Dr Saulo Serrano

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Ana trouxe uma dúvida do grupo de WhatsApp. E ela não é a única.O EEG aparece muito nesses grupos como exame “obrigatóri...
24/05/2026

Ana trouxe uma dúvida do grupo de WhatsApp. E ela não é a única.

O EEG aparece muito nesses grupos como exame “obrigatório” para crianças autistas. Mas essa informação está errada em dois sentidos.

Primeiro: o EEG não faz parte da investigação diagnóstica do autismo. O diagnóstico de TEA é clínico, baseado nos critérios do DSM-5-TR, a partir da história do desenvolvimento e da observação do comportamento. Nenhum exame confirma ou descarta autismo.

Segundo: o EEG também não é recomendado como rastreamento de rotina para epilepsia em crianças autistas. É verdade que anormalidades eletroencefalográficas são mais frequentes nessa população, o que reflete que a epilepsia pode ser uma comorbidade do TEA. Mas a presença de uma alteração no exame, sem crise clínica, não tem benefício terapêutico comprovado. Tratar uma alteração no papel sem sintoma não melhora o autismo nem previne crises, sem contar os efeitos adversos que podem advir de uma medicação anticonvulsante desnecessária.

O EEG tem indicação precisa: suspeita clínica de epilepsia, como convulsões, perda de consciência e episódios motores atípicos.

E aqui vai uma orientação que dou no dia a dia do consultório e nas consultas por telemedicina: se a criança tiver um episódio que pareça convulsivo, filme pelo celular. Um vídeo de 30 segundos, junto com a descrição do evento, pode fazer toda a diferença na decisão de pedir ou não o EEG.

Nunca é demais lembrar que informação de grupo de WhatsApp não substitui avaliação médica.

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22/05/2026

A pressão para sair da primeira consulta com um diagnóstico de TEA é real. E quase sempre invisível para quem está de fora.

Ao contrário de outras condições, o diagnóstico de autismo não é feito com exames. Não há marcador laboratorial, imagem ou resultado que fecha a questão. Ele é baseado em critérios clínicos rigorosos, descritos no DSM-5-TR, avaliados por um especialista experiente.

E há casos em que esses critérios só se revelam ao longo do tempo, no acompanhamento longitudinal da criança.

Diagnóstico de autismo é para uma vida. E deve ser feito com o rigor que isso exige.

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No reel de anteontem, mostrei por que meninas autistas ainda são diagnosticadas mais tarde: fatores neurobiológicos e a ...
21/05/2026

No reel de anteontem, mostrei por que meninas autistas ainda são diagnosticadas mais tarde: fatores neurobiológicos e a pressão social para adequação feminina amplificam a camuflagem em todas as subescalas.

Mas o s**o não é o único determinante. A literatura documenta outros fatores, independentes dele: função executiva preservada e capacidade cognitiva acima da média também amplificam a camuflagem. E quanto mais eficaz a camuflagem, mais tarde chega o diagnóstico.

Camuflagem é o conjunto de estratégias que pessoas autistas usam para parecer neurotípicas em contextos sociais: scripts de conversa memorizados, expressões copiadas, contato visual calculado, movimentos suprimidos, interesses escondidos. Não é adaptação espontânea. É esforço cognitivo contínuo com custo real.

Pesquisas mostram que quanto melhor a função executiva e a capacidade cognitiva, mais eficaz é a camuflagem. E quanto mais eficaz, mais tarde chega o diagnóstico. Adultos diagnosticados na vida adulta apresentam níveis significativamente maiores de assimilação e compensação do que os diagnosticados na infância.

O custo são comorbidades psiquiátricas reais: burnout autista, ansiedade, depressão. E uma confusão de identidade que não tem CID.

O diagnóstico não atrasa porque o autismo some. Atrasa porque a performance convence a todos. Inclusive a quem avalia.

📚 Referências:

🔹 Cook et al., Clinical Psychology Review, 2021.

🔹 McQuaid et al., Autism, 2022.

🔹 Milner et al., Autism Research, 2023.

🔹 Hull et al., Autism Research, 2021.

🔹 Zhuang et al., Clinical Psychology Review, 2023.

🔹 Rebours et al., Autism, 2026.

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19/05/2026

Meninas autistas recebem o diagnóstico mais tarde do que meninos. Percebemos no dia a dia do consultório, e os estudos também consistentemente mostram.

As pesquisas demonstram que meninas autistas camuflam mais em todas as dimensões medidas: assimilam comportamentos sociais com mais eficiência, compensam diferenças com mais sofisticação e suprimem características autistas com mais consistência do que meninos autistas.

Dois mecanismos principais explicam isso. O primeiro é social: meninas recebem desde cedo uma pressão maior para se adequar, sorrir, interagir e não causar estranheza. Essa pressão antecipa e amplifica a camuflagem. O segundo é neurobiológico: estudos de neuroimagem identificaram padrões de conectividade cerebral específicos em mulheres autistas, envolvendo circuitos de recompensa e memória, que facilitam mecanismos compensatórios. Não é só pressão externa. Há biologia envolvida.

O resultado clínico é uma discrepância que os pais conhecem bem: a menina que funciona na escola e desmonta em casa, que parece sociável e chega exausta, que nunca pede ajuda porque aprendeu cedo que pedir chama atenção indesejada.

Há ainda um fator diagnóstico estrutural: os instrumentos de rastreio e avaliação foram desenvolvidos e validados predominantemente em amostras masculinas. Meninas conseguem mascarar características autistas durante avaliações formais com mais eficácia do que meninos. O que o clínico vê na consulta e o que os pais descrevem em casa frequentemente não coincidem.

O atraso diagnóstico nas meninas é consequência de décadas de pesquisa construída sobre um único perfil. À medida que o autismo feminino ocupa mais espaço na literatura e na formação clínica, mais meninas chegam ao diagnóstico no tempo certo.

📚 Referências:

🔹 McQuaid et al., Autism, 2022.
🔹 Calderoni S., Journal of Neuroscience Research, 2023.
🔹 Klein et al., Development and Psychopathology, 2025.
🔹 Walsh et al., Cerebral Cortex, 2022.
🔹 Schuck et al., Journal of Autism and Developmental Disorders, 2019.
🔹 DSM-5-TR, APA, 2022.

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O Brasil parou. Pedro, não.Para ele, a única informação que importa é essa: Vini Jr. correndo, driblando e chutando; e, ...
17/05/2026

O Brasil parou. Pedro, não.

Para ele, a única informação que importa é essa: Vini Jr. correndo, driblando e chutando; e, para isso, ele usa as pernas, não a cabeça 🤷🏻‍♂️. O resto é ruído.

Isso não é frieza. É foco. É clareza. É Pedro sendo Pedro.

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Entrei no Instagram em plena pandemia. Bem tarde, não é mesmo? Sempre achei esquisito o conceito de “médico blogueiro”, ...
16/05/2026

Entrei no Instagram em plena pandemia. Bem tarde, não é mesmo?

Sempre achei esquisito o conceito de “médico blogueiro”, mas senti, gradativamente, um vácuo que meus anos de consultório, ancorados em evidências científicas, poderiam preencher.

Há quase dois anos faço tudo sozinho. Os posts, os roteiros, a edição, cada resposta no direct. Tudo entre consultas, em horários improváveis, do jeito que dá.

O que me manteve foi perceber, desde cedo, que havia muito espaço para informação de qualidade em Autismo & TDAH. Muita pseudociência circulando. Muita família tomando decisão com base em dado errado. E eu tinha 26 anos de prática e algo concreto a contribuir.

70 mil é apenas um número; e é o que menos importa. O que conta de verdade é saber que algum conteúdo daqui chegou no momento certo para uma família que precisava ouvir aquilo. Que uma mãe entendeu melhor o filho. Que um pai parou de culpar a si mesmo. Enfim, que alguém chegou à consulta e foi acolhido com respostas adequadas, mesmo aquelas difíceis de receber.

Obrigado por estar aqui. A conversa continua.

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“Ele interage com todo mundo, por isso não acho que seja autista.”Essa frase não é resistência dos pais. É uma conclusão...
15/05/2026

“Ele interage com todo mundo, por isso não acho que seja autista.”

Essa frase não é resistência dos pais. É uma conclusão lógica para quem aprendeu que autismo é sinônimo de isolamento.

O problema é que essa equação está incompleta.

Existe um perfil no espectro que busca contato ativamente, com todo mundo, sem parar. Lorna Wing o descreveu em 1979. O DSM-5-TR o reconhece no critério A3. E ele chega ao consultório com frequência, muitas vezes acompanhado de um pai ou mãe aliviada, convicta de que a sociabilidade do filho afasta qualquer hipótese diagnóstica.

O que precisa ser avaliado não é se a criança interage. É como ela interage. Com quem. Em que contexto. E se ela percebe a diferença entre um estranho e um amigo.

Quantidade de interação não é qualidade de interação.

📚 Referências:

🔹 Wing & Gould, J Child Psychol Psychiatry, 1979
🔹 Lord et al., Lancet, 2018
🔹 Hirota & King, JAMA, 2023
🔹 DSM-5-TR, APA, 2022

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14/05/2026

“Ele interage bem com as outras crianças.”

Essa frase aparece em quase toda consulta de investigação de autismo. E quase sempre precisa ser investigada com mais cuidado.

Não porque os pais estejam errados. Mas porque o que eles entendem por interação e o que precisa ser avaliado clinicamente são coisas diferentes.

Brincar ao lado não é o mesmo que brincar com. E quanto menor a criança, mais difícil é perceber essa diferença sem saber exatamente o que observar.

Uma boa avaliação começa com as perguntas certas.

No próximo post, vou mostrar por que uma das respostas mais comuns dos pais, “ele interage com todo mundo”, pode ser exatamente o oposto do que parece.

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Informo com antecedência o recesso do consultório, de 17/06 a 26/06, com retorno em 29/06.Durante esse período não haver...
13/05/2026

Informo com antecedência o recesso do consultório, de 17/06 a 26/06, com retorno em 29/06.

Durante esse período não haverá atendimentos, nem emissão de receitas ou documentos.

As consultas já agendadas permanecem confirmadas. Peço que evitem faltas, pois encaixes após o recesso têm disponibilidade limitada.

Se você precisar de receita ou qualquer impresso, providencie antes do dia 17.

Conto com a compreensão de todos.

“Acho que o pai dele é igualzinho, doutor…”Essa frase resume o que a ciência confirma: o TDAH é herdado.A herdabilidade ...
13/05/2026

“Acho que o pai dele é igualzinho, doutor…”

Essa frase resume o que a ciência confirma: o TDAH é herdado.

A herdabilidade do transtorno é estimada entre 70 e 80%, magnitude comparável à do autismo e da esquizofrenia. Parentes de primeiro grau têm risco 5 a 9 vezes maior de também apresentar o transtorno.

O TDAH não é causado por um único gene. Ele é poligênico: envolve centenas ou milhares de variantes atuando juntas, entre variantes comuns (SNPs) e variantes raras (CNVs).

Os estudos GWAS mapearam esse risco de forma crescente: 27 loci em 2023 (Demontis et al.) e 39 loci em 2025, com 17 completamente novos (van der Laan et al., Nature Genetics). Esses genes convergem nos neurônios dopaminérgicos do mesencéfalo e se expressam principalmente no desenvolvimento cerebral inicial.
84 a 98% das variantes genéticas do TDAH são compartilhadas com autismo, esquizofrenia e transtornos do humor. Não porque os transtornos são iguais, mas porque compartilham mecanismos biológicos de desenvolvimento.

Os escores de risco poligênico (PRS) já demonstram associações consistentes com diagnóstico e trajetória do TDAH, mas permanecem ferramentas exclusivamente de pesquisa.

Saber que o TDAH é altamente genético não é um dado neutro. Significa que o diagnóstico não é invenção. E significa que a biologia, não o ambiente, carrega a maior parte do peso.

📚 Referências:

▪️ Posner et al. Lancet. 2020
▪️ Thapar & Cooper. Lancet. 2016
▪️ Faraone & Larsson. Mol Psychiatry. 2019
▪️ Demontis et al. Nature Genetics. 2023
▪️ van der Laan et al. Nature Genetics. 2025
▪️ Kranz & Grimm. Curr Opin Psychiatry. 2023
▪️ Ronald et al. JAACAP. 2021
▪️ Murray et al. JAMA Psychiatry. 2021
▪️ Barnett et al. Am J Med Genet B. 2025

12/05/2026

O remédio certo. A escola certa. O diagnóstico na hora certa. Tudo isso importa. Mas a ciência mostra que existe um fator que amplifica ou compromete todos os outros.

🔷 O que os estudos mostram
Uma meta-análise publicada em 2024 com 62 estudos e mais de 13 mil participantes demonstrou que crianças com TDAH estão expostas a níveis significativamente mais elevados de hostilidade, conflito e práticas parentais negativas. Não por falta de amor. Por falta de informação e suporte.
Outra meta-análise com 109 estudos e mais de 104 mil crianças confirmou prejuízos substanciais no funcionamento social, com o maior impacto nas relações com os pares.

🔷 O que protege
Um estudo com mais de 4 mil crianças com TDAH mostrou que famílias presentes e rede de apoio ao redor mudam o prognóstico de forma mensurável. Crianças nesse ambiente têm 27% menos chance de quadros mais graves, 72% mais chance de engajamento escolar e 36% menos dificuldade em fazer e manter amigos.

🔷 O que isso muda na prática
O diagnóstico nomeia. O tratamento ajuda. Mas nenhum dos dois é suficiente se essa criança cresce sem ninguém ao lado.
Se você é pai, mãe, professor ou convive com ela e reconhece essa criança, saiba: existe algo que nenhum dos dois consegue nomear ainda. E o primeiro passo é descobrir, para, a partir daí, aprender a lidar juntos.
Esse alguém pode ser você.

📚 Referências:

Văidean et al. JAACAP, 2025 | Ros & Graziano. Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology, 2018 | Claussen et al. Prevention Science, 2024 | Duh-Leong et al. Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics, 2020 | Bhide et al. JDBP, 2017 | Wolraich et al. Pediatrics, 2019

Endereço

João Pessoa
João Pessoa, PB

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