Dra. Polianna Souza

Dra. Polianna Souza CRM/SP109226.

Médica geriatra pela UNIFESP, formação em Cuidados Paliativos pela Asociacion Pallium Latinoamerica e em Oncogeriatria pela SIOG, área de atuação em Dor pela AMB e administradora do site Oncogeriatria Brasil.

Tem consulta em que a lista de medicamentos parece ter vida própria.Começamos com uma relação no prontuário. Depois apar...
09/09/2026

Tem consulta em que a lista de medicamentos parece ter vida própria.

Começamos com uma relação no prontuário. Depois aparece uma receita antiga. Alguém lembra de um comprimido “só quando precisa”. Outro foi suspenso sem que a lista fosse atualizada. E ainda há aquele medicamento que ninguém consegue dizer exatamente por que continua sendo usado.

Para a pessoa idosa com câncer, isso não é apenas uma questão de organização.

A Avaliação geriátrica ampla (AGA) inclui a revisão de medicamentos porque polifarmácia, interações, efeitos adversos e esquemas complexos podem interferir na segurança e no próprio tratamento oncológico. A ASCO inclui a polifarmácia entre os domínios prioritários da avaliação geriátrica de pessoas idosas recebendo terapia sistêmica.

E a SIOG chama atenção para um desafio que quem está na prática reconhece facilmente: antes mesmo de avaliar indicação ou interação, precisamos descobrir com precisão o que a pessoa realmente está usando. A revisão estruturada pode envolver reconciliação, avaliação de efeitos adversos, interações, adesão e oportunidades de otimização.

Isso importa porque alguns sintomas não chegam com a etiqueta “efeito medicamentoso”.

Tontura, sonolência, redução do apetite, quedas ou alteração cognitiva podem ter várias explicações. Medicamentos e suas combinações precisam estar entre as hipóteses, sem atribuir automaticamente o sintoma a eles e sem colocar tudo na conta da idade ou do câncer.

E simplificar, quando indicado, não significa fazer uma limpeza indiscriminada da prescrição.

Significa entender por que cada medicamento está ali, que benefício ainda oferece, quais riscos traz e se continua coerente com os objetivos de cuidado daquela pessoa.

No seu serviço, qual frase costuma ser o primeiro sinal de que a lista de medicamentos ainda vai render uma boa investigação?

“Não quero mais fazer tratamento.”Essa frase pode chegar à consulta de muitas maneiras. Às vezes com firmeza. Às vezes n...
07/09/2026

“Não quero mais fazer tratamento.”

Essa frase pode chegar à consulta de muitas maneiras. Às vezes com firmeza. Às vezes no meio de um cansaço enorme. Às vezes quase como um pedido para que alguém finalmente pergunte o que está acontecendo.

E ela não deveria receber uma interpretação automática.

Pode significar: “não quero mais este tratamento”.

Pode ser exaustão, medo, sintomas mal controlados ou sofrimento emocional.

Pode haver dúvida sobre o benefício esperado, preocupação em depender cada vez mais da família ou a sensação de que o preço do tratamento ficou alto demais para aquilo que a pessoa considera uma vida aceitável.

Também pode existir uma decisão consciente e consistente de não seguir naquela direção.

Por isso, investigar não é tentar convencer.

É conseguir perguntar: o que exatamente você não quer mais? O que ficou mais difícil? O que mudou desde que começamos? O que você esperava que este tratamento pudesse oferecer? E o que hoje é importante preservar?

Em cuidados oncológicos e paliativos, comunicação, compreensão dos objetivos do tratamento e respeito aos valores da pessoa fazem parte da própria tomada de decisão. Documentos recentes do INCA reforçam a importância de uma comunicação clara e sensível e do compartilhamento de decisões com pacientes e familiares.

Quando aparece sofrimento emocional importante, ele também precisa ser reconhecido e avaliado, sem presumir que explique sozinho a recusa e sem apagar a autonomia da pessoa.

Antes de responder à frase, precisamos entender o que existe por trás dela.

Porque “não quero mais” pode ser uma decisão.
Pode ser uma pergunta.
Pode ser um limite que ainda não compreendemos.

Na sua prática, qual pergunta costuma ajudar a entender melhor uma fala de recusa?

Algumas frases chegam à consulta antes mesmo de começarmos a avaliação.“É da idade.”“Ele sempre foi assim.”“Depois do tr...
04/09/2026

Algumas frases chegam à consulta antes mesmo de começarmos a avaliação.

“É da idade.”

“Ele sempre foi assim.”

“Depois do tratamento ficou desse jeito mesmo.”

Nenhuma delas é necessariamente falsa.

O problema aparece quando uma explicação possível passa a encerrar o raciocínio.

Na pessoa idosa com câncer, uma mudança de memória, comportamento, mobilidade, apetite ou independência pode ter relação com o envelhecimento — mas também com medicamentos, toxicidade, infecção, dor, alterações metabólicas, delirium, sofrimento emocional ou perda de reserva funcional.

E, muitas vezes, mais de um fator está presente ao mesmo tempo.

É por isso que a Avaliação geriátrica ampla (AGA) inclui domínios como função física e cognitiva, saúde emocional, comorbidades, polifarmácia, nutrição e suporte social. Diretrizes da ASCO reforçam que esse olhar identifica vulnerabilidades que frequentemente não aparecem na avaliação oncológica habitual. (ACS Publications)

A SIOG também destaca que a avaliação geriátrica ajuda a revelar problemas previamente não reconhecidos e a compreender melhor a condição funcional e fisiológica da pessoa idosa com câncer. (SIOG)

Não se trata de desconfiar de toda explicação simples.

Trata-se de perceber quando ainda falta construir a linha do tempo, comparar com a funcionalidade prévia e entender o contexto da mudança.

Envelhecimento explica muita coisa. Mas não deveria ser usado para explicar tudo antes de investigarmos.

Na sua prática, qual frase costuma acender esse alerta?

“Ele não era assim.”Uma frase da família pode parecer subjetiva, mas às vezes é justamente o dado que faltava.Mudanças n...
02/09/2026

“Ele não era assim.”

Uma frase da família pode parecer subjetiva, mas às vezes é justamente o dado que faltava.

Mudanças no comportamento, na organização da rotina, no interesse ou na participação podem sinalizar que algo mudou, mesmo quando os exames ainda não explicam claramente o que está acontecendo.

No artigo, reflito sobre a importância de conhecer a linha de base do paciente e de escutar quem convive com ele.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

“Está esquecendo mais. Deve ser Alzheimer.”A frase é compreensível. Principalmente quando falamos de uma pessoa idosa.Ma...
31/08/2026

“Está esquecendo mais. Deve ser Alzheimer.”

A frase é compreensível. Principalmente quando falamos de uma pessoa idosa.

Mas, diante de uma mudança cognitiva, uma das informações mais importantes costuma vir antes do diagnóstico:

quando isso começou?

Um declínio lento e progressivo conta uma história diferente de uma confusão que apareceu depois de uma internação, de uma infecção, da introdução de um medicamento ou de uma mudança no tratamento.

Também importa saber se houve oscilação ao longo do dia, alteração de atenção, piora funcional, redução da ingestão, dor ou alguma outra mudança clínica próxima ao início do quadro.

Isso não significa presumir que toda alteração cognitiva seja reversível — e muito menos minimizar a possibilidade de uma doença neurodegenerativa.

Significa reconhecer que, na pessoa idosa com câncer, alterações cognitivas podem ser multifatoriais. Delirium, por exemplo, frequentemente apresenta início agudo ou flutuante e pode ser precipitado por infecção, desidratação, alterações metabólicas, medicamentos e outros eventos clínicos. A avaliação do uso de medicamentos e a busca por fatores precipitantes fazem parte dessa investigação. (Cloudinary)

A cognição também integra a avaliação geriátrica no cuidado oncológico justamente porque pode influenciar segurança, compreensão do tratamento, funcionalidade e decisões terapêuticas. (meetings.asco.org)

O diagnóstico importa.

Mas a linha do tempo também é dado clínico.

Antes de concluir o que uma alteração cognitiva significa, vale perguntar: o que mudou, quando mudou e o que estava acontecendo naquele momento?

Depois de certa idade, algumas perguntas começam a parecer menos urgentes.Tabagismo pode ser uma delas.Diante de uma pes...
28/08/2026

Depois de certa idade, algumas perguntas começam a parecer menos urgentes.

Tabagismo pode ser uma delas.

Diante de uma pessoa com mais de 70 anos e um diagnóstico de câncer, é compreensível surgir a dúvida: depois de tantos anos fumando, essa conversa ainda modifica algo relevante?

A resposta clínica não deveria começar pela idade. Deveria começar pelo que ainda pode ser modificado.

O tabagismo atual pode interferir em sintomas respiratórios, cicatrização, complicações relacionadas ao tratamento e resposta terapêutica. Em pessoas com câncer, continuar fumando também está associado a piores desfechos oncológicos.

E cessação nessa fase não precisa ser apresentada como promessa de reversão de décadas de exposição.

Pode significar reduzir sintomas, diminuir alguns riscos relacionados ao tratamento, favorecer recuperação e abrir espaço para discutir qualidade de vida. O National Cancer Institute destaca que os benefícios da cessação existem mesmo em idades avançadas e que abordar o uso de tabaco deve fazer parte do cuidado de pessoas em tratamento do câncer.

Na prática, eu também não transformaria essa conversa em uma prescrição automática. Importam dependência, prioridades, prognóstico, carga de sintomas, capacidade funcional e o quanto aquela intervenção faz sentido naquele momento.

Perguntar sobre tabagismo depois dos 70 não é insistir em uma recomendação porque “é o certo”.

É não deixar a idade decidir, sozinha, que já não existe benefício possível.

A pergunta não é: “já não é tarde demais?”
É: “o que ainda podemos modificar para esta pessoa, agora?”

Quando uma orientação não é seguida, é fácil concentrar a análise no que a pessoa deixou de fazer.Mas, clinicamente, uma...
26/08/2026

Quando uma orientação não é seguida, é fácil concentrar a análise no que a pessoa deixou de fazer.

Mas, clinicamente, uma pergunta costuma ser mais útil:

o que tornou esse plano difícil de cumprir?

Talvez a pessoa não tenha compreendido a orientação como imaginávamos. Talvez tenha compreendido, mas não consiga executá-la sozinha. Pode haver limitação física, alteração cognitiva, dificuldade de comunicação, dependência de terceiros ou uma rotina que simplesmente não comporta o que foi proposto.

E existe outra possibilidade que nem sempre investigamos com a mesma atenção: ela pode não concordar com o plano.

Isso não significa explicar toda não adesão por uma barreira, nem retirar da pessoa sua responsabilidade pelas próprias escolhas.

Significa evitar que “não aderiu” seja o fim do raciocínio.

Na oncogeriatria, a Avaliação geriátrica ampla (AGA) ajuda a identificar limitações funcionais, cognitivas, nutricionais e sociais que podem interferir diretamente na capacidade de sustentar o tratamento. A ASCO recomenda esse olhar justamente porque muitas dessas vulnerabilidades não aparecem na avaliação oncológica habitual. (ASCO)

A discussão também ultrapassa o indivíduo: padrões atuais de cuidado oncológico têm incorporado a identificação de barreiras de acesso e o uso dessas informações para orientar o plano assistencial. (ASCO)

Antes de perguntar por que alguém não aderiu, talvez valha investigar se o cuidado foi compreensível, executável e possível para aquela pessoa.

Que pergunta você costuma fazer quando a adesão começa a falhar?

“Ele não quer colaborar.”Essa frase costuma aparecer quando a pessoa recusa uma conduta, participa pouco, não se aliment...
24/08/2026

“Ele não quer colaborar.”

Essa frase costuma aparecer quando a pessoa recusa uma conduta, participa pouco, não se alimenta como esperado, evita mobilização ou parece indiferente ao que está sendo proposto.

Às vezes, de fato, existe uma escolha consciente por não fazer aquilo.

Mas transformar o comportamento rapidamente em “falta de vontade” pode encerrar cedo demais uma investigação que ainda precisava acontecer.

Há dor quando ele tenta se movimentar?

Falta ar no esforço?

A náusea começa antes da refeição?

Ele está exausto ou perdeu força para realizar o que estamos pedindo?

Conseguiu compreender a orientação?

Está com medo?

Houve mudança de atenção, comportamento ou cognição?

Há tristeza, desânimo ou perda importante de interesse?

Na pessoa idosa com câncer, sintomas físicos, perda funcional, alterações cognitivas e sofrimento emocional podem modificar a forma como ela participa do próprio cuidado. A Avaliação geriátrica ampla (AGA) ajuda justamente a identificar vulnerabilidades que podem não aparecer na avaliação oncológica habitual.

O próprio INCA ressalta que dor, dispneia intensa e alterações do estado mental podem limitar a capacidade de responder, participar e até relatar sintomas adequadamente.

Isso não significa procurar uma explicação clínica para toda recusa. Também significa reconhecer escolhas, limites e preferências.

Significa apenas não usar a interpretação como atalho antes de entender o que aquele comportamento está comunicando.

Antes de perguntar por que a pessoa não está colaborando, talvez valha perguntar: o que está tornando isso difícil para ela?

Na sua prática, qual comportamento já pareceu “falta de vontade” até que outra explicação apareceu?

Quando a família participa muito da consulta, isso pode ser uma grande ajuda clínica.Ela costuma trazer mudanças de comp...
21/08/2026

Quando a família participa muito da consulta, isso pode ser uma grande ajuda clínica.

Ela costuma trazer mudanças de comportamento, esquecimentos, dificuldades na rotina e alterações funcionais que talvez não aparecessem de outra forma. Em situações de comprometimento cognitivo ou dificuldade de comunicação, essa contribuição pode ser ainda mais importante.

O risco começa quando essa passa a ser a única narrativa disponível.

“Está comendo bem.”
“Não sente dor.”
“Está tudo igual.”

Em vez de escolher entre acreditar na pessoa idosa ou no familiar, muitas vezes vale mudar a pergunta.

“Quanto você conseguiu comer ontem?”

“O que deixou de fazer sozinho desde a última consulta?”

“Quem organiza seus medicamentos hoje?”

“Quando sente desconforto, o que deixa de fazer por causa dele?”

Perguntas concretas ajudam a transformar impressões gerais em informação clínica.

A Avaliação geriátrica ampla (AGA) considera funcionalidade, cognição, nutrição, aspectos psicológicos, suporte social, comorbidades e medicamentos justamente porque a condição da pessoa idosa com câncer não cabe em uma única dimensão — nem, muitas vezes, em uma única fonte de informação. (SIOG)

Escutar a família amplia a avaliação.
Escutar a pessoa idosa também.

A qualidade da consulta está em conseguir integrar as duas perspectivas sem presumir que uma delas contém toda a história.

Na sua prática, qual pergunta costuma revelar uma informação que ainda não tinha aparecido?

Depois de um diagnóstico de demência, algo pode mudar rapidamente na consulta: a pergunta que antes era feita ao pacient...
19/08/2026

Depois de um diagnóstico de demência, algo pode mudar rapidamente na consulta: a pergunta que antes era feita ao paciente passa a ser direcionada à família.

Mas comprometimento cognitivo e incapacidade de decidir não são sinônimos.

No artigo, discuto como avaliar a capacidade para decisões específicas, oferecer apoio quando necessário e preservar a participação do paciente sempre que possível.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

Endereço

São Paulo, SP
01332-000

Horário de Funcionamento

Segunda-feira 08:00 - 17:00
Terça-feira 09:00 - 17:00
Quarta-feira 09:00 - 17:00
Quinta-feira 08:00 - 18:00
Sexta-feira 08:00 - 17:00

Telefone

+551132871922

Notificações

Seja o primeiro recebendo as novidades e nos deixe lhe enviar um e-mail quando Dra. Polianna Souza posta notícias e promoções. Seu endereço de e-mail não será usado com qualquer outro objetivo, e pode cancelar a inscrição em qualquer momento.

Entre Em Contato Com O Negócio

Envie uma mensagem para Dra. Polianna Souza:

Atalhos

Compartilhar