30/05/2026
Ontem, a prefeitura de Sorocaba distribuiu um lanche considerado “especial” às crianças de uma escola pública e postou essa ação nas redes sociais, relatando o sucesso da refeição.
Fiquei assustada com a iniciativa, que apresenta vários pontos críticos. Fazer da distribuição de uma refeição um momento de publicidade, com exposição da marca do produto, além da própria exposição das crianças é bastante crítico. Atualmente, discutimos muito sobre os impactos negativos da publicidade de alimentos (ou produtos alimentares) em crianças. E não podemos deixar de mencionar que, obviamente, estamos falando de um produto ultraprocessado. A situação é ainda mais delicada porque estamos falando de um ambiente de ensino e tudo que lá cerca compõe o aprendizado dos estudantes, incluindo as refeições. Quando é feita propaganda em um espaço que tem responsabilidade de promover o crescimento e desenvolvimento de crianças, que mensagem estamos difundindo? Crianças de escolas públicas não podem ser foco ou veículo de promoção de alimentos ultraprocessados. Diferente do que insinua o texto da prefeitura, ao falar que está sendo oferecido um alimento nutritivo, trata-se de um produto rico em açúcar e gorduras, que tem a característica de interferir negativamente no paladar infantil, dificultando o consumo de alimentos in natura e minimamente processados, especialmente as frutas, legumes e verduras.
Provavelmente, muitos irão argumentar que a alimentação escolar já oferece produtos ultraprocessados. Isso é uma verdade e é também um problema complexo e alguns locais têm se desdobrado em mudar, pois envolve custo, logística, espaço físico, disponibilidade de mão de obra, aceitação e, claro, interesse político. O problema principal nao é oferecer doce uma vez ao mês, mas a forma como isso está sendo feito. Uma ação como essa, infelizmente, desconstrói o trabalho de muitos profissionais, tanto da educação como da saúde, e das próprias famílias.