar.
Aristóteles, que entendia dessas coisas, escreveu na Política que a família é a comunidade que a natureza constituiu para suprir as necessidades cotidianas do homem. O grego era seco, mas tinha razão. Só errou no tamanho: a família não supre necessidade cotidiana nenhuma. Ela supre aquela que a gente nem sabia que tinha.
Rimos à beça. Falamos de tudo e de nada, que é o melhor dos assuntos. Nos olhamos muito — coisa que a gente vive esquecendo de fazer. As crianças felizes, eu mais ainda. Saí dali afetivamente recarregado — e garanto que não foi por causa da cozinha.
Agora são cinco da manhã. Tomo café sozinho e lembro de ontem. O amor genuíno é assim: altamente transmissível, delicadamente sensível, e com a mania de só aparecer por inteiro quando já virou lembrança.
Lembrar, talvez, seja a melhor parte.