21/05/2026
A palavra autoabandono tem um problema: ela soa dramática demais para descrever algo que na maioria das vezes, é absolutamente silencioso.
Quando a gente pensa em abandono, pensa em uma ruptura. Em algo que aconteceu de forma visível, que teve um antes e um depois claro. Mas o autoabandono raramente funciona assim. Ele não tem data de início. Não tem evento inaugural. Ele acontece em gestos mínimos, repetidos por tanto tempo que deixam de parecer escolha e passam a parecer caráter.
É a mulher que cede antes de ser pedida: não uma vez, mas sempre, até que ceder vire um reflexo. É a mulher que preenche cada intervalo de silêncio com alguma coisa: série, scroll, qualquer ruído, não porque não goste de quietude, mas porque o silêncio traz o que ela ainda não está pronta para ouvir.
É a mulher que começa processos de mudança com intenção genuína e para no meio: não por preguiça, mas porque cada recomeço chegou carregando o peso de todos os anteriores.
Nenhum desses comportamentos parece autoabandono enquanto está acontecendo. Parece adaptação. Parece responsabilidade. Parece, muitas vezes, amor.
E é exatamente por isso que é tão difícil de nomear — e tão importante que alguém nomeie.
Porque você não consegue se afastar de algo que ainda não viu com clareza. E você não consegue ver com clareza algo que foi sendo normalizado gesto a gesto, dia após dia, até parecer que sempre foi assim.
Nomear não resolve, mas é o que torna qualquer movimento possível.
✦ Qual comportamento você nunca havia lido como autoabandono antes? Me conta aqui nos comentários.