Geriatra Virgílio Olsen

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08/06/2026

Este é o episódio 10 da série Manual da Mente, em que eu explico, de forma simples e prática, os 14 fatores de risco modificáveis para demência. Já falei de outros fatores nos posts anteriores, e vou seguir com a série até completar todos eles.

Hoje, o foco é inatividade física.

A Comissão da Lancet incluiu a inatividade física entre os 14 fatores de risco modificáveis para demência. Isso importa porque modificável quer dizer que esse risco pode ser prevenido, reduzido ou adiado. A estimativa é que até 45% dos casos de demência possam ser prevenidos ou adiados ao agir sobre esses fatores ao longo da vida.

Quando eu falo em atividade física, não estou falando só de academia. O movimento ajuda a circulação cerebral, reduz inflamação, contribui para a saúde metabólica e favorece a reserva cognitiva. Quando ele falta, o cérebro perde parte dessa proteção.

Em uma análise com dados de 168 países, não atingir a recomendação mínima de atividade física esteve associado a até 8,1% mais risco de demência. Essa recomendação costuma ser de pelo menos 150 minutos por semana de atividade moderada, ou 75 minutos de atividade vigorosa.

E há outro ponto importante: não precisa começar perfeito. Um estudo recente mostrou que, em pessoas com maior risco biológico para Alzheimer, caminhar entre 3 mil e 7,5 mil passos por dia esteve ligado a progressão mais lenta do declínio cognitivo.

Na prática, prevenção começa no cotidiano. Andar mais, interromper o tempo sentado, reduzir o sedentarismo e manter constância já é um passo importante.

03/06/2026

Confesso que me emocionei ao ver esse vídeo.

Na geriatria, eu acompanho de perto o impacto que o Alzheimer tem sobre a memória, a autonomia e a dinâmica de toda a família. Por isso, cenas como essa me tocam de um jeito especial. Elas nos lembram que, mesmo quando muitas lembranças já se perderam, ainda pode existir espaço para conexão.

A música tem esse poder.

Ela pode alcançar caminhos que, muitas vezes, a conversa já não alcança com a mesma facilidade. Pode despertar emoções, trazer familiaridade, aliviar a angústia e criar um momento real de presença. A pessoa pode não reconhecer um nome, não conseguir localizar uma história, não entender completamente o contexto. Mas, diante de uma canção conhecida, ainda pode sentir, reagir, acompanhar, se emocionar.

Isso não signif**a que a música reverta o quadro. Não é essa a questão.

A questão é que, no Alzheimer, nem toda conexão depende da memória do jeito que estamos acostumados a imaginar. Às vezes, o vínculo continua vivo no afeto, no tom de voz, no ritmo, na sensação de algo conhecido. E quando isso aparece, mesmo que por alguns instantes, existe ali algo muito valioso para quem vive a doença e para quem cuida.

Talvez seja justamente isso que mais emocione. Ver que, apesar das perdas, ainda há caminhos possíveis para o encontro.

E, para muitas famílias, esse tipo de momento não é pequeno. É respiro. É conforto. É uma forma de lembrar que o amor e a presença também se comunicam de outras maneiras.

Créditos do vídeo original para e

Ouvir “quero ir para casa” costuma ser angustiante para quem cuida. E um erro muito comum é responder com lógica: “mas v...
02/06/2026

Ouvir “quero ir para casa” costuma ser angustiante para quem cuida. E um erro muito comum é responder com lógica: “mas você já está em casa”.

Na prática, essa fala nem sempre tem relação com localização. Muitas vezes, “casa” signif**a um lugar interno de segurança, familiaridade, conforto e proteção.

Por isso, confrontar ou insistir em corrigir tende a aumentar a aflição.

✅ O que costuma ajudar mais é validar o sentimento antes de qualquer coisa. Frases como “eu entendo que isso está te deixando inseguro”, “Vamos tomar um café enquanto você me conta disso” ou “Como era a sua casa antes?” costumam acolher melhor do que tentar convencer.

Depois disso, vale oferecer segurança de forma concreta e calma. Dizer que está tudo bem, que a pessoa não está sozinha, usar um tom tranquilo e, quando apropriado, um toque de acolhimento, pode reduzir bastante o sofrimento naquele momento.

Também pode ajudar redirecionar a atenção com delicadeza. Fotos antigas, uma música conhecida, uma conversa sobre lembranças afetivas, um lanche ou uma pequena caminhada podem funcionar melhor do que discutir.

📝 Outro ponto importante é observar padrões. Essa fala aparece mais no fim do dia? Em momentos de mais barulho? Quando a pessoa está cansada, ansiosa ou sozinha? Entender os gatilhos ajuda a prevenir novas crises.

Nem sempre quem tem Alzheimer precisa de correção. Muitas vezes, precisa de segurança emocional.

A forma como a família responde faz diferença.

Se este conteúdo te ajudou, salve para lembrar na hora em que isso acontecer.

01/06/2026

Estamos no episódio 9 da série Manual da Mente, em que eu estou explicando os 14 fatores de risco modificáveis para demência. Nos posts anteriores, já falei sobre outros fatores, como baixa escolaridade, perda auditiva e traumatismo craniano. E ainda vamos seguir com a série até completar todos eles.

Hoje, o foco é isolamento social.

🧠 Esse tema merece atenção porque saúde do cérebro não depende apenas de exames, diagnósticos e remédios. A forma como a pessoa vive, se relaciona e se mantém conectada com outras pessoas também importa. O isolamento social faz parte da lista dos 14 fatores de risco modificáveis para demência publicada pela Comissão da Lancet. Isso signif**a que ele pode ser prevenido, reduzido ou adiado.

Aqui, vale uma distinção importante. Isolamento social e solidão não são a mesma coisa. Isolamento social é a redução objetiva do contato com outras pessoas, com pouca rede de apoio e pouca interação. Solidão é a sensação subjetiva de estar só, mesmo quando há gente por perto.

📚 Uma grande revisão do The Lancet, com mais de 600 mil pessoas, mostrou que a solidão esteve associada a 31% mais risco de demência e a 15% mais risco de comprometimento cognitivo. E isso reforça algo que eu sempre procuro explicar: o cérebro precisa de estímulo. A convivência social estimula diferentes áreas do cérebro e envolve funções como memória, linguagem, atenção e compreensão.

Na prática, prevenir esse fator de risco passa por atitudes possíveis no dia a dia. Manter vínculos, participar de grupos, preservar uma rotina com encontros, sair de casa, conversar mais e pedir ajuda quando o isolamento começa são medidas que podem fazer diferença ao longo do tempo.

Nem todo fator de risco pode ser mudado. Mas esse pode. E isso é uma boa notícia.

Se você acompanha a saúde de um familiar idoso, salve este post e compartilhe.

Eu sei que essa frase é dura. Mas, às vezes, é justamente a pergunta certa.Muita gente ainda olha para o cuidado com a s...
28/05/2026

Eu sei que essa frase é dura. Mas, às vezes, é justamente a pergunta certa.

Muita gente ainda olha para o cuidado com a saúde como exagero, vaidade ou preocupação excessiva. Como se prevenir fosse coisa para quem tem tempo sobrando. Não é.

Cuidar da saúde hoje é tentar proteger a sua autonomia de amanhã.

É preservar a capacidade de andar com segurança, tomar as próprias decisões, sair de casa, manter sua rotina, aproveitar a família e viver com dignidade.

Envelhecer faz parte da vida. Perder autonomia nem sempre.

Claro que nem tudo está sob nosso controle. Mas muita coisa pode, sim, ser acompanhada antes de virar um problema maior. Quedas, perda de força, alterações de memória, excesso de remédios, sedentarismo, sono ruim, isolamento, alimentação inadequada. Nada disso deveria ser tratado como detalhe.

Prevenção não é viver com medo.

Prevenção é viver com estratégia.

Não se trata de buscar um envelhecimento perfeito. Se trata de chegar lá com mais independência, mais lucidez e mais qualidade de vida.

Porque adiar cuidados costuma custar caro. E, muitas vezes, o preço não é só financeiro. É a perda da liberdade, da privacidade e da própria rotina.

Cuidar da saúde não é um capricho.

É uma forma de continuar sendo protagonista da própria vida.

Se esse tema fez sentido para você, talvez seja hora de olhar para o futuro com mais seriedade e menos adiamento.

27/05/2026

Muitos filhos entram, sem perceber, em um lugar de sobrecarga silenciosa ao cuidar do parente idoso.

Eles organizam consultas, exames, remédios, conversas com médicos, decisões difíceis e ainda tentam manter a própria rotina funcionando. Com o tempo, pedir ajuda começa a parecer culpa. Como se dividir responsabilidades fosse sinônimo de abandono.

🚫 Não é.

Pedir ajuda é uma forma de organizar o cuidado de maneira mais segura e sustentável.

Quando tudo f**a concentrado em uma pessoa, aumenta o cansaço, aumenta a chance de erro e o peso emocional f**a ainda maior. Por isso, em vez de fazer um pedido genérico, tente transformar a necessidade em algo concreto.

• Quem pode acompanhar uma consulta?
• Quem pode revisar os remédios da semana?
• Quem pode f**ar com ela em um período do dia?
• Quem pode ajudar com pagamentos, agenda ou burocracias?

Isso facilita a conversa e reduz conflitos.

E quando a família não consegue dar conta sozinha, considerar um cuidador também pode ser uma decisão responsável. Não como substituição de afeto, mas como parte de uma rede de apoio possível.

Cuidar bem não é fazer tudo sozinha. É conseguir sustentar o cuidado ao longo do tempo.

Se isso descreve o que você está vivendo, envie este post para alguém da sua família. Às vezes, a conversa precisa começar com clareza.

25/05/2026

Estamos no episódio 8 da série Manual da Mente, em que estou explicando os 14 fatores de risco modificáveis para demência. Nos posts anteriores, já falei de outros fatores, e a série continua até cobrir todos eles.

🧠 Hoje, o foco é depressão.

A atualização de 2024 da Lancet Commission incluiu 14 fatores de risco modificáveis para demência, e a depressão está entre eles. Isso importa porque reforça uma mensagem central: demência não é, necessariamente, um destino inevitável em todos os casos. Existe espaço para prevenção e para adiamento do risco.

A relação entre depressão e demência é complexa. Os mecanismos estudados incluem inflamação crônica, alterações vasculares, desregulação do eixo do estresse, alterações em fatores neurotróficos e desequilíbrios de neurotransmissores. Além disso, estudos mostram que essa associação pode aparecer tanto na meia-idade quanto na velhice. Em alguns casos, quando a depressão surge mais tarde, ela também pode funcionar como um sinal precoce de um processo neurodegenerativo em curso.

Isso não signif**a que toda pessoa com depressão vai desenvolver demência. Signif**a, sim, que depressão precisa ser reconhecida, avaliada e tratada com seriedade.

🔬 Quando eu digo que é um fator de risco modificável, estou dizendo que existe possibilidade de agir. Reconhecer sintomas cedo, buscar tratamento adequado, manter atividade física regular, preservar vínculos sociais e não normalizar apatia, isolamento e perda de interesse como se fossem “coisa da idade” são passos importantes.

Cuidar da depressão é cuidar da saúde mental, da funcionalidade e também da saúde do cérebro ao longo do tempo.

Salve este episódio e compartilhe com quem está acompanhando a série Manual da Mente.

Quando eu falo em mentira terapêutica, não estou falando em desrespeitar ou infantilizar a pessoa idosa. Estou falando d...
21/05/2026

Quando eu falo em mentira terapêutica, não estou falando em desrespeitar ou infantilizar a pessoa idosa. Estou falando de uma estratégia de comunicação que pode ser útil quando confrontar com a realidade só aumenta sofrimento, ansiedade ou agitação.

🧠 Isso pode acontecer, por exemplo, quando a pessoa com demência pergunta por um familiar que já morreu, insiste que precisa buscar alguém, ou não recorda uma perda importante. Se eu respondo com a verdade de forma direta, ela pode viver aquela dor de novo, como se estivesse recebendo a notícia pela primeira vez.

Nessas situações, meu objetivo não é corrigir a memória a qualquer custo. Meu objetivo é acolher, reduzir sofrimento e trazer segurança emocional.

Na prática, isso costuma funcionar melhor quando eu valido o sentimento, falo com calma, evito discussões e redireciono a atenção para algo que traga conforto.

Não se trata de mentir por conveniência. Trata-se de entender que, em alguns momentos, insistir no fato não ajuda. E, na demência, comunicar bem nem sempre é dizer exatamente a verdade. Muitas vezes, é dizer algo que proteja a pessoa daquele sofrimento desnecessário.

Cada situação precisa de contexto e individualização. Mas uma coisa é importante lembrar: confrontar nem sempre é cuidado.

18/05/2026

Manual da Mente, episódio 7. Nesta série, eu estou passando pelos 14 fatores de risco modificáveis para demência. Já falamos de alguns deles nos posts anteriores e eu vou seguir até completar todos. Hoje, o foco é tabagismo.

📑 A Comissão da Lancet de 2024 reforçou uma mensagem importante: até 45% dos casos de demência podem ser prevenidos ou adiados com o enfrentamento de 14 fatores de risco modificáveis. O tabagismo está entre eles.

E por que isso importa para o cérebro?

Porque o impacto do cigarro não f**a restrito a pulmão e coração. Um estudo com dados do UK Biobank analisou 32.094 pessoas e encontrou associação entre histórico de tabagismo e menor volume cerebral. Além disso, observou efeito de dose: quanto mais maços por dia, menor o volume cerebral. Esse achado ajuda a entender por que fumar se relaciona a maior risco de declínio cognitivo e doença de Alzheimer.

🚭 Outro ponto importante é que esse dano parece persistir mesmo em quem já parou de fumar. Ou seja, parar ajuda a evitar progressão, mas não necessariamente restaura o volume cerebral original. Por isso, a cessação precoce faz diferença.

A boa notícia é que esse é um fator de risco modificável. Na prática, isso envolve não começar a fumar, parar o quanto antes, procurar programas antitabagismo, considerar reposição de nicotina e medicações quando indicadas, associar terapia, atividade física, mindfulness e suporte profissional.

E vale lembrar: parar de fumar traz benefícios em qualquer idade.

Salve este post para acompanhar a série e compartilhe com alguém que ainda subestima o impacto do cigarro sobre o cérebro.

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Porto Alegre, RS

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