08/05/2020
CARTA DE UMA ENFERMEIRA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Senhor Presidente,
É PRECISO UNIÃO. Desde o dia 11 de março, vivemos em um cenário de pandemia, decretada pela Organização Mundial da Saúde. E, desde então, os brasileiros sentem clima de extrema insegurança: medo de contaminação, de perder um amigo, um ente querido, ou então o seu ganha pão. Muitos já perderam alguns desses bens tão valiosos em suas vidas, outros com a perda total e eu lamento profundamente.
Como enfermeira, posso lhe afirmar que nós, os profissionais de saúde, vivemos um dilema ainda maior. Além de acumularmos todas as angústias do cidadão comum, estamos mais expostos ao risco de contaminação e lidando com adversidades como falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), sobrecarga de trabalho com jornadas exaustivas e ainda presenciamos colegas sendo agredidos fisicamente e psicologicamente durante o traslado até suas casas. Somado a essas questões ainda temos os que pertencem aos grupos de risco e continuam atuando na linha de frente porque não foram liberados para a quarentena.
Somos a maior força de trabalho na saúde, trabalhamos 80 horas por semana e isso não é considerado ilegal. Se morrermos em serviço, ao contrário dos militares, não existe qualquer benefício para os nossos filhos ou familiares, mesmo que tenham pouca idade. Não contamos também com o adicional moradia, pago a políticos e militares e por isso nos deslocamos e somos agredidos nas ruas. Em tempos de guerra o descanso aos militares também acontece, mas na saúde a medida provisória 927 permite a ampliação das nossas jornadas para até 24 horas e reduz o nosso descanso para 12 horas durante a pandemia da Covid-19, o que deixa as equipes ainda mais exaustas, com a saúde mental abalada e com a imunidade reduzida. Ou seja, Presidente, estamos defendendo arduamente o sistema mas as nossas tropas estao abandonadas na linha de frente, com soldados desarmados, mal pagos, tendo baixas em nosso quantitativo e com poucos reforços em nosso grupo.
É PRECISO UNIÃO. Nas últimas 24 horas o Brasil registrou mais 600 mortes por Covid-19 e tudo indica que ainda nem chegamos no pico de transmissão da doença. Já virou parte da rotina de todos as tristes notícias de profissionais de saúde contaminados, esgotamento de leitos de UTI e EPIs, a indisponibilidade de ventiladores mecânicos no mercado e nas instituições de saúde, sinalizando um possível cenário de colapso na saúde. Pior, corpos se acumulando sem um enterro digno e famílias amargando a dor da perda sem poder se despedir. E nós, profissionais de saúde, além de lidar com o enfrentamento de um inimigo desconhecido, ainda necessitamos amparar humanamente a dor dessas famílias e dos pacientes sobreviventes.
É PRECISO UNIÃO. Talvez, esteja se perguntando porque lhe escrevo. E eu escrevo porque, embora estejamos vivendo em um país extremamente polarizado no campo político, o senhor foi eleito para ser o presidente de todos no campo das políticas públicas. E o que precisamos nesse momento são ações governamentais, que direcionem todos os esforços do nosso país para um mesmo rumo. Se todos remarmos na mesma direção, seremos vencedores, mesmo que nadando contra a correnteza dessa pandemia. O que isso significa? Que a União, Estados e Municípios devem ser tratados e atuar como órgãos de um mesmo corpo. Se algum órgão estiver em descompasso, ou mais doente, a vida estará em risco. Ou, então, se um órgão não “trabalhar” de forma essencial para o bom funcionamento do outro, ele também estará prejudicado. A harmonia desse “organismo" chamado Brasil, está em suas mãos e, neste momento, precisamos de uma grande articulação entre os entes federativos em torno de uma política de isolamento que realmente garanta que as pessoas fiquem em casa, de forma a manter apenas as atividades e serviços fundamentais.
É PRECISO UNIÃO. Quanto antes tivermos sucesso nas políticas de prevenção,mais cedo a economia será retomada, fator que também é fundamental para a sobrevivência dos brasileiros. Não obstante, é necessário um olhar diferenciado a nós, profissionais de saúde. Antes dessa pandemia, já era uma realidade o adoecimento mental dos trabalhadores da área, a exemplo da enfermagem, que em sondagem realizada pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo, mostrou que esse é um problema que afeta 60% da categoria. É urgente discutir melhores condições de trabalho para essas pessoas, que enfrentam exaustivas jornadas de trabalho, sem piso salarial e jornada regulamentados; que estão expostos a riscos químicos e biológicos e não têm sequer o direito ao adicional por insalubridade; que todos dias deixam suas famílias sem saber em que condições vão retornar do trabalho.Pior. Enfrentamos diariamente a violência de setores da sociedade que permitem que a desinformação sobreponha a gratidão. É por conta dessa dura realidade que eu clamo que o senhor torne esses assunto pauta de seus diálogos junto ao Congresso.
É PRECISO UNIÃO. Presidente, tenho acompanhado de perto o trabalho dos profissionais nos hospitais de campanha de São Paulo e, a cada dia, conheço novos rostos abatidos pela Covid-19, de alguém que talvez não tenha conseguido a dispensa do trabalho, ou então, não levado essa pandemia a sério. Vejo nos olhos dos pacientes a ansiedade e angústia de não saberem se verão novamente seus entes queridos, ausência que tentamos amenizar de maneira virtual quando o doente apresenta condições de saúde. Essa tem sido a nova face do nosso Brasil. E, mesmo, com todos os problemas e desafios que eu citei nesta carta, nós, profissionais de saúde, continuamos aqui por vocês, cidadãos brasileiros. E finalmente, meu singelo pedido é para que governem essa nação em tempos de pandemia por nós. Vamos juntos voltar a sorrir!
Com esperança e fé por dias melhores, Enfermeira com orgulho e brasileira com paixão, Renata Pietro.
***Façam essa carta chegar ao presidente***