15/05/2026
Na clínica com enlutados, escuto com frequência as falas:
“Eu deveria ter dito mais.”
“Deveria ter amado mais.”
“Beijado mais.”
“Falado mais vezes o quanto era importante.”
Mas o luto tem essa crueldade silenciosa:
ele nos faz acreditar que o amor só teria valor se tivesse sido perfeito, constante, sem falhas ou distrações.
A verdade é que quase sempre amamos com os recursos emocionais que tínhamos naquele momento.
Entre cansaços, medos, rotinas, dores e limitações.
Ainda assim, amamos.
Depois que alguém parte, a mente revisita memórias tentando negociar com o impossível.
Como se mais uma palavra, mais um abraço ou mais um dia pudesse impedir a ausência.
Mas amor não se mede apenas pelo que foi dito.
Muitas vezes, ele esteve nos pequenos gestos, nas presenças silenciosas, nas tentativas imperfeitas de cuidar.
No processo de luto, é comum que o sistema de apego seja ativado de forma intensa, trazendo sentimentos de culpa, insuficiência e revisões constantes da relação vivida.
Quem ama quase sempre sente que ficou devendo algo.
E talvez essa seja uma das faces mais dolorosas do luto.