30/05/2026
A cardiologia preventiva moderna passou por uma mudança importante: avaliar apenas o valor do LDL-colesterol (LDL-C) já não é suficiente para estimar o risco cardiovascular de forma adequada. Embora o LDL-C continue sendo um alvo terapêutico fundamental, as diretrizes atuais da ACC/AHA, ESC/EAS e outras, mostram que o risco resulta da interação entre fatores genéticos, metabólicos, inflamatórios e anatômicos. Assim, um LDL-C de 70 mg/dL pode representar situações clínicas completamente diferentes dependendo do contexto do paciente.
Entre os principais intensificadores de risco destaca-se a ApoB. De forma didática, se o colesterol corresponde à carga transportada, a ApoB representa o número de veículos que carregam essa carga para dentro da parede arterial. Quanto maior a ApoB, maior a quantidade de partículas aterogênicas circulantes e maior o risco de eventos cardiovasculares.
Outro marcador relevante é a Lp(a), um fator predominantemente genético. Valores acima de 50 mg/dL associam-se a aumento de aproximadamente 20% a 30% no risco cardiovascular, além de maior incidência de aterosclerose precoce e estenose aórtica. Quando coexistem LDL elevado e Lp(a) elevada, o risco tende a ser multiplicativo.
As comorbidades também exercem papel decisivo. O diabetes mellitus acelera o processo aterosclerótico e aumenta substancialmente o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular, mesmo quando o LDL-C parece controlado. Já a DRC promove inflamação sistêmica, calcificação vascular e disfunção endotelial, podendo elevar o risco cardiovascular em até cinco vezes, conforme sua gravidade.
Já o escore de cálcio coronariano (CAC) oferece uma evidência direta da presença de aterosclerose. Um CAC maior que zero identifica doença subclínica, enquanto valores acima de 100 indicam necessidade de estratégias preventivas mais intensivas.
A principal lição é que o risco cardiovascular depende da soma de todos esses fatores. Um indivíduo com LDL-C de 70 mg/dL, mas com ApoB elevada, Lp(a) aumentada, diabetes e CAC positivo, pode apresentar risco muito superior ao de outro com LDL-C de 120 mg/dL sem esses intensificadores.
Dr. Cesimar S. do Nascimento, CREMERN 2050, RQE 629