Instituto Erica Lopes

Instituto Erica Lopes Eu cuido de pessoas que estão se curando, se conhecendo, se encontrando.

O Instituto Erica Lopes se coloca a serviço da vida, do Desenvolvimento Pessoal e Humanitário, oferecendo atendimento psicológico ao alcance de todos, constelações familiares, psicoterapia infantil, Treinamentos em Constelações Familiares, Presencial, On Line e Pós Graduação em Psicoterapia Integrativa e Felicidade.

Aquilo que ninguém vê.Esses dias uma paciente entrou sorrindo e, antes mesmo de se sentar, me disse:   Está impressionan...
02/08/2026

Aquilo que ninguém vê.

Esses dias uma paciente entrou sorrindo e, antes mesmo de se sentar, me disse:

Está impressionante a mudança dele...

Durante muito tempo ele dizia que terapia não servia para nada. Que mexer no passado era um risco desnecessário. Hoje é ele quem faz questão de não faltar às sessões.

Enquanto ela falava, fui percebendo que a mudança não estava em um grande acontecimento.

A casa já não parecia tão pesada. Ele estava mais presente com a filha. Ela voltou a reservar um tempo para si.

Os dois voltaram a sair juntos... e a tr@nz@r.

Em um momento ela sorriu e disse:

Parece que eu tô namorando de novo. Só que mais amadurecida. E ele também.

Quando ela foi embora, fiquei pensando em uma coisa.

Quase todo casal que chega ao consultório diz a mesma frase:

“Nosso problema é comunicação.”

E eu sempre penso: será…?

Nesse caso, a mudança começou em outro lugar.

Em algumas sessões apareceram histórias guardadas havia anos.

Teve dia em que o clima pesou tanto que pensei:

“Será que eles conseguem atravessar isso?”

Conseguiram. Não porque esqueceram o que apareceu. Mas porque aquilo finalmente pôde existir.

Sabe quando alguém está passando muito mal? Quanto mais tenta segurar o enjoo, pior f**a.

Até que o vômito vem.

É horrível. Mas, depois, o corpo relaxa.

Com eles foi parecido.

O que apareceu nas sessões era difícil de ouvir e de sustentar. Mas, justamente porque pôde ser nomeado e integrado, deixou de precisar aparecer mascarado nas brigas de sempre.

É por isso que, quando um casal chega ao consultório, eu dificilmente fico presa à discussão da semana.

A briga quase nunca é o problema.

Ela costuma ser a forma que uma dor antiga encontrou para continuar existindo. Quando essa dor encontra um lugar onde pode ser olhada, ela deixa de comandar a relação.

No fim das contas, aquele casal não mudou porque aprendeu uma técnica de comunicação nova, um método novo…

Mudou porque já não precisava mais usar o relacionamento para carregar uma dor que, finalmente, tinha encontrado um lugar.

Esses dias eu estava contando uma história para um paciente e percebi que nunca tinha escrito sobre ela.Entre um atendim...
31/07/2026

Esses dias eu estava contando uma história para um paciente e percebi que nunca tinha escrito sobre ela.

Entre um atendimento e outro eu tenho dez minutinhos de intervalo. É o tempo de levantar da cadeira, esticar as pernas, fazer um xixi, tomar uma água... e, se der, tomar um café.

Eu adoro café. Meu marido também. E esse acabou virando um ritual nosso.

Um dia, abri a porta do consultório e dei de cara com ele me esperando com um cafezinho na mão.

Na mesma hora eu soube que ele não tinha usado o meu café preferido. Eu reconheci pelo cheiro. Depois confirmei pelo gosto.

Mas, curiosamente, isso foi a última coisa que importou. Em segundos eu fiz essa leitura, mas o que eu enxerguei primeiro foi outra coisa.

No meio da correria do dia dele, ele lembrou do horário do meu intervalo. Parou o que estava fazendo, preparou um café e foi me esperar.

Aquilo tinha cheiro de cuidado bão!

Tinha gosto de amor. E eu sou exigente, eu sei disso… mas isso me pegou…

É esse exemplo que eu sempre uso quando quero mostrar para meus pacientes como uma relação vai sendo construída, nutrida e sustentada.

Porque o amor nem sempre aparece nas grandes declarações, nas mega demonstrações.

Na maioria das vezes ele chega assim, bem disfarçadinho.

E um café, uma mensagem, um “como foi seu dia?” Um chocolate guardado, eu sempre divido meu chocolate com ele.

Uma música que lembra vocês.

O problema é que, quando estamos cansados ou magoados, nosso olhar muda.

A gente passa a perceber muito mais o café que não era o preferido do que a pessoa que fez questão de prepará-lo.

E é aí que mora o perigo.

Porque, quando só enxergamos o que faltou, começamos a perder de vista o cuidado que continua existindo.

Dias atrás eu até contei isso para ele.

Disse que aquele café virou exemplo no consultório. Ele riu.

E acho que nem fazia ideia do tamanho do gesto que tinha feito naquele dia.

Talvez seja esse o convite que eu queria deixar.

Esta semana, tente perceber os pequenos jeitos que a pessoa que você ama encontra para dizer “eu pensei em você”.

Eles nem sempre vêm do jeito que você gostaria.

Mas, quase sempre, vêm do jeito que ela conseguiu te oferecer.

E isso muda tanta coisa.

Hoje assisti novamente aos meus filhos no palco.Enquanto todos olhavam para a apresentação, eu me peguei pensando em out...
12/07/2026

Hoje assisti novamente aos meus filhos no palco.

Enquanto todos olhavam para a apresentação, eu me peguei pensando em outra coisa.

Sempre me emociona perceber que existe uma história inteira antes daquele momento.

Até porque, eu também vivo uma história inteira antes deste momento.

Existe quem reorganizou a agenda.

Quem fez contas e, algumas vezes, percebeu que elas simplesmente não fechavam.

Quem precisou escolher.

Quem abriu mão do próprio descanso.

Quem saiu do trabalho direto para uma apresentação e voltou a trabalhar depois da apresentação.

Quem sustentou emocionalmente uma casa em dias difíceis.

Quem continuou acreditando quando o próprio filho ainda não conseguia enxergar o próprio potencial.

Nada disso aparece nas fotografias.

E talvez seja justamente por isso que tantas pessoas sintam que a própria história passa despercebida.

É fácil olhar para a vida dos outros e imaginar que ela acontece sem esforço.

As redes sociais mostram o palco.

Raramente mostram os bastidores.

No consultório, aprendi que os relacionamentos também carregam partes invisíveis.

Meu laboratório é nos bastidores.

Um casal raramente sofre apenas pela discussão que aconteceu ontem.

Uma mãe raramente se sente exausta apenas pelo dia de hoje.

Um homem raramente se cala apenas porque não sabe o que dizer.

Quase sempre existem fios invisíveis sustentando aquilo que vemos agora.

É por isso que gosto de olhar com calma.

Antes de procurar culpados, procuro entender e sentir a história.

Antes de oferecer respostas, tento encontrar aquilo que ainda não conseguiu ser dito.

Talvez cuidar de uma família seja justamente isso.

Aprender a enxergar o que nunca aparece na fotografia.

Porque aquilo que transforma uma família raramente começa naquilo que todos conseguem enxergar..

Nunca gostei de atividade física. Ou talvez eu só tenha acreditado que não era para mim. Que faltaria força, destreza, c...
06/07/2026

Nunca gostei de atividade física. Ou talvez eu só tenha acreditado que não era para mim.

Que faltaria força, destreza, coordenação.

Essa crença ficou tão enraizada que nem questionei por muitos anos.

Foi a perimenopausa que me obrigou a repensar isso.

Calor que não tinha hora, acordar de madrugada sem conseguir voltar a dormir, enxaquecas que me acompanhavam há mais de 20 anos com uma angústia no corpo completamente diferente de qualquer sofrimento emocional.

Um dia tive um insight e fui.

Achei um box perto de casa e apareci, estou lá até hoje.

Nos primeiros meses os sintomas que me trouxeram até ali praticamente zeraram.

A enxaqueca reduziu 70%, em frequência, intensidade e duração.

Mas o que eu não esperava encontrar foi uma comunidade.

Pessoas que torciam por mim. Que quase me davam a mão.

Que não me deixavam ter vergonha de não saber. Eu nem sabia o quanto eu precisava disso.

E de quebra minha cabeça começou a mudar também.

Trabalhar os limites do corpo, que na maioria das vezes eram limites da mente e de crenças antigas, ampliou minha consciência de um jeito que eu não consigo explicar de forma simples, só vivendo…

Hoje faço Crossfit, pilates, musculação, participo de provas de Hyrox.

Não me vejo sem essa vida que construí a partir dali.

Com quem era/é mais avançado aprendi a perseverar.

E aprendi também a receber quem chega sem saber nada, porque não sabemos o que o outro está carregando.

Às vezes um olhar, uma presença, é o que segura alguém num dia difícil e minha comunidade me segurou várias vezes em muitos momentos difíceis, até hoje…

Essas fotos f**aram guardadas por um bom tempo.

A vergonha do corpo foi uma das últimas coisas a ceder.

E ela cedeu do mesmo jeito que tudo o mais nessa jornada: devagar, com o apoio de quem estava do lado.

Tem gente que chega num box procurando fitness e encontra o chão que faltava.

Isso não acontece por acaso.

Acontece porque alguém escolheu criar um lugar assim.

Essa semana supervisionei um caso que não saiu da minha cabeça.Um casal em crise. O estopim foi uma discussão sobre tom ...
03/06/2026

Essa semana supervisionei um caso que não saiu da minha cabeça.

Um casal em crise. O estopim foi uma discussão sobre tom de voz. Ele disse que ela falou com grosseria. Ela disse que não.

Parecia simples. Não era.

Conforme o terapeuta foi trazendo a história de cada um, algo muito mais antigo começou a aparecer.

Ele cresceu num ambiente onde o que sentia raramente era reconhecido. Chegava com uma conquista e encontrava indiferença. Expressava uma necessidade e recebia agressões. Sentia dor e não encontrava ninguém para confirmar que aquela dor era real.

Sabe o que isso produz numa criança ao longo dos anos?

Ela para de confiar no que sente.

E quando adulta passa a precisar que o outro valide sua experiência. Porque durante anos ninguém validou.

Já ela, a parceira, cresceu diferente.

Com uma figura materna muito presente. Presente demais. Que falava por ela, que ocupava os espaços dela, que sabia o que ela sentia antes dela mesma saber.

Ela aprendeu que talvez o outro soubesse melhor do que ela.

Duas histórias completamente opostas que se encontram exatamente no ponto onde mais brigam.

Quando ela disse “na minha cabeça eu não falei com grosseria ”, ela estava sendo honesta sobre a própria experiência.

Mas o sistema nervoso dele escutou outra coisa. Escutou o que ouviu a vida inteira. Que o que ele sente não é verdade.

E aí não era mais uma discussão sobre tom de voz. Era uma ferida muito velha sendo remexida.

O que mais me tocou foi outra coisa.

Esse casal não tem falta de amor.

Ela chora. Ela repara. Ela permanece. Ela busca aproximação. Ela procura terapia. Ela tenta.

Mas o amor dela não está chegando onde a ferida dele está.

Porque a ferida dele não pergunta se ela o ama.

Ela pergunta: eu sou importante? Eu sou escolhido? Posso confiar que não vou f**ar sozinho de novo?

São perguntas que nenhuma discussão sobre comunicação vai responder.

E enquanto os dois continuam brigando sobre quem falou com grosseria essas perguntas seguem lá. Invisíveis.

Organizando tudo por baixo, direcionando a forma como eles vivem, fazem suas escolhas e sustentam percepções.

Erica Lopes

Há mais de 20 anos sento na frente de casais que dizem a mesma coisa."O problema é que a gente não se comunica direito."...
05/04/2026

Há mais de 20 anos sento na frente de casais que dizem a mesma coisa.

"O problema é que a gente não se comunica direito."

Não é.

O que eu vejo por baixo disso é muito mais antigo. E muito mais invisível.

Escrevi sobre isso agora.

O primeiro texto de uma série semanal onde vou trazer o que realmente acontece nos casais, sem manual, sem lista de dicas, sem floreio.

O link está aqui. Se você está num casal, em terapia ou pensando em começar, vale ler.

Toda semana eu sento na frente de um casal e ouço a mesma coisa com palavras diferentes, há mais de 20 anos…

Hoje é domingo. Estou num café tentando respirar depois de uma manhã intensa.Cansa ser vista como o pilar da casa. A que...
01/03/2026

Hoje é domingo. Estou num café tentando respirar depois de uma manhã intensa.

Cansa ser vista como o pilar da casa. A que sustenta, organiza, equilibra, acolhe. Existe uma exaustão silenciosa em ser sempre a forte. E é exatamente aí que mora o maior desafio quando eu decido mudar.

Mudar é parar de responder como o eu do passado, principalmente quando tudo provoca você a repetir o padrão. O automático sobe rápido. A velha versão quer assumir o controle. Se eu não estiver consciente, eu volto.

Hoje eu fui testada. Senti a reação subir. Reconheci o impulso. Eu poderia ter feito o que sempre fiz. Mas eu escolhi diferente.

Sustentei a nova resposta, mesmo desconfortável. O outro mudou? Não sei. E, pela primeira vez, isso não é o mais importante.

O que mudou foi em mim.

A gente acredita que só consegue transformar a relação se o outro mudar junto. Não é verdade. A mudança começa quando o outro deixa de controlar nossa resposta emocional.

Se, com o tempo, o outro não acompanhar, tudo bem. Quando você sustenta sua própria mudança, cria força para seguir sem carregar, sem culpar e sem se abandonar.

Hoje eu permaneci.

E é assim, um teste de cada vez, que a gente atravessa a grande mudança.

E você, onde ainda está respondendo no automático?

Eu preciso falar de uma coisa que está destruindo o desejo de muitos casais e quase ninguém percebe.Não dá para existir ...
21/02/2026

Eu preciso falar de uma coisa que está destruindo o desejo de muitos casais e quase ninguém percebe.

Não dá para existir tesão quando a relação carrega alguém em um pedestal.

E pedestal é um lugar sustentado por dois ou pra falar a verdade, por muito mais gente…

Pedestal é construção social.

A mulher é empurrada para o lugar de coluna emocional da família.

A que segura tudo, organiza, antecipa tudo.
Ela regula o humor da casa.

A que cuida das emoções de todo mundo. E isso é meio que esperado dela, até reforçado como uma virtude.

Isso não é força.

Isso é sobrecarga romantizada.

E ao mesmo tempo, empurramos muitos homens para o lugar de quem é cuidado.

De quem espera direção emocional.

De quem não foi ensinado a sustentar conflito sem se retrair ou fugir. (Aqui me refiro a esfera emocional, como se isso fosse das “meninas”.)

Aí o que acontece?

Ela vira estrutura emocional, ele vira estrutura material.

Lados bem definidos.

Ele espera/depende/cobra a estrutura emocional dela como gestora de todos.

Ela vira referência emocional.
Ele vive como se essa esfera emocional não dependesse dele ativamente também.

E sem perceber, deixam de ser dois adultos se escolhendo
e viram uma dinâmica de sustentação e apoio desigual.

Desejo precisa de dois inteiros.

Não de um que carrega e outro que se apoia.

Quando um f**a acima e o outro abaixo, a polaridade erótica morre.

Não porque não existe amor.

Mas porque não existe encontro entre iguais.

E isso não é culpa individual.

São moldes antigos.

São as garras do patriarcado e de estruturas relacionais ensinadas a homens e mulheres e que tem gerado confusão, tristeza, e apagamento do amor.

Isso nunca produziu parceria.

Mas tem produzido cansaço e sofrimentos inúmeros.

E cansaço não sustenta tesão.

Quando o casal começa a se reorganizar como dois adultos responsáveis por si,
algo muda no olhar e isso impacta no desejo, no afeto na conexão.

Não é sobre quem está errado.
É sobre a posição que cada um ocupa.

E posição pode ser revista.

Ela chegou esperando encontrar em mim um aliado para mudar o parceiro.No início, o casal falava pouco sobre o que realme...
11/01/2026

Ela chegou esperando encontrar em mim um aliado para mudar o parceiro.

No início, o casal falava pouco sobre o que realmente os tinha levado até ali. Havia um tom cordial, quase cuidadoso demais.

Como se tocar no conflito fosse desnecessário.

Conforme o processo avançou e o outro passou a nomear o que sentia, algo mudou. A escuta deixou de ser possível.

A dor do parceiro foi minimizada, relativizada, ironizada.

O lugar de vítima se instalou.

Não havia curiosidade genuína sobre o impacto que o vínculo produzia em ambos.

Na clínica, isso é comum.

Quando a relação é sustentada por uma fantasia de superioridade ou por uma narrativa rígida de quem está “certo”, qualquer tentativa de ampliação vira ameaça.

O sistema reage com defesa.

Do ponto de vista neuroemocional, não é resistência consciente.

É padrão aprendido.

Emoções não elaboradas f**am registradas e passam a organizar o comportamento relacional.

A pessoa pode saber explicar tudo sobre si e sobre o outro, mas continua reagindo do mesmo jeito.

É por isso que a terapia de casal não muda ninguém.

Ela revela.

Revela padrões emocionais, níveis de abertura, capacidade real de vínculo.

Alguns casais usam essa clareza para reorganizar a relação.

Outros percebem que o desejo nunca foi encontro, mas confirmação e controle.

E quando isso f**a evidente, o processo não se sustenta.

Antes de qualquer programa terapêutico, é essencial entender se há estrutura emocional para o trabalho.

É isso que faço no Raio X de Casal: identif**ar se existe abertura para reprogramar o vínculo ou apenas a expectativa de que o outro mude.

Quem busca um aliado vai se frustrar.

Quem busca clareza, está dando um passo para dentro de si e da relação.

E como o terapeuta atua em meio a tudo isso?

Quando o terapeuta acessa outro estado interno, o campo do casal muda.

É isso que eu ensino na minha consultoria.

Nesse dia, eu tinha atendido quatro pacientes seguidos. Sessões de 50 minutos, com intervalos que, na prática, muitas ve...
04/01/2026

Nesse dia, eu tinha atendido quatro pacientes seguidos.

Sessões de 50 minutos, com intervalos que, na prática, muitas vezes não existem porque o horário se estende pois muitos pacientes insistem em passar do horário, embora eu procure fechar no tempo acordado desde o início do acompanhamento.

Ao final dessa sequência, meu corpo estava no limite.

Fome intensa, queda de energia, necessidade básica de parar por alguns minutos.

Me atrasei cinco minutos.

Enquanto eu comia rapidamente e ia ao banheiro, chegaram mensagens sucessivas cobrando o início imediato da sessão.

Esse tipo de reação não é raro e não é irrelevante.

Ela revela algo importante sobre como a clínica vem sendo vivida.

Do ponto de vista neurobiológico, um profissional em privação de necessidades básicas entra em estado de estresse fisiológico.

A ativação contínua do eixo do estresse compromete atenção, empatia, tomada de decisão e capacidade de regulação emocional.

Ou seja, exatamente as funções centrais do trabalho terapêutico.

Cuidar do corpo não é luxo nem falta de profissionalismo.

É condição mínima para presença clínica.

Existe uma idealização silenciosa do terapeuta como alguém que deve estar sempre disponível, regulado e sem limites corporais.

Quando essa fantasia é quebrada, surge incômodo.

Não porque houve falta de ética, mas porque o paciente é confrontado com a realidade de que o outro não existe apenas para sustentá-lo.

Isso também é material clínico.

A clínica não acontece só no conteúdo da fala.

Ela acontece na relação, nos limites, na frustração e na possibilidade de reconhecer o outro como humano.

Quando o terapeuta se apaga para manter uma imagem de disponibilidade total, o processo deixa de ser terapêutico e passa a ser sustentado por projeções.

Para nós, terapeutas, isso exige vigilância constante.

Mesmo com muitos anos de experiência, formação e autoridade, é fácil escorregar para o lugar de excesso, salvamento ou autoabandono.

Por isso, terapia pessoal e supervisão não são opcionais.
São dispositivos de cuidado do instrumento mais importante da clínica: o próprio terapeuta.

Um corpo exausto não sustenta presença.
E sem presença, não há clínica.

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