19/05/2024
"Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória,
embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve um grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia
em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa
secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha
cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde
não podia ser.
- Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri
com surpresa que ele falava das duas esperanças."
Trecho de "Uma esperança" de Clarice Lispector no livro "Felicidade Clandestina"
Enquanto lia, quis compartilhar com vocês.
Afinal, como estão as nossas esperanças?