01/09/2026
Ele esperou quarenta minutos de consulta para fazer a pergunta.
No fim disse: "Doutora. Quanto tempo eu tenho?"
Essa não é só uma pergunta sobre prognóstico. É uma pergunta sobre o que fazer com o que resta. Sobre se há tempo para a conversa com o filho com quem não fala há dois anos. Para a viagem que sempre adiou. Para o testamento que nunca foi feito.
E é uma pergunta que a maioria dos médicos desvia. "Vamos torcer para o melhor." "Cada caso é um caso." "Não dá para saber ao certo."
Tudo isso pode ser verdade. E tudo isso pode ser uma forma de não responder.
Existe evidência na literatura médica de que pacientes que recebem informação honesta sobre prognóstico tomam decisões mais alinhadas com o que querem, têm menos ansiedade no fim da vida e menor probabilidade de passar os últimos dias em UTI fazendo procedimentos que não queriam. Informação honesta não tira esperança. Devolve controle.
A Dra. Alice não deu um número naquele dia. Perguntou o que ele queria fazer com o tempo — fosse ele qual fosse.
Ele disse que queria ligar para o filho.
Ela disse que era hora de ligar.
Essa foi a parte mais importante da consulta. E não estava em nenhum protocolo de exame.
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