Anthurium Cultura e Saúde

Anthurium Cultura e Saúde A Anthurium nasceu da vontade e necessidade de falar de saúde à luz da criação de uma cultura que respeite os ciclos e complexidades da vida. Até o fim.

E por isso nossa construção se ergue sobre os Cuidados Paliativos.

01/09/2026

Ele esperou quarenta minutos de consulta para fazer a pergunta.

No fim disse: "Doutora. Quanto tempo eu tenho?"

Essa não é só uma pergunta sobre prognóstico. É uma pergunta sobre o que fazer com o que resta. Sobre se há tempo para a conversa com o filho com quem não fala há dois anos. Para a viagem que sempre adiou. Para o testamento que nunca foi feito.

E é uma pergunta que a maioria dos médicos desvia. "Vamos torcer para o melhor." "Cada caso é um caso." "Não dá para saber ao certo."

Tudo isso pode ser verdade. E tudo isso pode ser uma forma de não responder.

Existe evidência na literatura médica de que pacientes que recebem informação honesta sobre prognóstico tomam decisões mais alinhadas com o que querem, têm menos ansiedade no fim da vida e menor probabilidade de passar os últimos dias em UTI fazendo procedimentos que não queriam. Informação honesta não tira esperança. Devolve controle.

A Dra. Alice não deu um número naquele dia. Perguntou o que ele queria fazer com o tempo — fosse ele qual fosse.

Ele disse que queria ligar para o filho.

Ela disse que era hora de ligar.

Essa foi a parte mais importante da consulta. E não estava em nenhum protocolo de exame.

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29/08/2026

Tem um sintoma que os pacientes demoram para contar. Porque é constrangedor. Porque acham que não é importante. Porque acham que faz parte do tratamento.

Constipação.

Constipação severa não tratada em pacientes com doença avançada causa dor abdominal que a família atribui à doença progressando. Causa náusea por pressão retroativa. Causa confusão mental em idosos pelo acúmulo de toxinas que deveriam ser eliminadas. Causa agitação e insônia que alguém vai tratar com sedativo sem resolver a causa.

E tem causas muito específicas nessa população. Opioides causam constipação em praticamente todos os pacientes que os usam — não porque o intestino está doente, mas porque os mesmos receptores que controlam dor estão no intestino e reduzem a motilidade quando ativados. Isso é previsível, esperado — e deveria ser tratado antes de a constipação aparecer, não depois.

Imobilidade, hidratação inadequada, medicamentos constipantes. A combinação em quem toma oito, dez medicamentos é quase inevitável sem manejo ativo.

O Dr. Kauê faz uma pergunta em toda consulta, independente do motivo principal: quando foi a última vez que o paciente evacuou?

Porque constipação que ninguém perguntou é constipação que ninguém vai tratar. E esse sintoma que envergonha é, muitas vezes, o que está sabotando o sono, o apetite e o humor de um paciente que todos acham que está bem controlado.

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20/08/2026

Ela cuidou da mãe por quatro anos. Deixou o emprego. Saiu do apartamento. Cancelou a viagem planejada por dois anos. Depois o curso. Depois parou de sair com as amigas porque sentia culpa quando se divertia.

Quando a mãe morreu, disse: "Eu não sei mais quem eu sou sem ela para cuidar."

O cuidador não perde só a pessoa que morreu. Perde a si mesmo no processo.

Perde a identidade que existia antes do cuidado ocupar tudo. Os relacionamentos que foram ficando para trás. A versão de si mesmo que tinha planos, que tinha uma vida própria, que sabia o que queria.

E quando o cuidado termina, existe um vazio que a maioria não estava esperando. Esperava sentir alívio, e sente culpa pelo alívio. Esperava chorar a pessoa que perdeu, e chora também a vida que não viveu.

É o luto do cuidador. É um dos lutos mais complexos e menos validados que existem. Porque do lado de fora parece que está tudo resolvido. "Agora você pode retomar sua vida." Mas retomar uma vida suspensa por anos não é simples.

A Fabíola Langaro, psicóloga especialista em cuidados paliativos e doutora na área, trabalha com cuidadores durante o cuidado, não só depois da morte. Porque é durante o cuidado que a perda de si mesmo acontece, silenciosamente, dia após dia.

Se você é cuidador e sente que está desaparecendo dentro desse papel isso merece cuidado também.

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16/08/2026

Depois de três meses de quimioterapia, ele disse:
"Eu não aguento mais. Não vejo sentido em continuar."

E esperou que o Demian dissesse que ia ficar tudo bem.

Ele não disse. Porque naquele momento, teria diminuído o que estava sendo sentido.

O que ele disse foi: obrigado por me contar isso.

Existe um espectro de sofrimento que vai do esgotamento do tratamento até o desejo ativo de morrer. E todos os pontos desse espectro precisam ser ouvidos com seriedade sem pânico, sem minimização.

Isso tem nome na literatura de cuidados paliativos: sofrimento existencial.
O colapso do sentido - a sensação de que a vida perdeu propósito, que o futuro não tem nada a oferecer.
É uma resposta humana ao que acontece quando uma doença grave destrói os pilares em torno dos quais a pessoa construiu o significado da própria vida.

Trabalhar com isso não é convencer o paciente de que a vida vale a pena com argumentos. É sentar com o que não tem resposta fácil. É ajudar a encontrar, dentro de uma situação que ele não escolheu, algo que ainda seja dele.

Um paciente disse que o único momento do dia em que se sentia ele mesmo era ouvindo um disco de jazz pela manhã. Foi o ponto de partida. Não precisou ser mais do que isso.

Se alguém que você ama está dizendo que não aguenta mais, não minimize, não entre em pânico, não diga que vai ficar tudo bem. Pergunte. Ouça. E busque ajuda profissional.

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07/08/2026

Quase todo paciente que chega na primeira consulta de cuidados paliativos vem com um medo que não diz em voz alta: o medo de que seja uma confirmação oficial de que acabou.

Não é.

A primeira coisa que os médicos da Anthurium fazem é o que a dra. Lauren explica no vídeo: perguntar como a pessoa está - e esperar a resposta inteira. Porque quase sempre esse paciente está carregando semanas de perguntas que ninguém respondeu, medos que ninguém nomeou, sofrimento que ficou no corredor enquanto a consulta tratava dos exames.

Depois vem a história: como a doença chegou. O que está sendo mais difícil. O que a pessoa ainda consegue fazer. O que ela mais teme perder.

E então a pergunta que a maioria dos médicos nunca faz: o que importa para você como pessoa? O que você quer conseguir fazer nos próximos meses? Onde você quer estar se a situação piorar?

Quando os pacientes são perguntados sobre isso pela primeira vez, acontece algo interessante: a pessoa respira diferente. Como se uma tensão que carregava há meses tivesse encontrado, finalmente, um lugar para pousar.

Primeira consulta de cuidados paliativos não é o fim de nada. Muitas vezes é a primeira vez que alguém senta, tem tempo, e pergunta o que realmente importa.

Se você está adiando porque não sabe o que esperar, agora você sabe.

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02/08/2026

Ela vomitava toda manhã. A família tentou gengibre, chá de erva-doce, bolacha de água e sal antes de levantar. Nada funcionava.

Não porque as tentativas fossem erradas. Porque eram para um tipo de náusea. E ela tinha outro.

Náusea em pacientes com doença grave não é uma coisa só.

Tem náusea por esvaziamento gástrico lento
— o estômago que não move o conteúdo na velocidade normal.
Tem náusea por ativação do centro do vômito no cérebro
— por toxinas, medicamentos, distúrbios metabólicos (que não melhora com gengibre e precisa de antagonistas de receptores específicos).
Tem náusea por constipação severa
— tratar o estômago sem tratar o intestino não resolve. Tem náusea por ansiedade com componente autonômico real.
E tem náusea induzida por opioides
— frequente, esperada, temporária na maioria dos casos e que leva muita gente a abandonar o controle de dor achando que vai ficar assim para sempre.

Antiemético errado para o mecanismo errado não só não resolve. Às vezes piora.

E náusea não tratada não é só desconforto. É desnutrição, desidratação, isolamento. A pessoa que vomita toda vez que come para de comer em companhia. Vai perdendo os momentos que ainda seriam possíveis.

Náusea que ninguém tratou direito rouba presença.

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01/08/2026

O oncologista estava certo. O cardiologista estava certo. O nefrologista estava certo.

E ela estava piorando de uma forma que nenhum dos três conseguia explicar.

Perda de peso acelerada. Confusão mental crescente. Fraqueza desproporcional à doença.

Não era a doença avançando. Era o tratamento.

Isso tem nome: iatrogenia. O dano causado pela intervenção médica em si, não por negligência ou erro técnico, mas pelo efeito cumulativo de tratamentos corretos aplicados a um organismo que não tinha mais reserva para tolerá-los.

A quimioterapia estava correta. Mas o rim já não filtrava suficientemente para eliminar os metabólitos na velocidade esperada. O medicamento cardíaco estava correto. Mas em combinação com um dos quimioterápicos causava toxicidade que nenhum dos especialistas tinha mapeado, porque nunca tinham sentado juntos para olhar o caso.

Iatrogenia em paciente complexo não é exceção. É risco inerente ao tratamento fragmentado de doenças múltiplas. E é sistematicamente subdiagnosticada porque exige alguém que olhe para o conjunto com atenção suficiente para ver o que cada especialista isolado não vê.

Ajustaram dois medicamentos. Em três semanas ela estava lúcida, comendo, reconhecendo a família.

Não porque a doença melhorou. Porque pararam de tratá-la de um jeito que ela não conseguia mais suportar.

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26/07/2026

Ela recusou a morfina. Não porque não estava com dor. Estava, oito numa escala de dez, todos os dias. Recusou porque morfina significava uma coisa: que estava morrendo.

O filho concordou: "Morfina vicia. Prefiro que ela aguente."

As duas crenças estavam erradas. E estavam custando oito de dor todos os dias para uma mulher que não precisava sofrer assim.

Opioides têm indicação estabelecida, evidência robusta e protocolo de uso. A OMS os coloca na lista de medicamentos essenciais porque o controle de dor moderada a grave em doenças crônicas e avançadas muitas vezes não é possível sem eles.

O que eles não são: sinônimo de fim de vida. Dependência química em paciente com indicação médica e acompanhamento é muito menos comum do que o senso comum acredita. Sedação excessiva ocorre principalmente em titulação incorreta. Com ajuste adequado, a maioria dos pacientes mantém clareza mental e qualidade de vida significativamente melhor do que com a dor sem controle.

O arsenal existe. É robusto. E é subutilizado no Brasil por medo baseado em informação que nunca foi questionada.

Aquela mulher iniciou o tratamento. Na semana seguinte disse que tinha dormido a noite inteira pela primeira vez em meses.

Isso não é dependência. É cuidado.

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20/07/2026

Será que não conseguir comer é só uma questão de vontade?

Se você é familiar de alguém que está em tratamento de uma doença grave, vem cá!

Antes de elevar seu estresse como cuidador e acabar gerando uma pressão sobre o seu familiar, nossa nutricionista Jessica Wszolek lembra de pontos muito importantes:

Será que está com dor?
Que sente náusea?
Que tem tonturas?
Que está triste?
Muito cansado?

Tudo isso e muito mais precisa ser revisado.
A fome e a vontade de comer podem ir embora quando outro sintoma é mais urgente de ser contido e o corpo o interpreta como mais importante.

Isso inclui até voltar para consulta médica e revisar se a combinação de medicações também não é a causa da perda de apetite.

Para um acompanhamento nutricional detalhado e personalizado, agende sua consulta com a Jessica.

Presencial em Florianópolis e teleatendimento para todo país.

17/07/2026

Ele tinha insuficiência cardíaca avançada há três anos. Não subia um lance de escada. Dormia sentado porque deitado não respirava. Seis idas ao pronto-socorro em doze meses.

Quando a filha perguntou ao cardiologista sobre cuidados paliativos, ele disse: "isso é coisa de câncer."
Ele passou mais dois anos assim.

Cuidados paliativos não são só para câncer. Essa confusão está deixando gente sofrendo por anos sem necessidade.

Cuidados paliativos são indicados para qualquer doença que ameaça a vida. Insuficiência cardíaca avançada (que em estágios avançados tem prognóstico comparável ou pior que muitos cânceres). DPOC grave.
Doença renal crônica avançada.
Esclerose lateral amiotrófica.
Parkinson em estágio final.
Demências.
Insuficiência hepática.
Sequelas graves de AVC.
Fragilidade avançada no idoso.

Todas produzem sofrimento intenso.
Todas têm sintomas que precisam de manejo especializado.
Todas envolvem decisões difíceis.
Todas têm indicação de cuidados paliativos.

Existe evidência de que pacientes com insuficiência cardíaca avançada em cuidados paliativos têm menos internações, melhor controle de sintomas e melhor qualidade de vida. Existe evidência semelhante para DPOC, doença renal e demência avançada.

A evidência existe. O encaminhamento não acontece.
Se você tem um familiar com qualquer doença crônica grave (não só câncer) com sintomas mal controlados, internações de repetição e conversas importantes que nunca aconteceram: ele tem indicação de cuidados paliativos. Independente do diagnóstico.

Compartilha com quem ouviu que "isso é coisa de câncer" e por causa disso está sofrendo há anos.
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R. Idalina Pereira Dos Santos, 67
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