01/06/2026
Ela me contou rindo:
“Caio, o laudo da minha eletroneuromiografia foi: f**arás consciente e acamada.”
Ouvi isso de uma paciente com diagnóstico de neuropatia pós quimioterapia. Eu me impressiono como cada pessoa reage com um diagnóstico. Humor não costuma ser frequente por aqui. Tem gente que tem a leveza de quem já navegou tempestades muito piores do que um laudo.
Quem navega numa tempestade não muda o vento. Muda a vela.
A quimioterapia é a tempestade. O nervo periférico enfrenta essa tempestade de frente. É agredido pelos agentes neurotóxicos, fragilizado, vulnerável. A neuropatia induzida por quimioterapia afeta principalmente os neurônios sensoriais e ocasionalmente os motores, causando dormência, formigamento e dor em queimação nos membros. Quase metade dos pacientes experimenta sintomas persistentes meses após o término do tratamento.
Mas existe uma vela que ninguém estava ajustando.
A neuropatia induzida por quimioterapia predispõe os pacientes a compressões nervosas nos túneis anatômicos — mecanismo semelhante ao que ocorre na neuropatia diabética. O nervo já fragilizado pela tempestade f**a ainda mais vulnerável nos pontos onde existe compressão anatômica. Dois problemas sobrepostos. Um diagnóstico só. E um tratamento que ignora o segundo.
A descompressão microcirúrgica dos nervos periféricos oferece uma opção viável para esses pacientes e pode mudar o curso de uma condição que muitos consideram irreversível.
Não é para todos. É para quem tem esse componente compressivo identif**ado. E quando existe, tratar o nervo comprimido é ajustar a vela que estava errada, sem precisar mudar o vento que já passou.
Essa outra paciente no vídeo mostra o resultado com a mesma leveza da outra que faz piada do laudo triste.
A tempestade sempre é forte. Mas o sol nasce para um novo amanhã.
Graças a Deus, a vela ainda podia ser ajustada.