14/09/2022
Vamos falar de suicídio.
Setembro Amarelo e suicídio: Leopoldina tem algo a dizer
No calendário temático da Saúde, setembro é o mês dedicado ao debate sobre prevenção ao suicídio. Abordar esse assunto em qualquer ambiente ou formato– palestras, rodas de conversa, jornalisticamente – sempre é algo muito complexo e extremamente delicado.
Por isso, raras vezes o Observatório chamou a atenção dos seus leitores para o Setembro Amarelo. Porém, 2022 nos aproximou da temática suicídio de forma intensa. Sérgio Arruda, empresário aqui na Leopoldina, perdeu o filho Pietro de 18 anos, vítima de suicídio.
Ao longo dos oito últimos meses acompanhamos as jornadas de Arruda em encontros pessoais, conversas pelo Zap e, sobretudo, pelo blog criado por ele, Depois da Borda (mais de 5.500 seguidores) ,para falar abertamente sobre essa situação de luto.
Sergio Arruda tem o dom da palavra e a incrível capacidade de socializar a temática suicídio não só entre os enlutados, mas para a sociedade em geral, chamando-nos a uma profunda reflexão capaz de derrubar mitos e abrir novos caminhos para que todos passemos a encarar e compreender o suicídio com outros olhares, outras mentes.
Contundente, direto, reflexivo, revelador, humano. Com vocês Sérgio Arruda, pai do Pietro, empresário, diretor da Yázigi Leopoldina, num artigo que pedimos para ele enviar ao Observatório Leopoldina de modo a marcar esse Setembro Amarelo aqui nesse espaço.
A vida é a melhor escolha, quando é possível escolher ( por Sérgio Arruda)
Segundo a OMS, em 2019 acontecia no mundo um suicídio a cada 40 segundos. Já era a terceira causa de morte entre jovens do s**o masculino e a quarta no s**o feminino. A estimativa da OMS é que haja 20 tentativas para cada suicídio efetivo. Isto significa uma tentativa de suicídio a cada 2 segundos. Estes dados (e muitos outros tão alarmantes quanto) podem ser conferidos no link: https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use/data-research/suicide-data
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Hoje, 13 de setembro, fazem exatos 8 meses que meu filho morreu, vítima de suicídio. Desde então, descobri que o tema não é só tabu, é incompreendido – e quase incompreensível. Por quê? O que leva alguém a este extremo? E se meu filho tivesse sido um dos 20 que tentam sem conseguir? Estaria hoje se preparando para enfrentar a vida ou para uma nova tentativa? São dezenas de perguntas sem resposta.
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Nestes últimos meses tive a oportunidade de conhecer a história de muitos “tentantes” – pessoas que tentaram o suicídio e sobreviveram – e compreendi que a afirmação de uma pessoa com ideação suicida pode escolher viver... não é bem assim. Já busquei inúmeras maneiras para explicar o que eu penso e, por enquanto, a mais bem compreendida tem sido uma comparação com o vício em dr**as.
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Imagine um viciado em he***na durante uma crise de abstinência. Ele está num sofrimento gigantesco e precisa acabar com a dor dilacerante. Ele quer se drogar? Não! Ele adoraria se livrar da he***na, mas sabe que não vai conseguir e fará qualquer coisa por uma dose da droga. Raríssimos serão aqueles que espontaneamente vão pedir para serem trancados num quarto ou internados num hospital, pois os viciados sabem que isso vai prolongar o sofrimento que seria eliminado imediatamente pela droga.
Agora substitua a crise de abstinência de he***na por uma ansiedade devastadora que você não consegue explicar a causa. Imagine estar há anos com acompanhamento psiquiátrico, tomando os remédios mais modernos que existem, fazendo terapia e mesmo assim olhar para o mundo e não se enxergar nele. Imagine querer ser outra pessoa, ter outro corpo, outra personalidade, outro tudo... e, sabendo que isso é impossível, chegar à conclusão de que a única maneira de acabar com o sofrimento é acabar com a própria vida. Você acha que esta pessoa pedirá ajuda, mesmo ciente de que só irá prolongar sua dor? Não! O suicida não avisa, ele não nos ajuda a impedi-lo. Ele não quer morrer! Assim como o viciado, ele quer apenas abreviar seu sofrimento.
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A foto deste texto faz relação ao Projeto Ponto e Vírgula (https://projectsemicolon.com). O nome é derivado do uso da pontuação ponto e vírgula. Ele usado pelos escritores quando eles poderiam colocar um ponto final, mas preferem continuar a frase. Por isso virou um símbolo universal para os sobreviventes da depressão e do suicídio em todo o mundo. Em vez de colocar um ponto final na vida, colocaram um ponto e vírgula e seguiram em frente.