Psicóloga Flávia Procópio

Psicóloga Flávia Procópio Atendimento psicológico de crianças, adolescentes e adultos na abordagem psicanalítica.

Talvez uma das coisas que mais me inquietam, como mulher e como psicóloga, seja perceber o quanto nós, mulheres, fomos e...
18/08/2026

Talvez uma das coisas que mais me inquietam, como mulher e como psicóloga, seja perceber o quanto nós, mulheres, fomos ensinadas a adiar o prazer.

Primeiro precisamos ser boas. Boas filhas, boas mães, boas companheiras, boas profissionais.

Precisamos dar conta. Ser suficientes. Ser competentes. Cuidar. Entregar. Corresponder.

E, depois de tudo isso, talvez possamos descansar. Talvez possamos sentir prazer.

Como se o prazer fosse uma recompensa por termos cumprido corretamente todas as nossas funções.

Mas eu não acredito nisso.

O prazer não deveria chegar apenas depois que tudo estiver resolvido. Ele não deveria ocupar o espaço que sobra depois de cuidarmos de todo mundo.

O prazer precisa estar entremeado à existência.

Porque quando uma mulher passa tanto tempo atendendo às necessidades dos outros, pode acontecer algo ainda mais profundo: ela começa a perder a familiaridade com o próprio desejo.

Já não sabe muito bem o que quer.

O que gosta.

O que a excita.

O que a faz vibrar.

E talvez seja por isso que falar sobre prazer feminino seja, para mim, também falar sobre subjetividade.

Sobre a possibilidade de uma mulher reconhecer em si mesma uma vida desejante que não precisa ser justificada pela utilidade, pelo cuidado ou pela aprovação de alguém.

É por isso que tenho escrito sobre esse tema.

Porque colocar o prazer feminino em palavras também é uma forma de questionar tudo aquilo que nos ensinou a tratá-lo como excesso, luxo ou recompensa.

Quero falar sobre a dificuldade que tantas de nós temos de olhar para os próprios desejos sem imediatamente perguntar se eles são adequados, possíveis, aceitáveis ou bons para alguém.

Quero falar sobre o que acontece quando começamos a reconhecer o prazer não como algo que recebemos depois de sermos suficientemente boas, mas como uma dimensão legítima da nossa existência.

Uma vida que não encontra espaço para o prazer pode continuar funcionando.

Mas eu quero falar sobre algo maior do que funcionar.

Quero falar sobre uma vida que também possa ser desejada por quem a vive.

11/08/2026

Em que momento você deixou de perguntar o que deseja?

Nós, mulheres, aprendemos muito cedo a ser funcionais.

Aprendemos a cuidar, acolher, compreender, atender às necessidades dos outros. Somos ensinadas a ser boas filhas, boas companheiras, boas mães, boas profissionais.

E, enquanto aprendemos a sustentar tanta coisa, nosso próprio desejo vai sendo colocado para depois.

Primeiro o que o outro precisa.
Depois o que a relação precisa.
Depois o que a família espera.
Depois o que a vida exige.

E quando finalmente perguntamos "e eu?", muitas vezes já não sabemos responder.

bell hooks nos lembra que nossas formas de amar também são atravessadas pelas estruturas sociais que nos ensinaram o que uma mulher deve oferecer, suportar e priorizar.

Talvez por isso, para muitas de nós, ser necessária tenha se tornado mais familiar do que ser desejante.

E recuperar o desejo não significa deixar de cuidar ou deixar de amar.

Significa não precisar desaparecer para que o outro exista.

Ana Suy nos lembra, a partir da psicanálise, que o amor não elimina a falta nem pode responder por tudo aquilo que desejamos. O outro não pode ocupar o lugar de sujeito da nossa própria vida.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que uma mulher possa fazer a si mesma seja:

O que eu quero?

Não o que esperam de mim.
Não o que seria mais conveniente.
Não o que faria alguém me amar.

O que eu desejo para a minha própria vida?

Talvez voltar a fazer essa pergunta seja também uma forma de voltar para si.

Endereço

Rua Dom Pedro II, 1382
Piracicaba, SP

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