Dra. Polianna Souza

Dra. Polianna Souza CRM/SP109226.

Médica geriatra pela UNIFESP, formação em Cuidados Paliativos pela Asociacion Pallium Latinoamerica e em Oncogeriatria pela SIOG, área de atuação em Dor pela AMB e administradora do site Oncogeriatria Brasil.

No cuidado da pessoa idosa com câncer, parte do que mais muda desfecho não parece complexo à primeira vista.Hidratação, ...
17/06/2026

No cuidado da pessoa idosa com câncer, parte do que mais muda desfecho não parece complexo à primeira vista.

Hidratação, alimentação, sono, mobilidade, organização dos medicamentos e alguma previsibilidade de rotina costumam ser tratados como básico. E são. O problema é que, na vida real, esse básico nem sempre está garantido.

É justamente aí que a oncogeriatria muda a leitura do caso. Porque o desafio nem sempre é acrescentar uma nova conduta. Muitas vezes, é perceber que o tratamento já está exigindo mais do que a pessoa consegue sustentar no cotidiano.

Quando o básico começa a falhar, o impacto não f**a restrito ao conforto. Ele aparece na adesão, na funcionalidade, na tolerância ao tratamento, na segurança e na qualidade de vida.

Na prática, parte importante do cuidado está em reconhecer cedo quando aquilo que parecia simples no papel já virou um esforço excessivo na rotina.

Na sua experiência, qual detalhe aparentemente básico mais costuma mudar desfecho no dia a dia?

Nem toda violência contra a pessoa idosa chega na consulta com aparência de agressão.Às vezes, ela aparece quando a esco...
15/06/2026

Nem toda violência contra a pessoa idosa chega na consulta com aparência de agressão.

Às vezes, ela aparece quando a escolha vai sendo retirada aos poucos. Primeiro, a família responde por ela. Depois, decide o que pode ser contado. Em seguida, define o que será feito. E, sem confronto aberto, a pessoa idosa vai deixando de participar do próprio cuidado.

Esse processo costuma ser tratado como proteção. Mas, na prática, também pode signif**ar infantilização, exclusão e perda de autonomia. A OMS define a violência contra a pessoa idosa como ato único ou repetido, ou falta de ação apropriada, em uma relação de confiança, que cause dano ou sofrimento, incluindo abuso psicológico, negligência e perda grave de dignidade e respeito. (Organização Mundial da Saúde)

No contexto do Junho Violeta, esse ponto merece atenção porque formas sutis de violência tendem a ser mais naturalizadas. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania tem reforçado a prioridade do enfrentamento da violência contra pessoas idosas, e o Estatuto da Pessoa Idosa assegura direitos ligados à dignidade, liberdade e respeito. (Serviços e Informações do Brasil)

Na prática clínica, isso muda a consulta. Participação nas decisões de cuidado e tratamento não é detalhe relacional. É parte do cuidado ético, seguro e centrado na pessoa. Quando a pessoa idosa deixa de escolher, muitas vezes não piora apenas o vínculo: piora também a qualidade da decisão. (Serviços e Informações do Brasil)

Autonomia ainda é pouco discutida na prática? Compartilhe com quem também precisa olhar para isso em junho e fora dele.

Em muitas consultas, a mudança aparece primeiro como rótulo.“Está teimoso.”“Não quer colaborar.”“Ficou preguiçosa.”“Não ...
08/06/2026

Em muitas consultas, a mudança aparece primeiro como rótulo.

“Está teimoso.”
“Não quer colaborar.”
“Ficou preguiçosa.”
“Não faz porque não quer.”

O problema é que, na pessoa idosa com câncer, alteração funcional, piora cognitiva, apatia, fadiga e até alguns tumores cerebrais podem começar justamente assim: como mudança de comportamento mal nomeada.

Isso atrasa a leitura do caso. Porque a família passa a interpretar como atitude aquilo que talvez já seja expressão de declínio, sofrimento, perda de iniciativa, dificuldade executiva ou comprometimento neurológico. O NCI descreve que tumores cerebrais podem cursar com sintomas cognitivos e mudanças de humor/comportamento, e materiais da ASCO e da SBGG reforçam que cognição, mobilidade, fragilidade e síndromes geriátricas precisam entrar cedo na avaliação da pessoa idosa com câncer. (Instituto Nacional do Câncer)

Na prática, antes de concluir que a pessoa “não quer”, vale investigar se ela ainda consegue. Esse deslocamento muda a conversa, a segurança da condução e, muitas vezes, o próprio plano terapêutico. (SBGG)

Na sua experiência, qual mudança funcional mais costuma ser mal interpretada no início?

Nem toda violência contra a pessoa idosa aparece como agressão explícita.Às vezes, ela entra na consulta de forma mais s...
05/06/2026

Nem toda violência contra a pessoa idosa aparece como agressão explícita.

Às vezes, ela entra na consulta de forma mais sutil: quando a conversa é desviada, a informação é retida, a decisão é tomada por outros ou a pessoa idosa vai sendo retirada, pouco a pouco, do centro do próprio cuidado.

Muitas dessas frases surgem com intenção de proteger. Mas proteção sem escuta pode virar silenciamento. E silenciamento também tem impacto clínico: empobrece a comunicação, enfraquece a autonomia, dificulta decisão compartilhada e reduz a chance de entender o que aquela pessoa realmente compreendeu, deseja ou tolera.

No contexto do Junho Violeta, vale lembrar que a violência contra a pessoa idosa inclui formas menos visíveis de violação de direitos. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania destaca diferentes formas de violência, e documentos oficiais reforçam o direito à independência e à autonomia da pessoa idosa. A OMS também descreve a violência contra a pessoa idosa como ação ou omissão em relações de confiança que cause dano, incluindo abuso psicológico e negligência. (Serviços e Informações do Brasil)

Na prática clínica, isso exige nuance. Nem sempre será confronto com a família. Muitas vezes, será reposicionar a conversa com cuidado, devolver a palavra à pessoa idosa e reconstruir a consulta de um jeito que preserve vínculo sem apagar direitos.

Escutar a pessoa idosa não é um gesto de delicadeza à parte da conduta.
É parte do cuidado seguro e eticamente qualif**ado. (ASCO Publications)

Qual dessas frases você mais escuta na prática? Compartilhe com a equipe que também precisa olhar para isso em junho e fora dele.

Na pessoa idosa com câncer, a desnutrição raramente começa como um grande evento.Muitas vezes, ela se instala em mudança...
03/06/2026

Na pessoa idosa com câncer, a desnutrição raramente começa como um grande evento.

Muitas vezes, ela se instala em mudanças pequenas demais para chamar atenção logo de início: a roupa que alarga, a fraqueza que parece “só um pouco maior”, a carne que deixa de entrar no prato, a mastigação que piora, o cansaço para comer. Quando isso passa despercebido, o problema cresce silenciosamente.

Esse ponto importa porque estado nutricional, funcionalidade e tolerância ao tratamento caminham juntos. Diretrizes recentes e documentos de referência em oncologia e oncogeriatria reforçam a necessidade de rastreio nutricional sistemático em pacientes com câncer e de atenção especial aos adultos mais velhos, em quem déficits nutricionais podem coexistir com fragilidade, sarcopenia e perda funcional. (INCA)

Por isso, rastreio nutricional não é detalhe operacional. É parte da leitura clínica do caso.

Na sua prática, qual sinal mais costuma aparecer antes de a desnutrição f**ar evidente?

Escutar pacientes idosos, na prática, nunca foi apenas coletar informação.Com o tempo, a consulta vai ensinando que ritm...
29/05/2026

Escutar pacientes idosos, na prática, nunca foi apenas coletar informação.

Com o tempo, a consulta vai ensinando que ritmo, pausa, hesitação, silêncio, mudança de tom e dificuldade para nomear prioridades também têm valor clínico. Nem tudo chega na forma de queixa direta. Muitas vezes, o que orienta melhor a condução aparece no modo como a pessoa consegue — ou não consegue — sustentar a própria narrativa.

Esse ponto importa ainda mais na oncogeriatria. Materiais recentes da ASCO sobre comunicação com pessoas idosas com câncer destacam que cognição, questões sensoriais, fragilidade, suporte e contexto podem modif**ar a forma como a conversa precisa ser conduzida. Em paralelo, diretrizes de avaliação geriátrica reforçam que função física, cognição, saúde emocional, comorbidades e suporte social precisam entrar cedo na decisão clínica.

No Brasil, o Ministério da Saúde organiza o cuidado da pessoa idosa a partir de avaliação multidimensional, capacidade funcional e atenção integral, o que conversa diretamente com essa necessidade de uma escuta mais precisa e menos automática.

Depois de algum tempo de prática, f**a mais claro que ouvir bem não “humaniza” a consulta como um adorno. Ouvir bem muda o que a gente consegue entender do caso — e, às vezes, muda a decisão.

Na sua experiência, o que a prática mais te ensinou sobre escutar pacientes idosos?

Nem toda piora cognitiva no longevo com câncer é demência. Em Maio Cinza, isso ganha ainda mais peso: alterações sutis, ...
27/05/2026

Nem toda piora cognitiva no longevo com câncer é demência. Em Maio Cinza, isso ganha ainda mais peso: alterações sutis, delirium, medicações, inflamação e exaustão podem explicar mudanças que a família descreve como “ele/ela ficou diferente”. No artigo que publiquei no LinkedIn, eu organizo esse raciocínio clínico e reforço por que investigar causas reversíveis com método muda desfecho e segurança.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio).

Nem todo afastamento do tratamento começa com uma recusa explícita.Às vezes, ele aparece antes, em sinais mais sutis: me...
25/05/2026

Nem todo afastamento do tratamento começa com uma recusa explícita.

Às vezes, ele aparece antes, em sinais mais sutis: menos perguntas, menos iniciativa, mais adiamentos, respostas automáticas, menor participação nas decisões, faltas que começam a se repetir, uma presença que continua ali — mas com menos vínculo real com o cuidado.

Isso não é apenas “desânimo”. No câncer, sofrimento emocional e distress podem interferir na capacidade de lidar com a doença, com os sintomas e com o próprio tratamento. O NCI descreve o distress como uma experiência multifatorial, de natureza emocional, cognitiva, social, espiritual e física, capaz de comprometer o enfrentamento do câncer.

Na pessoa idosa com câncer, esse ponto pode f**ar ainda mais difícil de reconhecer, porque fadiga, silêncio, retraimento e perda de iniciativa podem ser atribuídos de forma apressada apenas à idade, ao cansaço ou ao tratamento. As diretrizes de oncogeriatria da ASCO reforçam que saúde emocional, cognição, função física e suporte social precisam entrar na avaliação, justamente porque influenciam decisão clínica e tolerância ao cuidado.

Perceber esse desligamento antes que ele vire abandono declarado exige escuta, tempo e atenção ao comportamento — não só ao exame. E isso não é sensibilidade “extra”. É prática clínica qualif**ada.

Na sua experiência, qual sinal mais costuma mostrar que algo mudou emocionalmente?

No consultório, parte dos sinais mais importantes chega disfarçada de frase tranquila.A família tenta resumir, normaliza...
22/05/2026

No consultório, parte dos sinais mais importantes chega disfarçada de frase tranquila.

A família tenta resumir, normaliza, minimiza, adapta. E é justamente aí que o olhar clínico precisa ganhar precisão. Porque, na pessoa idosa com câncer, perda funcional, fragilidade e declínio clínico muitas vezes começam com mudanças sutis na rotina, no comportamento, no sono, na marcha, na iniciativa e na capacidade de sustentar tarefas que antes eram banais.

Esse ponto importa porque a funcionalidade não é um detalhe periférico do caso. Diretrizes atuais da ASCO recomendam avaliar domínios ligados ao envelhecimento que frequentemente não aparecem na avaliação oncológica usual, incluindo função física, cognição, saúde emocional, comorbidades, polifarmácia, nutrição e suporte social. A diretriz brasileira da SBGG reforça que a funcionalidade deve orientar decisão clínica e adaptação terapêutica, e o Ministério da Saúde coloca a capacidade funcional como eixo estruturante do cuidado à pessoa idosa.

Por isso, rastrear função não é “aprofundar demais” a consulta. Muitas vezes, é perceber cedo o que o exame ainda não mostrou.

Na sua prática, qual frase aparentemente simples mais costuma acender alerta?

20/05/2026

Esse debate importa porque mexe na forma como a sociedade, os serviços e até os profissionais de saúde olham para o envelhecimento.

Quando surgiu a proposta ligada à CID-11, a reação foi imediata por um motivo central: classif**ar a velhice como doença não seria apenas um problema técnico. Seria também um reforço simbólico do etarismo, ao sugerir que envelhecer, por si só, já equivale a adoecer. A própria OMS esclarece que a CID não classif**a “velhice” como doença e que aquela categoria tinha função de controle de qualidade para registros inespecíficos, não de transformar a velhice em diagnóstico.

Esse ponto é importante porque envelhecimento saudável não signif**a ausência de doenças. Para a OMS, envelhecer bem tem relação com desenvolver e manter capacidade funcional, ou seja, preservar o máximo possível as condições de viver com autonomia, fazer escolhas, manter relações e sustentar o que dá sentido à vida.

Quando a discussão é mal colocada, a gente perde precisão. Mistura envelhecimento com doença, apaga diferenças entre velhice, fragilidade e perda de capacidade intrínseca, e ainda abre espaço para leituras mais preconceituosas e simplif**adas sobre a pessoa idosa.

Talvez a pergunta mais útil não seja se envelhecer é doença.
É se estamos conseguindo olhar para o envelhecimento com a complexidade e o respeito que ele exige.

O que esse debate acende em você?

Corte do podcast Longidade, ep. 68 — O que é envelhecimento saudável?

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