27/08/2026
Há feridas que não escolhemos carregar.
Foram abertas quando ainda éramos crianças, em relações nas quais dependíamos do amor, da proteção e do olhar do outro para construir quem éramos.
Uma criança não possui recursos para compreender que a ausência de alguém não significa falta de valor.
E aquilo que um dia foi uma estratégia de sobrevivência pode, na vida adulta, transformar-se em comportamento, relacionamento, medo, cobrança, rigidez ou dificuldade de confiar.
O problema é que, muitas vezes, a ferida que não foi reconhecida procura alguém para continuar sendo sentida.
Por isso, amadurecer não significa apagar o passado.
Significa deixar de exigir que o presente pague uma dívida que pertence à nossa história.
Curar não é fingir que não doeu.
É poder olhar para aquilo que aconteceu sem continuar entregando o volante da própria vida àquilo que aconteceu.
É reconhecer a criança que fomos, acolher o que ela não pôde compreender e, finalmente, assumir diante da própria história:
“Eu não posso mudar o que fizeram comigo.
Mas posso escolher o que farei com aquilo que fizeram.”
Quando cuidamos das nossas feridas, algo muda profundamente:
a dor deixa de ser uma herança automática e começa a se transformar em consciência.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de interromper um ciclo:
não transmitir adiante aquilo que um dia nos feriu, para que aqueles que chegam depois de nós possam receber algo que talvez nós mesmos tenhamos precisado aprender a construir:
um amor que não machuca para ser reconhecido.
Porque não somos responsáveis pelo que recebemos.
Mas somos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que recebemos.
A dor pode atravessar gerações.
Mas a consciência também.
E talvez seja essa a nossa tarefa:
receber a vida sem precisar carregar toda a dor daqueles que vieram antes.
Para que aquilo que um dia chegou até nós como sofrimento possa, através de nós, transformar-se em consciência.
E para que nossos filhos não precisem nos amar repetindo as nossas feridas.
Que a nossa história possa terminar em nós aquilo que não precisa continuar.
Natalina Anghinoni