23/02/2026
Quantas versões de nós já fomos e ainda podemos ser? Embora pareça que o tempo passa muito rápido, tenho a impressão de que já vivi mil vidas. E que embora pareça que cada vez eu sei menos das coisas, me dou conta de que eu já aprendi um bocado em tantas situações, cursos, empregos, mudanças, relacionamentos e tudo que eu já vivi. Hoje fazendo uma limpa no guarda-roupa encontrei estas lembranças: minha carteirinha da biblioteca da escola, aonde eu era assídua, primeiro porque a minha mãe me obrigava a ler um livro por semana, depois porque peguei gosto. Foi o que me permitiu sair do ensino médio sabendo o que eu queria cursar: Jornalismo, porque escrever era a única coisa em que eu me considerava boa. E também tinha um tantão de vontade de mudar o mundo e ajudar as pessoas.
Ali já sem foto e sem meus dados, também a carteirinha da faculdade de jornalismo, depois de dois jornais que eu trabalhei após me formar. Foi também aonde eu descobri que não dava pra eu mudar o mundo, nem ganhar o suficiente para pagar um aluguel.
Então entrei na faculdade de Direito, mais uma carteirinha check, porque eu achava lindo entrevistar advogados e não entendia porque que a gente não aprende essas coisas na escola em vez da fórmula de Bhaskara (somada ao desejo de me tornar uma juíza e ganhar mais dinheiro do que já vi na vida).
Também tem um crachá do estágio que fiz no Sesc durante a faculdade, em uma exposição que trazia as brincadeiras raiz do Brasil. Meu trabalho era jogar peão, andar de perna de pau e pular amarelinha com as crianças. E um outro crachá que me deram só de zoeira porque eu não tinha o crachá da empresa para entrar na porta que exigia a leitura deste para abrir. Lá eu aprendi sobre fabricação de pimentas, vender on-line, atendimento ao cliente, design, marketing, a dividir uma sala com um monte de gente que pensa diferente, entre muitas outras coisas.
E agora escrevendo pra vocês me dou conta do tanto que isso acrescenta no meu trabalho hoje e em quem eu sou. Fecha uma ferida recém-aberta de uma puérpera que andou questionando quem é e o que sabe. Talvez eu não saiba mais escrever bonito como antes, ter uma eloquência impecável ou a curiosidade (continua)