23/06/2026
O traumatismo cranioencefálico (TCE) é causa relevante de epilepsia adquirida, e o levetiracetam tornou-se o antiepiléptico de escolha para profilaxia nesse contexto, apesar da escassez de evidências robustas. Estudo de coorte retrospectivo publicado na Annals of Neurology utilizou a TriNetX Research Network para avaliar a efetividade e o perfil de eventos adversos do levetiracetam profilático em 51.263 adultos com primeiro TCE e escala de coma de Glasgow registrada.
A coorte foi estratificada em TCE leve (Glasgow 13 a 15; n igual a 33.625) e grave (Glasgow 3 a 8; n igual a 10.805). O levetiracetam foi administrado a 14.630 pacientes (30%). Após ajuste para fatores de risco conhecidos por meio de modelos de Cox, o levetiracetam reduziu o risco de epilepsia precoce, em até sete dias, no TCE grave (razão de risco 0,55; intervalo de confiança de 95% 0,31 a 0,97), mas não no TCE leve (razão de risco 0,85; intervalo de confiança 0,45 a 1,61). Não houve redução do risco de epilepsia tardia, em até um ano, em ambos os grupos.
Os pacientes que receberam levetiracetam apresentaram maior frequência de desfechos adversos em cinco anos, incluindo comprometimento de memória e consciência, transtornos metabólicos, cefaleia, ansiedade, depressão, distúrbios do sono e alterações visuais. Idade avançada, edema cerebral e hemorragia subdural foram fatores de risco consistentes para epilepsia.
Os achados sugerem que a profilaxia com levetiracetam reduz crises precoces apenas no TCE grave e não confere proteção em longo prazo. Diante da carga de eventos adversos, a profilaxia de rotina deve ser restrita ao TCE grave ou a pacientes de alto risco, apoiando a reavaliação das atuais diretrizes baseadas em antiepilépticos mais antigos.
Referência
THORMAN, I. B. et al. Levetiracetam for Seizure Prophylaxis after Traumatic Brain Injury: A Severity-Stratified Cohort Study of 51,000 Patients. Annals of Neurology, publicação online, 2026. doi:10.1002/ana.78273.