31/08/2026
“Eu quase não lembro da minha infância.”
Essa frase pode carregar muito mais do que uma simples dificuldade de recordar.
Mas também não significa, necessariamente, que exista um trauma escondido esperando para ser descoberto.
Nossa memória não funciona como uma gravação perfeita daquilo que vivemos. Algumas experiências permanecem nítidas; outras chegam em fragmentos — e muitas simplesmente se perdem com o tempo.
Ainda assim, existem histórias em que o esquecimento também pode estar relacionado à forma como aquela pessoa conseguiu atravessar determinadas experiências.
Talvez algumas lembranças estejam cercadas de sentimentos que, naquela época, eram difíceis demais de compreender.
Talvez tenha existido pouco espaço para falar sobre emoções, medos e necessidades.
Talvez certos períodos sejam lembrados mais por sensações do que por acontecimentos:
“Eu precisava ser forte.”
“Eu tinha medo de incomodar.”
“Eu me sentia sozinha, mesmo com pessoas por perto.”
“Eu precisava agradar para me sentir amada.”
E é justamente aqui que existe algo importante:
você não precisa lembrar de cada detalhe da sua infância para compreender como a sua história ainda aparece em você.
Ela pode surgir na dificuldade de dizer não.
No medo de ser abandonada.
Na necessidade constante de aprovação.
Na culpa por escolher a si mesma.
Nos relacionamentos que parecem repetir sempre a mesma história.
No processo terapêutico, não se trata de cavar o passado à procura de uma lembrança perdida — muito menos de forçar memórias.
Trata-se de escutar aquilo que aparece hoje e, com cuidado, começar a compreender as histórias, sentimentos e relações que ajudaram a construir a pessoa que você se tornou.
Porque nem tudo aquilo que vivemos permanece como uma lembrança clara.
Às vezes, permanece na maneira como aprendemos a viver. 🍃
Se este texto encontrou algo que você vem sentindo, talvez seja o momento de olhar para isso com mais cuidado. 🤎
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