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Nos processos do luto , viver pode despertar culpa. Como se continuar a vida significasse abandonar quem partiu.Em refle...
19/05/2026

Nos processos do luto , viver pode despertar culpa. Como se continuar a vida significasse abandonar quem partiu.

Em reflexões que surgiram dentro da clínica, em conversas com a minha supervisora e na minha análise pessoal, algo tem me atravessado profundamente: a percepção de que a morte, muitas vezes, também convoca à vida.

Freud, em “Luto e Melancolia”, nos mostra que o luto exige um trabalho psíquico delicado: aos poucos, a libido investida naquele que foi perdido precisa encontrar novos destinos. Não para apagar o amor, mas para que a vida volte a circular. Talvez por isso o luto seja tão doloroso porque uma parte de nós também precisa reaprender a viver sem a presença concreta do outro.

Durante o meu intercâmbio, conheci a história de uma mãe que perdeu a filha jovem em um acidente aéreo e que, depois da perda, começou a experimentar coisas novas aprender a dançar, viajar, explorar o mundo. Como se, de algum modo, existisse uma tentativa de manter viva, dentro dela, algo da filha que partiu.

Essa história me fez pensar sobre como elaborar um luto não significa esquecer. Para a psicanálise, elaborar uma perda pode ser construir uma nova forma de presença.

A maior homenagem que podemos oferecer a quem amamos talvez seja justamente essa: viver uma vida possível, viva, pulsante.
Porque nenhum amor verdadeiro deseja a paralisação do outro.

A saudade permanece. A ausência também,
mas a vida pode continuar sendo um modo de manter vivo aquilo que o outro deixou em nós.

Elaborar um luto talvez também seja encontrar, aos poucos, novas formas de permanecer vivo.

Com carinho psicologa

Há experiências que só aparecem quando alguém decide morar em outro país.Chegar em outro país não é apenas mudar de luga...
10/03/2026

Há experiências que só aparecem quando alguém decide morar em outro país.

Chegar em outro país não é apenas mudar de lugar. É também se deparar com algo que começa a se mover dentro de nós.

Muitas vezes, a gente se sente pequena diante de tudo que é novo.

O idioma exige atenção a cada palavra, e até coisas simples do dia a dia podem confundir.Os gestos das pessoas são diferentes do que estamos acostumados . As ruas parecem familiares e, ao mesmo tempo, estranhas.

A saudade chega de repente e aperta o peito. E junto dela vem a dúvida: será que consigo? Será que devo ficar?

Antes de partir, muitas vezes existe uma idealização: a ideia de que no outro país as coisas serão mais simples, mais organizadas, mais possíveis.

Mas, aos poucos, essa imagem vai cedendo lugar à realidade do cotidiano. Pequenas dificuldades aparecem, frustrações também. Aquilo que era imaginado começa a dar espaço para aquilo que realmente se encontra.

Esse movimento já foi descrito na psicanálise como a passagem da cidade idealizada para a cidade real. No livro Psicanálise afora, aparece assim:

“Quando o migrante entra em contato com a imagem investida, apresentam-se as faltas e falhas, e temos um processo de desidealização e trabalho de luto.” (p. 43)

Nos primeiros dias, a alegria de estar ali se mistura à estranheza, à insegurança, à vontade de ir embora e também à coragem de tentar.

Existe uma tensão entre o que ficou para trás e o que ainda está sendo construído. Talvez só quem já passou por isso saiba como é se sentir estrangeira antes mesmo de conseguir se sentir em casa.

Porque a chegada a um outro país não é apenas geográfica. Ela também nos coloca diante de algo inesperado: perceber que, ao tentar habitar um novo lugar, também nos encontramos com partes de nós que ainda não conhecíamos.

Para alguns, essa travessia acaba se tornando permanência. Para outros, em algum momento, surge a pergunta sobre voltar.

Mas quem já viveu essa experiência sabe: depois dessa chegada, algo em nós já não é exatamente o mesmo.
psicologa





Conhecer outras cidades, caminhar por ruas desconhecidas, ouvir outras línguas, idiomas entrar em contato com culturas d...
06/03/2026

Conhecer outras cidades, caminhar por ruas desconhecidas, ouvir outras línguas, idiomas entrar em contato com culturas diferentes, sempre me despertou curiosidade e encantamento.

Viajar nos abre para o mundo mas também, de alguma forma, nos abre para nós mesmos.

Ao longo da vida tive a oportunidade de conhecer alguns lugares, fazer intercâmbio, viver experiências fora do Brasil. E sempre que estou em outro país, algo me chama a atenção: a forma como a gente se percebe diferente quando está longe de casa.

Porque existe uma diferença grande entre visitar um lugar e morar nele.

Quando viajamos, muitas vezes tudo parece bonito, interessante, novo. Existe uma certa idealização , encantamento com o que é diferente.

Mas quando alguém decide viver fora do seu país, outras aspectos começam a aparecer.

O idioma que exige mais esforço.
Os costumes que não são familiares.
A distância da família, dos amigos, das referências que nos faziam sentir pertencentes.

Morar fora pode ser uma experiência muito rica, mas também pode trazer momentos de solidão, dúvidas e deslocamento.

E isso muitas vezes não encontra espaço para ser dito.

Porque muitas vezes existe uma expectativa própria ou dos outros de que viver no exterior deveria ser apenas uma experiência perfeita.

Mas a vida psíquica não funciona assim.

Entre o desejo de estar em um novo lugar e a saudade do que ficou, muitas emoções se misturam.

Como psicóloga, tenho me interessado cada vez mais por essas experiências de quem vive entre países, entre culturas, entre pertencimentos.

Talvez porque viajar sempre tenha feito parte da minha vida. Talvez porque escutar histórias de deslocamento, adaptação e identidade também faça parte do meu ofício .

E é sobre isso que quero começar a conversar mais por aqui.

Sobre o que acontece dentro de nós quando atravessamos fronteiras geográficas e psíquicas.

O livro Psicanálise Afora me tocou profundamente porque fala de algo que eu também vivo, mesmo que de outro jeito: essa ...
30/11/2025

O livro Psicanálise Afora me tocou profundamente porque fala de algo que eu também vivo, mesmo que de outro jeito: essa sensação de ser estrangeira dentro e fora de mim. Enquanto lia, fui percebendo que a migração de que o livro trata não é apenas geográfica. É também uma migração interna, afetiva, simbólica. São mudanças que acontecem sem que a gente saia do lugar, mas que mexem profundamente com o nosso mundo interno.

Os relatos dos psicanalistas me atravessaram porque mostram que a clínica também migra. Ela se transforma quando atravessa línguas, culturas, histórias. Isso vale para quem atende fora do país, mas também para quem trabalha com pacientes que vivem em outros lugares. Quando o atendimento acontece em uma língua que não é a materna, ou dentro de uma outra cultura, algo na forma de falar, de escutar e de simbolizar se modifica. O idioma carrega afetos, memórias, modos de pensar. A cultura também.

Existe sempre um “entre-lugares”, uma espécie de campo compartilhado de estrangeiridade, onde tudo precisa ser costurado com cuidado e com uma escuta fina.

O livro me fez olhar para a psicanálise com mais delicadeza. Me lembrou que escutar alguém é sempre entrar num território que não é meu. Que o trabalho analítico pede humildade, presença e uma escuta viva que não tenta encaixar ninguém em formas prontas, que o encontro analítico acontece justamente nesse “entre”: entre línguas, entre culturas, entre versões nossas que ainda estão em construção. É nesse espaço tão frágil e tão fecundo que algo verdadeiro pode nascer.

Com carinho psicologa

Ler A Analista na Rede foi como me reconhecer em minhas múltiplas facetas: psicóloga, mãe, mulher.” Nos trechos em que M...
28/08/2025

Ler A Analista na Rede foi como me reconhecer em minhas múltiplas facetas: psicóloga, mãe, mulher.” Nos trechos em que Marina expõe suas angústias e atravessamentos, encontrei também os meus , aquele lugar onde clínica e maternidade se entrelaçam, trazendo desafios, mas também revelando possibilidades de criação.

A escrita de Marina acolhe. Ao partilhar o que sente como analista -mãe, ela abre espaço para que outras se reconheçam nesse movimento, lembrando-nos de que não estamos sozinhas em nossas inquietações. Para mim, a leitura foi um deleite: um convite a habitar um espaço de identificação, conforto e, ao mesmo tempo reflexão.

O livro revela também os atravessamentos que vivenciamos na clínica, na relação com nossos pacientes. Marina aborda com sensibilidade aspectos que muitas vezes passam despercebidos, mas que são profundamente sentidos: o cotidiano do analista, os desafios e emoções que permeiam nossa clínica ,profundamente sentidos por quem habita esse lugar.

Obrigada, por me permitir caminhar junto de você nesta leitura, revisitando minha maternidade e meu fazer clínico.
psicologa

Quando decidi embarcar nessa viagem só com a minha filha adolescente, confesso que fiquei um pouco apreensiva. Sete dias...
13/05/2025

Quando decidi embarcar nessa viagem só com a minha filha adolescente, confesso que fiquei um pouco apreensiva. Sete dias fora, só nós duas em um outro país , vivendo intensamente uma convivência em meio a uma fase cheia de transformações : a adolescência, com seus silêncios, suas impaciências, seus ritmos próprios.

Ela queria dormir até mais tarde, não se empolgava tanto em registrar tudo com fotos, às vezes se irritava, se fechava, se afastava. E, pra mim, isso exigiu presença e escuta. Foi um exercício de entender que o jeito dela viver aquele momento era diferente do meu .

Mas o que parecia desafiador no começo se transformou em algo muito maior. Foi uma experiência linda. A gente se aproximou de um jeito novo. Descobrimos que dá, sim, pra conviver com as diferenças — e mais do que isso, que elas podem enriquecer a nossa relação.

Na psicanálise, a gente entende que a adolescência é um tempo de separação simbólica. O filho começa a construir seu próprio lugar no mundo com suas escolhas, seus gostos, seus silêncios. E cabe aos pais sustentar esse movimento sem sufocar, mas também sem se afastar demais. É um equilíbrio sutil. E foi esse equilíbrio que, sem perceber, fomos encontrando nessa viagem.

Apesar das diferenças de ritmo e de olhar, ela também foi minha parceira. Rimos juntas, nos emocionamos, vivemos momentos únicos. Compartilhamos o cansaço, os sonhos, a surpresa de estar ali, realizando algo só nosso..

Essa viagem foi muito mais do que conhecer um novo lugar. Foi uma travessia emocional. Um tempo de presença, de vínculo, de escuta mútua.

Voltamos mais próximas. mais conectadas. Com a certeza de que, mesmo em fases tão diferentes, seguimos lado a lado. Cada uma sendo quem é mais ainda assim, profundamente juntas.

Foi especial. Foi nossa. E eu tenho certeza de que essa foi só a primeira de muitas.

“Penso que nosso trabalho pode estar contido nesse pedido de Diego e na possibilidade de atendê-lo: ajudar a olhar o que...
02/12/2024

“Penso que nosso trabalho pode estar contido nesse pedido de Diego e na possibilidade de atendê-lo: ajudar a olhar o que é invisível aos olhos do rosto, mas que pode, com muito trabalho analítico intuição analiticamente treinada, tornar-se visível aos olhos da mente !”

Ao ler o trecho do livro “ A turbulência adolescente do Cassorla me fez refletir que o trabalho do psicanalista /psicologo é, essencialmente, ajudar o paciente a transformar o que é inicialmente invisivel - seus desejos, medos e potências - em algo visível, consciente e integrável à sua experiência de vida.

Como o pai de Diego, o psicanalista não olha pelo paciente, mas com ele, ajudando-o a descobrir a beleza e a profundidade de sua própria existência.
psicologa

“Penso que nosso trabalho pode estar contido nesse pedido de Diego e na possibilidade de atendê-lo: ajudar a olhar o que...
02/12/2024

“Penso que nosso trabalho pode estar contido nesse pedido de Diego e na possibilidade de atendê-lo: ajudar a olhar o que é invisível aos olhos do rosto, mas que pode, com muito trabalho analítico intuição analiticamente treinada, tornar-se visível aos olhos da mente !

Lendo este trecho do livro “
A turbulência adolescente” do autor Cassorla me fez refletir que o trabalho do psicanalista/ psicólogo é, essencialmente, ajudar o paciente a transformar o que é inicialmente invisivel - seus desejos, medos e potências - em algo visível, consciente e integrável à sua experiência de vida. Como o pai de Diego, o psicanalista não olha pelo paciente, mas com ele, ajudando-o a descobrir a beleza e a profundidade de sua própria existência.
psicologa

Há uns dias comecei ler o livro “ O Mito do normal : Traumas , saúde e cura em um mundo doente “ no qual me trouxe muita...
27/10/2024

Há uns dias comecei ler o livro “ O Mito do normal : Traumas , saúde e cura em um mundo doente “ no qual me trouxe muitas reflexões , este trecho traz uma critica profunda sobre a desconexão que muitos de nós experimentamos na vida contemporânea, A ideia central é que o trauma, que normalmente associamos a eventos intensos e dolorosos, se manifesta na sociedade de maneira menos óbvia, mas igualmente destrutiva, através de uma espécie de “anestesia” cotidiana que nos afastam do momento presente e,em última instância, de nós mesmos.

“Se o trauma acarreta uma desconexão de si, faz sentido dizer que estamos sendo coletivamente inundados por influências que ao mesmo tempo exploram e reforçam o trauma. Pressões profissionais, multitarefas, redes sociais, notícias, múltiplas fontes de entretenimento: tudo isso nos leva a nos perder em pensamentos, atividades frenéticas, aparelhos ou conversas sem significado. Ficamos entretidos em atividades de todo tipo, que nos atraem não por serem necessárias, inspiradoras ou revigorantes, ou por enriquecerem ou darem significado à nossa vida, mas pelo simples fato de obliterarem o presente. Numa distorção absurda, economizamos para comprar os mais modernos aparelhos para “poupar tempo” de modo a poder “matar” melhor o tempo. A consciência do momento presente tornou-se algo a ser temido. A especialidade do capitalismo avançado é fomentar esse sentimento de medo em relação ao momento presente; na verdade, muito do seu sucesso depende de aumentar o abismo entre nós e nossa maior dádiva, o presente, e a cultura do consumo é destinada a preencher essa lacuna.

O que se perde é descrito muito bem pela escritora de origem polonesa Eva Hoftman como:

nada mais e nada menos do que a experiência da experiência em si. E o que seria isso? Talvez algo como a capacidade de adentrar as texturas ou sensações do momento; de relaxar o suficiente para poder se entregar aos ritmos de um episódio ou de um encontro pessoal, de seguir o fio da emoção ou do pensamento sem saber aonde ele conduz, ou de parar por tempo suficiente para refletir ou contemplar..

Em última instância , somos distraídos da vida em si”.
(Trecho do livro, páginas 39 e 40)

Após ouvir um Podcast  da SBPPA sobre o tema “Transgeracionalidade: repetição de histórias familiares desconhecidas “ re...
05/09/2024

Após ouvir um Podcast da SBPPA sobre o tema “Transgeracionalidade: repetição de histórias familiares desconhecidas “ realizado com a psicanalista Ana Rosa Trachtemberg despertou o meu desejo de entender , aprender ainda mais sobre essa temática , quando fiquei sabendo deste livro através do meu grupo de supervisão já quis comprá-lo .

O livro Herança Emocional : Uma terapeuta , seus pacientes e legado do trauma é um livro maravilhoso, daqueles que você não quer para de ler , quer grifá-lo todinho e que levanta o véu sobre o indizível , sobre o legado do trauma transgercional.

Nós herdamos traumas de nossas famílias , inclusive aqueles dos quais nunca ouvimos falar .Como herdamos, mantemos e processamos coisas de que não nos lembramos ou que não vivemos? Qual o peso daquilo que está presente, mas que não conhecemos por inteiro?
Podemos mesmo manter segredos uns dos outros e do que passamos para a geração seguinte?

A transgeracionalidade nos afeta individualmente como pais que sofreram grandes traumas com perdas dos seus filhos e em fenômenos sociais com traumas vividos como o Holocausto, , os refugiados e veteranos de Guerras por exemplo .

“ Experiências traumáticas invadem a psique da geração seguinte e se manifestam de maneiras estranhas e , muitas vezes surpreendentes . As pessoas que amamos e aquelas que nos criaram vivem dentro de nós , sentimos sua dor emocional , sonhamos com suas memórias , sabemos o que não nos foi dito de modo explícito e essa coisas moldam nossas vidas de maneiras que nem sempre entendemos “ .( pág 9)

Sem duvida uma leitura transformadora e esclarecedora no qual me identifiquei através da minha história de vida e onde a autora nos mostra que as experiências dos nossos ancestrais moldam , marcam nossas vidas de forma silenciosa , porém profunda e como todos nós temos a possibilidade de nos curar a partir daquilo que é sabido .

“ Toda família carrega algum histórico de trauma. Todo trauma é mantido em uma família de maneira única e deixa suas marcas emocionais naqueles que ainda não nasceram “ . Dra Galit Atlas

Junia Sabo

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