30/07/2026
Foi a clínica que conduziu esse raciocínio.
O paciente apresentava sinais e sintomas muito sugestivos de baixa ação tireoidiana nos tecidos, apesar de TSH, T4 e T3 séricos estarem dentro dos valores de referência.
Esse é um ponto fundamental: resultado laboratorial normal não exclui, isoladamente, disfunção da fisiologia tireoidiana em todos os contextos clínicos.
TSH, T4 e T3 são exames importantes, mas não conseguem demonstrar, sozinhos, toda a complexidade da ação hormonal.
Para produzir efeito, o hormônio tireoidiano precisa ser adequadamente transportado, convertido, entrar na célula, alcançar seus receptores e gerar resposta nos tecidos.
É dentro da célula que a fisiologia acontece.
E isso tem relação direta com o coração.
Os hormônios tireoidianos participam da regulação de canais de sódio, potássio e cálcio, do manejo intracelular do cálcio, da expressão de receptores adrenérgicos e da produção mitocondrial de ATP.
Esses mecanismos são essenciais para que o cardiomiócito mantenha:
— estabilidade elétrica;
— adequada condução do impulso;
— contração eficiente;
— recuperação celular após cada batimento.
Quando esse ambiente hormonal, energético e bioquímico perde eficiência, o miocárdio pode se tornar mais vulnerável à instabilidade elétrica e ao aparecimento de extrassístoles.
Por isso, a estratégia não foi olhar apenas para o Holter.
Realizamos uma abordagem individualizada, direcionada à correção dos desequilíbrios hormonais, metabólicos e bioquímicos identificados.
Um detalhe torna esse resultado ainda mais relevante: o paciente já utilizava bisoprolol havia aproximadamente 20 anos, na mesma dose.
Portanto, a melhora não aconteceu após introdução ou aumento do betabloqueador.
O que mudou foi o contexto fisiológico.
No Holter mais recente, foram registradas apenas 29 extrassístoles ventriculares em quase 100 mil batimentos, correspondendo a uma carga aproximada de 0,03%, sem pares e sem episódios de taquicardia ventricular.
Mais do que melhorar um número no exame, conseguimos compreender e tratar fatores que poderiam estar contribuindo para aquele coração se comportar daquela maneira.
Esse caso não significa que toda arritmia seja caus