18/08/2025
Um bairro chamado Lagoa do Mato e um evento chamado Agosto da Arte
Ontem, um misto de emoções tomou conta da plateia que acompanhava a programação do Agosto da Arte, evento realizado pelo BNB Cultural de Mossoró, com curadoria de Odara Inaê, no bairro Lagoa do Mato. A proposta da programação é descentralizar os eventos artísticos do centro da cidade, levando a arte também para os bairros periféricos. A abertura ficou por conta da DJ NIC, que apresentou um repertório de MPB de primeira grandeza, celebrando a boa música brasileira. Em seguida, o professor e multiartista Marcos Vinícius destaco que o artista tem público certo na comunidade, pois, quando as crianças ouvem sua voz, correm para escutar suas fábulas. O sentimento de que somos passados, presente e futuro – e de que só a arte é capaz de revelar essas façanhas, nos conduzindo ao sentimento de pertencimento – tomou força quando o poeta Antônio Francisco, também morador da comunidade, recitou seu poema Um bairro chamado Lagoa do Mato. Coincidentemente, nesse instante, sentiu-se um cheiro de brisa, de lagoa, de chuva. As nuvens, embora tenham desviado a chuva, deixaram a calmaria no ar. Assim, saboreamos, sentados à calçada, o velho poeta declamar versos para velhos e crianças, reavivando a memória da comunidade nas décadas de 60, 70 e 80.
Sempre que o escuto recitar, me emociono e penso em como seria agradável aquele bairro se não tivessem soterrado a lagoa. Quando criança, lembro-me de ouvir meu pai dizer: “Vão soterrar a lagoa”. Eu achava essa palavra feia – e é mesmo. Mais feio ainda foi o que aconteceu depois: a destruição causada pela pavimentação. Hoje temos ruas calçadas, é verdade, mas para os moradores antigos ficam apenas as lembranças do canto dos marrecos, do cheiro das flores, da brisa fria que descia no início da noite e do perfume agradável da água doce. O grafite de Luan embalando nossas emoções. Por fim, a programação foi encerrada com uma bela apresentação do Forró do Azunhado, transformando a calçada de dona Dorinha em palco para os artistas – como nos velhos tempos da minha infância, quando as calçadas serviam de palco para Luiz Campos e seus amigos tocadores de viola.
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