08/06/2026
"A Psicanálise não existe para confirmar ou negar a fé de ninguém. Ela existe para escutar o sujeito. Freud fundou a Psicanálise, mas não fundou uma religião nem um movimento antirreligioso. Seu interesse era compreender o funcionamento da mente humana. A fé pertence ao campo da crença; a Psicanálise pertence ao campo da escuta e da investigação do inconsciente. Quando esses campos se encontram, o papel do psicanalista não é julgar a crença do sujeito, mas compreender o lugar que ela ocupa em sua história psíquica."
há uma dimensão psicanalítica muito profunda escondida nessas palavras.
A Psicanálise não pergunta primeiro "Em que você acredita?", mas sim "O que essa crença signif**a para você?"
Duas pessoas podem professar a mesma religião e viver experiências psíquicas completamente diferentes. Para uma, Deus pode representar acolhimento, proteção e esperança. Para outra, pode representar vigilância, culpa, punição e medo. O objeto da Psicanálise não é a religião em si, mas a forma singular como cada sujeito se relaciona com ela.
Freud compreendeu que o ser humano não vive apenas de fatos objetivos. Vivemos também de fantasias, símbolos, desejos inconscientes e construções psíquicas que organizam nossa existência. Nesse sentido, a religião pode ocupar diferentes funções dentro da economia psíquica de cada indivíduo.
Para alguns, a fé funciona como uma fonte de sustentação emocional diante das angústias inevitáveis da vida. Para outros, pode servir como defesa contra conflitos internos que ainda não puderam ser elaborados. Em ambos os casos, o psicanalista não está ali para aprovar ou condenar a crença, mas para compreender sua função subjetiva.
A questão central nunca é:
"Você acredita em Deus?"
A questão psicanalítica é:
"Quem você se tornou a partir dessa crença?"
"O que ela protege?"
"O que ela alivia?"
"O que ela permite sentir?"
"O que ela impede de ser visto?"
A fé pode ser um lugar de encontro consigo mesmo. Mas também pode, em alguns casos, ser utilizada como uma tentativa inconsciente de evitar o encontro com determinadas dores. A Psicanálise não parte de conclusões prontas. Ela investiga.
Por isso, quando você afirma que o papel do psicanalista é compreender o lugar que a crença ocupa na história psíquica do sujeito, está tocando em um dos pilares mais éticos da clínica: o respeito pela singularidade humana.
O analista não escuta para converter.
Não escuta para corrigir.
Não escuta para convencer.
Escuta para compreender.
Porque, do ponto de vista psicanalítico, o sofrimento não nasce da religião, da ausência dela ou da presença dela. O sofrimento nasce, muitas vezes, daquilo que permanece inconsciente, não simbolizado e não elaborado.
E é justamente aí que a Psicanálise entra.
"A Psicanálise não pergunta ao sujeito qual é o seu Deus. Ela pergunta qual é a história que sua alma precisou construir para continuar existindo. A fé pode ser parte dessa história. O inconsciente, porém, é o lugar onde essa história continua sendo escrita."
Jussara Budniak – Psicanalista Alma-no-Divã.