Dra. Polianna Souza

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Dra. Polianna Souza CRM/SP109226.

Médica geriatra pela UNIFESP, formação em Cuidados Paliativos pela Asociacion Pallium Latinoamerica e em Oncogeriatria pela SIOG, área de atuação em Dor pela AMB e administradora do site Oncogeriatria Brasil.

Há situações em que ninguém está exatamente errado.O cardiologista tem uma boa razão para aquela conduta.O oncologista t...
26/10/2026

Há situações em que ninguém está exatamente errado.

O cardiologista tem uma boa razão para aquela conduta.

O oncologista também.

O geriatra enxerga outro risco.

E, quando todas as recomendações chegam ao mesmo paciente, surge uma pergunta que nenhuma especialidade consegue responder sozinha:

esse plano inteiro ainda faz sentido quando visto em conjunto?

É aí que a conciliação deixa de ser apenas medicamentosa.

Passa a envolver interações, carga de tratamento, funcionalidade, prioridades clínicas, capacidade de seguir diferentes orientações e o que aquela pessoa considera mais importante preservar.

Diretrizes de cuidado em multimorbidade reforçam justamente a necessidade de planos individualizados que integrem revisão de medicamentos, metas compartilhadas, acompanhamento e comunicação entre profissionais.

E isso importa especialmente em pessoas idosas, nas quais multimorbidade e polifarmácia podem aumentar a carga do tratamento e o risco de efeitos adversos, ao mesmo tempo em que diferentes condições competem por prioridade.

Conciliar condutas não signif**a descobrir quem “vence” a discussão.

Signif**a perguntar:

o que deve permanecer?
o que precisa ser ajustado?
o que pode esperar?
e o que essa pessoa realmente consegue sustentar?

Às vezes, a boa medicina não está em acrescentar mais uma recomendação.

Está em fazer com que as recomendações existentes conversem entre si.

Na sua rotina, como você costuma lidar quando duas orientações corretas entram em conflito na vida real do paciente?

Às vezes, a dificuldade para comer não começa no apetite.Começa na boca.Uma prótese que deixou de adaptar bem. Dor para ...
23/10/2026

Às vezes, a dificuldade para comer não começa no apetite.

Começa na boca.

Uma prótese que deixou de adaptar bem. Dor para mastigar. Lesão de mucosa. Xerostomia. Um problema dentário que já existia antes do tratamento ou uma alteração que surgiu durante ele.

Na pessoa idosa com câncer, essas situações podem repercutir na ingestão, no conforto, na qualidade de vida e, em alguns casos, dificultar a própria continuidade do cuidado.

Por isso, saúde bucal não deveria aparecer apenas quando surge uma queixa importante.

O Ministério da Saúde publicou, em 2025, uma diretriz específ**a para o cuidado odontológico de pessoas em quimioterapia ou radioterapia de cabeça e pescoço, contemplando os períodos antes, durante e depois do tratamento. A recomendação reforça a necessidade de manejo integrado e seguro entre odontologia e oncologia.

E, em 2025, o Conselho Nacional de Saúde também recomendou o fortalecimento da saúde bucal como componente transversal da linha de cuidado do câncer no SUS, com integração interprofissional.

Isso não signif**a que toda pessoa com câncer precise da mesma avaliação odontológica ou que toda alteração oral vá comprometer o tratamento.

Signif**a reconhecer quando dor, mastigação, mucosa, condição dentária ou uso de próteses passaram a influenciar alimentação, sintomas ou capacidade de seguir o plano terapêutico.

Quando indicado, avaliar a saúde bucal também é parte de compreender por que aquela pessoa não está conseguindo comer, tolerar ou manter a rotina como antes.

A saúde bucal costuma entrar no planejamento do cuidado dos pacientes acompanhados pela sua equipe?

Uma densitometria pode mostrar baixa densidade mineral óssea.Mas ela não responde, sozinha, à pergunta que mais importa ...
21/10/2026

Uma densitometria pode mostrar baixa densidade mineral óssea.

Mas ela não responde, sozinha, à pergunta que mais importa na prática:

qual é o risco real de fratura desta pessoa?

Uma fratura prévia por fragilidade, quedas recentes, perda de mobilidade, fragilidade, baixo peso, determinados medicamentos e algumas condições clínicas podem mudar signif**ativamente essa avaliação. O PCDT de Osteoporose do Ministério da Saúde também incorpora fatores clínicos e histórico de fraturas à estratif**ação e ao manejo, e a versão vigente foi atualizada em 2026.

Isso não diminui a importância da densitometria.

Ela continua sendo uma ferramenta central para avaliar densidade mineral óssea e contribuir para a estimativa de risco.

O ponto é evitar que o T-score vire a avaliação inteira.

Em uma pessoa idosa, eu também quero saber se já houve fratura com trauma mínimo, se as quedas aumentaram, como está a marcha, quais medicamentos estão em uso e se alguma condição recente mudou a reserva funcional.

Ferramentas como o FRAX podem ajudar a organizar parte dessas informações. No Brasil, a interpretação dos resultados deve continuar vinculada ao contexto clínico e não funcionar como uma decisão automática.

Saúde óssea não é apenas medir osso.
É compreender quem está exposto à fratura e por quê.

Na sua prática, o que mais costuma mudar sua avaliação de risco além da densitometria?

Uma mulher de 74 anos chega com diagnóstico e estadiamento do câncer de mama já definidos.Temos informações essenciais s...
19/10/2026

Uma mulher de 74 anos chega com diagnóstico e estadiamento do câncer de mama já definidos.

Temos informações essenciais sobre o tumor.

Mas ainda não sabemos necessariamente o suficiente para discutir a melhor estratégia para ela.

Como está sua funcionalidade?

Quais comorbidades realmente pesam naquele momento?

Que medicamentos utiliza?

Existe alguma dificuldade cognitiva?

Como está o estado nutricional?

Há suporte disponível?

E, principalmente: o que ela espera preservar com o tratamento?

Essas perguntas não competem com as características do câncer. Elas acrescentam informações que podem modif**ar a estimativa de risco, a tolerância esperada, a necessidade de suporte e até a forma de apresentar as opções terapêuticas.

Diretrizes da ASCO recomendam que a avaliação de pessoas idosas com câncer contemple função física e cognitiva, saúde emocional, comorbidades, polifarmácia, nutrição e suporte social. Quando vulnerabilidades são identif**adas, os resultados devem ser incorporados à decisão oncológica e ao plano de cuidado.

A SIOG também ressalta que, no câncer de mama em mulheres idosas, avaliação geriátrica, comorbidades, segurança dos tratamentos, barreiras ao cuidado e preferências da paciente precisam entrar na discussão.

Isso não signif**a que uma mulher acima dos 70 anos precise receber menos tratamento.

Signif**a que duas mulheres da mesma idade, com diagnóstico semelhante, podem precisar de estratégias diferentes porque não chegam à consulta com a mesma reserva, os mesmos riscos, a mesma rotina ou as mesmas prioridades.

A idade informa.
Mas não decide sozinha.

Além do diagnóstico e do estadiamento, qual informação você considera indispensável antes de definir o tratamento?

“Vacinas em dia.”Essa anotação pode transmitir uma sensação de tarefa concluída.Mas, na pessoa idosa com câncer, eu gost...
16/10/2026

“Vacinas em dia.”

Essa anotação pode transmitir uma sensação de tarefa concluída.

Mas, na pessoa idosa com câncer, eu gosto de olhar um pouco além.

O histórico vacinal continua sendo fundamental. Só que a interpretação dele muda quando entram tratamento oncológico, imunossupressão, novas comorbidades ou mudanças importantes da condição clínica.

A pessoa pode ter recebido corretamente as vacinas previstas para sua faixa etária e, ainda assim, precisar de uma avaliação específ**a depois que o contexto mudou.

É aí que algumas perguntas passam a importar:

O que foi administrado e quando?

Qual tratamento está sendo realizado agora?

Existe imunossupressão?

Há indicação de algum imunobiológico especial?

O momento é adequado para vacinar ou é preciso planejar em relação ao tratamento?

O Ministério da Saúde mantém recomendações específ**as para pessoas com câncer, imunodeficiências e outras condições especiais por meio da rede dos CRIE. As orientações levam em conta não apenas histórico vacinal, mas também condição clínica, tipo de vacina e tratamentos capazes de modif**ar a resposta imune.

O Calendário Nacional de Vacinação de 2026 também reforça que, para pessoas idosas, várias indicações dependem do histórico vacinal e de condições específ**as, ou seja, idade e registro prévio são partes da decisão, não a decisão inteira.

Isso é especialmente importante porque “vacinar mais” não é sinônimo de “vacinar melhor”.

A questão é saber o que está indicado, em que momento e para aquela pessoa.

Na oncogeriatria, revisar vacinação também pode ser uma oportunidade de antecipar risco e organizar prevenção de forma coerente com o tratamento em curso.

Na sua prática, a revisão vacinal entra de forma sistemática na avaliação da pessoa idosa com câncer?

O risco de trombose pode mudar mesmo quando nenhum fator isolado parece suficiente para chamar atenção.Câncer, tratament...
14/10/2026

O risco de trombose pode mudar mesmo quando nenhum fator isolado parece suficiente para chamar atenção.

Câncer, tratamento, hospitalização, menor mobilidade, comorbidades e outras condições clínicas podem interagir e alterar o cenário ao longo do tempo.

No novo artigo, discuto por que essa avaliação precisa ser individualizada e por que reconhecer maior risco não signif**a, automaticamente, definir a mesma conduta para todos.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

Talvez uma das primeiras formas de aprender seja perguntar.Por que isso acontece?Como funciona?O que ainda não entendi?N...
12/10/2026

Talvez uma das primeiras formas de aprender seja perguntar.

Por que isso acontece?
Como funciona?
O que ainda não entendi?

Na infância, essas perguntas aparecem o tempo todo.

Na prática profissional, elas continuam importantes, só f**am mais complexas.

A medicina exige conhecimento técnico, mas também exige disposição para perceber quando uma resposta ainda não explica o suficiente. Quando vale investigar mais. Quando um caso foge do esperado. Quando a experiência do paciente acrescenta uma parte que o exame não mostra.

Curiosidade, nesse contexto, não é buscar novidade por buscar.

É manter interesse genuíno por compreender melhor o que está diante de nós.

E isso também vale para as pessoas.

Quanto mais tempo trabalhamos, maior o risco de achar que já reconhecemos aquela situação antes mesmo de ouvi-la inteira.

Por isso, continuar perguntando é também uma forma de cuidado.

Não porque sempre haverá uma resposta nova.

Mas porque ainda pode haver uma parte da história que não enxergamos.

Continuar curioso é continuar disposto a aprender com o conhecimento, com a prática e com quem está diante de nós.

Qual pergunta a experiência profissional ensinou você a fazer melhor com o tempo?

Quando uma pessoa idosa com câncer apresenta comprometimento cognitivo, a pergunta clínica não deveria terminar em:“Ela ...
09/10/2026

Quando uma pessoa idosa com câncer apresenta comprometimento cognitivo, a pergunta clínica não deveria terminar em:

“Ela consegue ou não consegue?”

Há outra questão muito prática:

o que precisa mudar na forma como organizamos o cuidado?

Uma alteração cognitiva pode interferir na compreensão das orientações, na lembrança de horários, no manejo de medicamentos, no relato de sintomas e na capacidade de perceber que algo mudou entre uma consulta e outra.

Também pode modif**ar a participação da família e da rede de apoio.

Isso não signif**a presumir incapacidade, nem transferir automaticamente todas as decisões para outra pessoa. Signif**a reconhecer que o grau e o tipo de alteração cognitiva importam — e que suporte, comunicação e monitoramento precisam acompanhar essa realidade.

A ASCO recomenda que a cognição faça parte da avaliação geriátrica de pessoas idosas com câncer, ao lado de função física, saúde emocional, comorbidades, medicamentos, nutrição e suporte social. Quando aparecem vulnerabilidades, os achados devem orientar o plano de cuidado e as intervenções necessárias.

A SIOG também inclui cognição entre os domínios centrais da avaliação geriátrica e destaca que esse olhar multidimensional pode revelar dificuldades que não aparecem na avaliação oncológica habitual.

Na prática, isso pode signif**ar menos dependência de uma orientação verbal única, mais clareza sobre quem acompanha o quê e maior atenção a mudanças de comportamento ou rotina que possam ser a primeira manifestação de um problema.

O comprometimento cognitivo não define sozinho o tratamento.

Mas ignorá-lo pode tornar um bom plano difícil de compreender, executar ou monitorar com segurança.

Na sua equipe, o que mais costuma precisar ser adaptado quando a cognição começa a interferir no cuidado?

Há decisões em que já temos muitos dados.Exames, diagnóstico, possibilidades terapêuticas, riscos conhecidos.E, ainda as...
07/10/2026

Há decisões em que já temos muitos dados.

Exames, diagnóstico, possibilidades terapêuticas, riscos conhecidos.

E, ainda assim, a resposta não f**a clara.

Nessas horas, aprendi a desconfiar da pergunta.

“Ele pode fazer esse tratamento?” pode ser tecnicamente relevante.

Mas, na pessoa idosa com câncer, talvez ainda seja pouco.

Às vezes, precisamos perguntar:

O que eu ainda preciso compreender sobre essa pessoa antes de decidir se esse tratamento faz sentido para ela?

A mudança parece pequena, mas abre espaço para informações que a primeira pergunta não alcançava: reserva fisiológica, funcionalidade, cognição, comorbidades, risco de toxicidade, capacidade de recuperação, preferências e aquilo que a pessoa considera importante preservar.

O mesmo acontece com “qual é o tratamento indicado?”.

Em alguns casos, a pergunta que organiza melhor a decisão é:

“Entre as opções possíveis, qual delas é coerente com este paciente, neste momento?”

Isso não coloca evidência e técnica em segundo plano.

Faz o contrário: ajuda a usar os dados para responder à pergunta clínica que realmente importa.

Na oncogeriatria, muitas decisões continuam difíceis mesmo depois de uma boa avaliação.

Mas mudar a pergunta pode revelar uma parte do caso que até então não estava entrando na decisão.

E, quando muda o que conseguimos enxergar, muda também a qualidade da escolha que construímos.

Na sua prática, qual pergunta já fez você enxergar uma decisão de outro jeito?

Quando uma mulher idosa recebe o diagnóstico de câncer de mama, saber a idade dela é importante.Mas não é suficiente par...
02/10/2026

Quando uma mulher idosa recebe o diagnóstico de câncer de mama, saber a idade dela é importante.

Mas não é suficiente para entender como ela poderá atravessar o tratamento.

Duas mulheres de 75 anos, com o mesmo diagnóstico, podem ter funcionalidade, cognição, comorbidades, medicamentos, suporte e prioridades completamente diferentes.

E essas diferenças podem mudar a forma como avaliamos risco de toxicidade, capacidade de recuperação e viabilidade de determinada estratégia.

É por isso que a oncogeriatria não parte da pergunta “qual tratamento uma mulher dessa idade costuma receber?”.

A pergunta é mais precisa:

quem é esta mulher que vai receber o tratamento?

A ASCO recomenda que a avaliação de pessoas idosas com câncer inclua função física e cognitiva, saúde emocional, comorbidades, polifarmácia, nutrição e suporte social, justamente porque vulnerabilidades relevantes podem não aparecer na avaliação oncológica habitual. Esses achados também podem orientar a própria decisão terapêutica.

No câncer de mama em mulheres idosas, a SIOG também incorpora à discussão elementos como avaliação geriátrica, comorbidades, segurança dos tratamentos e preferências da paciente.

Individualizar não signif**a oferecer menos porque ela envelheceu.

Signif**a evitar tanto o excesso quanto a insuficiência de tratamento por uma leitura baseada apenas na idade.

Tratar uma mulher idosa com câncer de mama exige conhecer o câncer.
E conhecer a mulher que existe para além dele.

Na sua prática, qual informação mais costuma mudar uma decisão quando a idade cronológica, sozinha, parecia contar a história inteira?

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