10/02/2026
Obesidade e Perfil Lipídico no Câncer de Mama: A Influência da Quimioterapia Sobre Indicadores de Disfunção Metabólica e Acumulação Lipídica
Excetuando-se o câncer de pele não melanoma, a neoplasia mamária é o tumor maligno mais incidente entre as mulheres no Brasil. Dados do relatório anual do Instituto Nacional do Câncer, estimam que a taxa de incidência do câncer de mama no Brasil é de 41,89 casos novos para cada 100.000 mulheres em cada ano de 2023-2025. Apesar dos avanços diagnósticos e terapêuticos, a taxa de mortalidade pela doença permanece elevada, representando a principal causa de morte por câncer na população feminina.
De etiologia não completamente esclarecida, os principais fatores de risco para o câncer de mama incluem fatores ambientais e genéticos, entre os quais se destacam a idade, alterações endócrinas, história reprodutiva (menarca precoce, nuliparidade, uso de contraceptivos orais e terapia de reposição hormonal), ingestão de bebidas alcoólicas, dietas ricas em ácidos graxos saturados, sobrepeso e obesidade, sedentarismo, exposição à radiação ionizante e polimorfismos de nucleotídeo único em genes específicos, a exemplo dos genes supressores de tumor BRCA1 e BRCA2.
Entre os fatores ambientais com elevado potencial de intervenção está a obesidade, condição também considerada como problema de saúde pública mundial. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que 1 em cada 8 pessoas no mundo tem obesidade e 43% dos adultos têm excesso de peso, quando avaliados pelo Índice de Massa Corporal (IMC). A obesidade aumenta a incidência e estimula a progressão de pelo menos 15 tipos de tumores malignos, aumentando em 1,5 a 3,5 vezes o risco de câncer. Essa estimativa é válida também para o câncer de mama. Evidências mostram que mulheres com tumores mamários malignos e IMC elevado têm maior risco de invasão tumoral e metástases, bem como desfechos clínicos negativos, incluindo recidiva tumoral e óbito.
O IMC é o método mais amplamente utilizado no diagnóstico de obesidade, devido à praticidade de uso e baixo custo; porém, considera a massa corporal total, não diferenciando adiposidade, massa muscular, gordura visceral e gordura periférica. Esta importante limitação do método pode explicar as divergências de associação entre IMC elevado, ocorrência e progressão dos diferentes subtipos moleculares de tumor mamário. Apesar disso, uma meta-análise recente mostrou que a obesidade, avaliada pelo IMC, associou-se a piores desfechos no câncer de mama, em todos os subtipos moleculares.
Nesse cenário, é importante que outros índices de avaliação do excesso de adiposidade e sua influência sobre a carcinogênese mamária sejam investigados. O Índice de Adiposidade Visceral (IAV), como marcador de disfunção do tecido adiposo, e o Produto de Acumulação Lipídica (PAL), marcador da deposição de gordura central e do perfil aterogênico de lipoproteínas, têm sido indicados como marcadores para a obesidade. Ambos os indicadores se associam ao câncer, porém poucos são os estudos que avaliaram a associação entre tais indicadores, o risco e a progressão das neoplasias mamárias. Além disso, a quimioterapia, como principal recurso terapêutico contra o câncer, parece impactar negativamente a composição corporal e os marcadores lipídicos, aumentando o risco de recidivas tumorais e de eventos cardiovasculares adversos.
Portanto, o objetivo deste trabalho foi realizar uma revisão da literatura sobre o papel da obesidade e do perfil lipídico na carcinogênese mamária, bem como as alterações no índice de adiposidade visceral (IAV) e produto de acumulação lipídica (PAL) após quimioterapia.
Este estudo consistiu em uma revisão da literatura, desenvolvida após busca de artigos científicos na base de dados PubMed e nas plataformas eletrônicas: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico (para identificação da literatura cinzenta referente ao tema). Foram incluídos artigos publicados em inglês e português, entre 2019 e 2025, a fim de recuperar o estado atual da arte. Para elaboração da questão norteadora, utilizou-se a estratégia PECO (População, Exposição, Comparação e Outcome ou Desfecho).
O presento estudo analisou o elo câncer de mama-obesidade, considerando os subtipos moleculares do tumor maligno, o tempo de sobrevida e o efeito da expressão da leptina; o perfil lipídico na carcinogênese mamária; e os índices de disfunção metabólica e acumulação lipídica pós-quimioterapia.
As evidências mostraram que o excesso de adiposidade corporal e o perfil lipídico de mulheres podem favorecer a carcinogênese mamária, com efeitos distintos a depender do status menopausal e dos subtipos moleculares dos tumores malignos de mama. Além disso, os valores de IAV e PAL aumentam após o tratamento quimioterápico, associando-se ao risco de câncer de mama e recidiva tumoral. Entretanto, torna-se necessária a realização de mais estudos que avaliem esses indicadores por subtipos moleculares do câncer de mama.
Profa. Dra. Regina Márcia Soares Cavalcante - Graduação em Nutrição-UFPI. Especialista em Saúde Pública-UFPI. Mestre em Ciências e Saúde-PPCS/UFPI. Doutora em Alimentos e Nutrição-PPGAN/UFPI. Professora Adjunta do Curso de Nutrição da UFPI/CSHNB. Professora do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da UFPI-HU.
Ricardo Costa Silva - Pesquisador Colaborador do Grupo de Pesquisa em Nutrição, Genômica e Oncologia (NUTRIGENON), Universidade Federal do Piauí, Campus Ministro Petrônio Portela, Teresina, Piauí, Brasil.
Profa. Gilmara Péres Rodrigues - Professora Adjunto do Departamento de Nutrição e Pesquisador Coordenador do Grupo de Pesquisa em Nutrição, Genômica e Oncologia (NUTRIGENON), Universidade Federal do Piauí, Campus Ministro Petrônio Portela, Teresina, Piauí, Brasil.
Veja o artigo completo e referências em www.nutricaoempauta.com.br, edição dez2025.