19/05/2026
Nos processos do luto , viver pode despertar culpa. Como se continuar a vida significasse abandonar quem partiu.
Em reflexões que surgiram dentro da clínica, em conversas com a minha supervisora e na minha análise pessoal, algo tem me atravessado profundamente: a percepção de que a morte, muitas vezes, também convoca à vida.
Freud, em “Luto e Melancolia”, nos mostra que o luto exige um trabalho psíquico delicado: aos poucos, a libido investida naquele que foi perdido precisa encontrar novos destinos. Não para apagar o amor, mas para que a vida volte a circular. Talvez por isso o luto seja tão doloroso porque uma parte de nós também precisa reaprender a viver sem a presença concreta do outro.
Durante o meu intercâmbio, conheci a história de uma mãe que perdeu a filha jovem em um acidente aéreo e que, depois da perda, começou a experimentar coisas novas aprender a dançar, viajar, explorar o mundo. Como se, de algum modo, existisse uma tentativa de manter viva, dentro dela, algo da filha que partiu.
Essa história me fez pensar sobre como elaborar um luto não significa esquecer. Para a psicanálise, elaborar uma perda pode ser construir uma nova forma de presença.
A maior homenagem que podemos oferecer a quem amamos talvez seja justamente essa: viver uma vida possível, viva, pulsante.
Porque nenhum amor verdadeiro deseja a paralisação do outro.
A saudade permanece. A ausência também,
mas a vida pode continuar sendo um modo de manter vivo aquilo que o outro deixou em nós.
Elaborar um luto talvez também seja encontrar, aos poucos, novas formas de permanecer vivo.
Com carinho psicologa