20/04/2026
Oscar se foi, mas algumas pessoas atravessam a história de um jeito que não acaba com a morte. Ele não foi só um gênio do basquete. Foi, também, um grande exemplo vivo de propósito, resiliência e humanidade.
Como psiquiatra, olho para ele e vejo mais do que números, recordes e títulos. Vejo um homem com um enorme senso de propósito naquilo que fazia. E isso fala de saúde mental: ter algo que nos move, que nos tira da cama, que nos organiza por dentro. Propósito não é teoria, é direção. Para ele, foi o basquete. Para você, pode ser família, trabalho, arte, fé, serviço aos outros. O nome importa menos do que o sentido que traz.
Oscar também nos ensinou sobre frustração. Sobre a derrota para a União Soviética na olímpiada de Seul, dizia que lembrava todo dia de um erro que, segundo ele, custou a partida. Ele dizia que “aquela geração merecia o ouro”. Grandes homens impulsionam seus companheiros, como na vitória inédita sobre os EUA no panamericano de 97, mas também assumem com dignidade a frustração coletiva. Mesmo um dos maiores jogadores da história não realizou todos os sonhos que talvez merecesse realizar. A vida não é uma equação perfeita entre esforço e recompensa. E isso dói. Na clínica, vejo todos os dias o sofrimento de quem não alcançou o que imaginava. O que o Oscar mostra é que o valor de uma vida não cabe apenas no que deu “certo”, mas na coragem com que foi vivida.
Quando enfrentou o câncer, vimos outro capítulo importante: o herói vulnerável. O corpo que parecia incansável precisou de cuidado, tratamento, apoio. Isso nos lembra que ninguém é invencível — nem na saúde física, nem na emocional. Mais uma vez Oscar encarou a adversidade com serenidade. “Se Ele quiser me levar, está tudo bem, eu tive uma vida maravilhosa”, disse em entrevista. Pedir ajuda, tratar, falar de medo, de angústia, não diminui ninguém. Pelo contrário, é um ato profundo de responsabilidade consigo mesmo.
Por fim, f**a o legado. Não só o dos pontos e das partidas históricas, mas o da mensagem silenciosa: você não precisa ser o Oscar para ter uma vida que valha a pena. Precisa, sim, cuidar de si, encontrar sentido, aceitar suas vulnerabilidades e permitir-se ser humano.