04/06/2025
"20 anos de traço, suor e silêncio"
Tem dias em que eu olho pro meu trabalho e me pergunto:
Será que a tatuagem está morrendo...
Ou será que nós, artistas, estamos sendo assassinados aos poucos — por um mercado cego, por um país afundado, por uma sociedade que já não escuta?
Comecei cedo. Aos 14 anos, mergulhei de corpo e alma em cada traço, cada linha, cada história que cruzava minha pele e a de quem confiava em mim. Não havia luxo, só entrega.
Hoje, quase 20 anos depois, eu vejo tudo isso sendo esmagado por algoritmos, promoções relâmpago, e um governo que, ao invés de ajudar o povo, aperta ainda mais o pescoço de quem trabalha honestamente.
A arte virou vitrine.
O suor virou número.
O tempo virou “precinho”.
A dedicação virou “só esse tracinho aqui”.
A alma que a gente deixa na pele do outro já não é vista. Só o valor na maquininha.
Enquanto muitos artistas tentam sobreviver vendendo sua arte a preço de banana, pra não morrer na invisibilidade, o país afunda. O custo de vida sobe, o poder de compra despenca, e quem vive da própria mão, da própria arte, sente o golpe dobrado.
É como remar contra a corrente: de um lado, um mercado doente; do outro, um governo que não entende — ou pior, não se importa.
A economia desmorona, mas o povo é ensinado a sorrir pra um desconto, mesmo que ele custe o respeito.
Enquanto isso, o artista que se recusa a se vender barato é chamado de arrogante.
Mas ninguém vê as noites em claro, o medo de não fechar o mês, a culpa por não conseguir dar mais pra família, o peso de carregar um talento que hoje parece mais um fardo do que um dom.
Ser tatuador hoje é não se render à pressa, ao imediatismo, à miséria que querem transformar a arte.
É difícil continuar quando tudo gira em torno de “valor”.
Difícil continuar quando você escuta que o país “tá melhorando”, mas vai no mercado e compra menos.
Quando você cobra o justo e ouve “vou ver com outro”, como se o seu tempo fosse descartável.
Mas sigo.
Porque mesmo quando o Brasil desanima, a arte me levanta.
Mesmo quando a política decepciona, o traço me ancora.
E amanhã eu estarei aqui como há 20 anos eu decidi viver de arte… num país que insiste em matá-la.