05/06/2026
Você Sabia?
Receber hoje o diagnóstico de esclerose múltipla é absolutamente incomparável do que era há 20 anos. Basta pensar que o primeiro fármaco verdadeiramente ef**az surgiu em 2007 e, desde então, em menos de duas décadas, emergiram mais de 10 moléculas distintas, todas com um nível de eficácia intermédio-alto ou alto. Nunca tivemos tantas opções e isso muda tudo, não só porque conseguimos controlar a doença de forma ef**az, sobretudo ao nível da inflamação aguda, mas porque, pela primeira vez, a pessoa com esclerose múltipla (EM) tem poder real de escolha sobre o seu tratamento.
A filosofia de tratamento mudou por completo. Durante anos, a abordagem era sequencial e reativa: começava-se por uma opção mais conservadora e, perante um surto ou lesões novas, escalava-se para algo mais inovador e ef**az. Hoje, praticamos o que chamamos de inversão da pirâmide: começamos pelo tratamento mais adequado ao perfil da doença de cada pessoa, com base numa série de fatores de risco e de mau prognóstico. Uma mudança de perspectiva de 180 graus que reduz drasticamente a probabilidade de, a partir do momento do diagnóstico, a pessoa acumular incapacidade, ter surtos ou não ter a doença controlada. A longo prazo, faz toda a diferença.
Esta transformação no tratamento aconteceu a par de uma evolução igualmente profunda no diagnóstico, impulsionada por três fatores distintos. O primeiro é cultural: médicos e população geral estão hoje muito mais sensibilizados para a esclerose múltipla, algo que resulta, em grande parte, do trabalho de comunicação feito a diferentes níveis.
O segundo fator prende-se com a evolução das ferramentas diagnósticas. No passado, mesmo um neurologista experiente podia estar convicto do diagnóstico e não conseguir formalizá-lo numa fase inicial, não por falta de conhecimento, mas por falta de ferramentas. Faltavam biomarcadores no sangue e no líquido cefalorraquidiano, faltava acesso à ressonância magnética e, sobretudo, a possibilidade de a repetir ao longo do tempo para documentar a evolução da doença. Hoje, esses meios existem e mudaram radicalmente a capacidade de diagnosticar mais cedo.
O terceiro fator é, talvez, o mais técnico, mas não o menos importante: os critérios de McDonald, que definem internacionalmente o diagnóstico da esclerose múltipla, são revistos periodicamente, e a versão de 2024 representa um salto signif**ativo em sensibilidade diagnóstica. Permite-nos chegar ao diagnóstico formal mais cedo, em pessoas que se apresentem com características típicas e que cumpram os critérios definidos e isso importa porque cada semana sem tratamento ef**az é uma semana em que a doença pode avançar sem resposta.
Os neurofilamentos de cadeia leve (NfL) são um dos avanços mais promissores dos últimos anos.
Hoje, tecnologias de alta sensibilidade permitem identificá-los no sangue periférico, em quantidades ínfimas, tornando o processo muito menos invasivo.
E o que revelam? Não nos dão diagnóstico, mas dão-nos uma fotografia microscópica do estado de controlo da doença.
Há limitações, como em qualquer ferramenta. Mas o que está acontecendo é inegável: estamos ganhando uma capacidade crescente de ver o que antes era invisível e de agir antes que o dano se instale. Para quem recebe hoje um diagnóstico de esclerose múltipla, isto é uma razão concreta de esperança.
Fonte: Dra. Mafalda Delgado Soares. Neurologista