11/01/2020
Freud e Lacan charlatões e o porquê da ciência ter se tornado algo pouco relevante nos tempos de hoje, perdendo espaço para a religião
Nessa semana, duas coisas me chamaram a atenção, além do dia a dia do trabalho na comunicação e na clínica. Uma entrevista para a agência RFI, replicada no UOL, do professor emérito de psicologia Jacques Van Rillaer, da universidade de Louvain, na Bélgica, que acaba de lançar o livro "Freud & Lacan, des charlatans? Faits et legendes de la psychanalise" (Freud & Lacan eram charlatões? Fatos e lendas da psicanálise, em tradução livre). O outro foi uma postagem do professor da Universidade Federal de Brasília, Luiz Felipe Miguel, remetendo a um artigo na revista “Questão de Ciência”, com uma crítica acerca das práticas da Constelação Sistêmica, hoje muito disseminada em tratamentos coletivos e individuais.
Pois bem, não que os dois pontos de vista, bastante embasados e cientificamente pertinentes, sendo o primeiro uma crítica velha, mas reformulada, de que a psicanálise é algo que não levaria em conta as questões sociais e reduzisse a importância do meio, sendo um embrião do que o capitalismo neoliberal hoje se serve, da responsabilização única e exclusivamente do indivíduo por seus caminhos e escolhas.
Como psicoterapeuta e também jornalista, creio ser fundamental e é totalmente pertinente entender que o mundo em si e como ele se ambienta tem impacto direto na formação do indivíduo sim e, cada vez mais, tem sido responsável pela peste emocional e a falta de potência dos indivíduos, aprisionados em cada vez menos opções autônomas do viver. Mas daí, colocar a psicanálise como uma inimiga, e não como uma linha auxiliar da construção do indivíduo, é algo que me remete ao tal fogo amigo.
O entendimento psicanalítico de Freud e, mais tarde, Lacan, engloba a construção histórica humana, para além da filosofia e anterior a ciência tecnicista que conhecemos hoje, seja ela social ou propriamente científica. Não à toa, Freud foi responsável pelo resgate humano de obras e mitos da antiga Grécia para fundamentar suas bases vistas em clínica. Esse conhecimento fundado e coletivo descrito pelo pai da psicanálise foi trazido mais tarde por Jean-Jacques Lacan, que a redefiniu em outros termos, com base na estruturação da linguagem, refazendo a leitura do inconsciente a partir de elementos da antropologia e da linguagem.
Em termos gerais, são pontos de vistas abrangentes para entender a experiência humana, que colocam elementos filosóficos, clínicos e científicos a serviço desse ser humano que nos aparece à frente, para além de uma experiência fisiológica ou sociológica. Portanto, o destrato com os conhecimentos psicanalíticos por parte de alguns, apenas os aparta da complexidade do que é viver em cima da Terra.
Não à toa, é preciso lembrar que, antes da ciência, a filosofia e a literatura eram as bases para a interpretação humana. E o que se faz com o que se aprendeu com elas? Joga-se fora e tomemos uma nova fé cega na ciência? Por essa idolatria à ciência e sua exatidão e pretensão em querer explicar tudo o que é humano, é que muitos não mais estão levando-a em conta, tamanho o reducionismo com que olha uma vida humana.
Nesse mesmo sentido, a recente morte de Bert Hellinger, que trouxe, a partir de sua experiência com tribos originárias, principalmente da África, um conceito baseado na ancestralidade, com sua constelação sistêmica, foi alvo de artigo que o colocou como um ser machista e colocou seu método sob suspeita a partir de um olhar de hoje.
Como aprendi, todos somos vítimas de nossos tempos. Julgar Hellinger ou Freud com o olhar de hoje é desonesto e pouco empático, uma vez que há sempre um recorte histórico e ambiental a ser feito. Mas suas contribuições são vistas por quem realmente pratica suas técnicas em consultório ou por quem opta olhar a vida por esse prisma bem maior do que a religião ou essa ciência exata e estreita que virou religião.
Os tempos antagônicos nos tirou a possibilidade de uma construção própria do ser humano, onde ele deixa de ser o humano possível que ele deseja. Elisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa nos fala da possibilidade aberta por Freud, de que ele possibilitou “sermos heróis de nós mesmos”. E é com base nessa experiência maior de ser humano, que pode ser uma coisa e outra, e não apenas uma coisa ou outra, que seria bacana acreditar e seguir.
Esse entendimento que não nos limita as possibilidades e que a psicanálise traz muito bem nomeada a partir de Lacan como “Desejo”.