28/08/2026
Tem uma culpa muito silenciosa em desejar que o sofrimento de quem amamos termine.
Porque, quando amamos alguém, parece que deveríamos desejar mais um dia. Mais uma hora. Mais uma tentativa. Sempre mais.
Mas quem já esteve ao lado de uma pessoa gravemente doente sabe que existe um momento em que o amor começa a conviver com sentimentos difíceis de admitir.
Você ainda quer aquela pessoa aqui.
Ainda faria qualquer coisa por uma possibilidade.
Ainda pede um milagre.
Mas também olha para aquele corpo cansado, para os procedimentos, para a dor, para os dias que parecem não terminar… e pensa baixinho:
“Eu só queria que isso acabasse.”
E então vem a culpa.
Como se desejar o fim do sofrimento fosse desejar o fim daquela pessoa. Não é necessariamente a mesma coisa.
Na terminalidade, amor, impotência, exaustão, esperança, medo, tristeza e até alívio podem ocupar o mesmo coração. A experiência humana nem sempre organiza os sentimentos de maneira bonita ou coerente.
Às vezes, amar também é chegar ao limite do que podemos fazer e continuar ali.
Segurando uma mão.
Oferecendo presença.
Desejando conforto.
Pedindo dignidade.
E quando a morte finalmente chega, o alívio porque a dor cessou pode existir ao lado de uma saudade devastadora.
Um sentimento não apaga o outro.
Talvez você não tenha desejado a morte.
Talvez você só tenha amado alguém que estava sofrendo tanto que, por alguns instantes, seu coração já não soube mais o que pedir.
E isso também merece ser acolhido. 🤍
Se esse texto encontrou uma culpa que você nunca conseguiu dizer em voz alta, talvez ele tenha sido escrito para você.
Talita Lima | Psicóloga