09/02/2026
Ontem eu assisti ao espetáculo “Tom na Fazenda”, e saí do teatro com a sensação de que não tinha apenas visto uma história… eu tinha atravessado um espelho. Um espelho cruel, real e necessário.
Essa peça não fala apenas sobre um luto, nem somente sobre um segredo. Ela fala sobre o que acontece quando o amor precisa existir escondido, quando o afeto é tratado como algo vergonhoso, quando a identidade de alguém precisa ser apagada para que o mundo ao redor continue confortável.
A profundidade de “Tom na Fazenda” está justamente nas suas camadas. A primeira delas parece simples: um homem vai ao interior para o funeral do namorado e se depara com uma família que não sabe quem ele realmente era. Mas logo percebemos que o que está em cena não é só uma mentira familiar — é um retrato de uma sociedade inteira que ainda insiste em negar a existência de pessoas LGBTQIA+.
O silêncio naquela fazenda é quase um personagem. Um silêncio pesado, construído de medo, repressão e violência. E o mais assustador é perceber como a violência ali não se manifesta apenas através de gritos ou agressões, mas também através da normalidade. A normalidade de fingir. A normalidade de esconder. A normalidade de apagar.
E isso atinge a nós, g**s, de uma forma muito íntima, porque muitos de nós conhecem esse lugar. Talvez não uma fazenda literal, mas uma fazenda simbólica: um espaço onde precisamos medir palavras, controlar gestos, disfarçar sentimentos. Onde amar pode significar perigo.
O espetáculo escancara como a homofobia não é só uma opinião ruim: ela é uma estrutura. Ela molda famílias, destrói relações, cria monstros e também cria vítimas que aprendem a sobreviver aceitando migalhas. Ela faz com que a existência gay seja frequentemente tratada como algo clandestino, como se fosse permitido apenas no escuro.
O Tom, ali, representa muitos de nós. Representa aquele que amou de verdade, mas chega tarde demais para viver esse amor com liberdade. Representa aquele que se vê obrigado a negociar a própria dignidade para ser aceito por um espaço que não foi feito para ele. Representa o corpo gay que é tolerado apenas quando não incomoda, quando não fala alto, quando não reivindica.