02/08/2026
Aquilo que ninguém vê.
Esses dias uma paciente entrou sorrindo e, antes mesmo de se sentar, me disse:
Está impressionante a mudança dele...
Durante muito tempo ele dizia que terapia não servia para nada. Que mexer no passado era um risco desnecessário. Hoje é ele quem faz questão de não faltar às sessões.
Enquanto ela falava, fui percebendo que a mudança não estava em um grande acontecimento.
A casa já não parecia tão pesada. Ele estava mais presente com a filha. Ela voltou a reservar um tempo para si.
Os dois voltaram a sair juntos... e a tr@nz@r.
Em um momento ela sorriu e disse:
Parece que eu tô namorando de novo. Só que mais amadurecida. E ele também.
Quando ela foi embora, fiquei pensando em uma coisa.
Quase todo casal que chega ao consultório diz a mesma frase:
“Nosso problema é comunicação.”
E eu sempre penso: será…?
Nesse caso, a mudança começou em outro lugar.
Em algumas sessões apareceram histórias guardadas havia anos.
Teve dia em que o clima pesou tanto que pensei:
“Será que eles conseguem atravessar isso?”
Conseguiram. Não porque esqueceram o que apareceu. Mas porque aquilo finalmente pôde existir.
Sabe quando alguém está passando muito mal? Quanto mais tenta segurar o enjoo, pior f**a.
Até que o vômito vem.
É horrível. Mas, depois, o corpo relaxa.
Com eles foi parecido.
O que apareceu nas sessões era difícil de ouvir e de sustentar. Mas, justamente porque pôde ser nomeado e integrado, deixou de precisar aparecer mascarado nas brigas de sempre.
É por isso que, quando um casal chega ao consultório, eu dificilmente fico presa à discussão da semana.
A briga quase nunca é o problema.
Ela costuma ser a forma que uma dor antiga encontrou para continuar existindo. Quando essa dor encontra um lugar onde pode ser olhada, ela deixa de comandar a relação.
No fim das contas, aquele casal não mudou porque aprendeu uma técnica de comunicação nova, um método novo…
Mudou porque já não precisava mais usar o relacionamento para carregar uma dor que, finalmente, tinha encontrado um lugar.