03/03/2026
Cuidado Nutricional de Crianças com Transtorno do Espectro Autista: Uma Perspectiva pelo Olhar dos Pais e Responsáveis
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é descrito por ser um transtorno do neurodesenvolvimento com déficit persistente na capacidade de comunicação, interação e reciprocidade social; comportamentos não verbais de comunicação usados para interação social, além da presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse ou atividades, conforme designado pela American Psychiatric Association no último Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR de 2023. Segundo dados de 2020, nos Estados Unidos, a prevalência era de uma criança aos 8 anos de idade com TEA para cada 36 crianças com oito anos de idade em 2020.
Embora não conste no conjunto de comportamentos característicos do TEA, manifestações inadequadas relacionadas direta ou indiretamente com a alimentação estão presentes em 30 a 90% dos casos, sendo as mais comuns a seletividade alimentar e as alterações gastrointestinais.
Essa demanda é bastante conflitante, principalmente para pais e responsáveis de crianças dentro do espectro, pois precisam lidar com o desconhecido, alterações na dinâmica familiar, eventos e experiências familiares estressantes, maiores gastos financeiros e ainda com a tentativa de buscar conhecimento, ajuda e melhores condições de tratamentos para o desenvolvimento destas crianças o mais cedo possível.
Estudos mostraram que intervenções de baixa intensidade, que orientam os pais sobre como interagir com seus filhos pequenos com TEA, podem resultar em efeitos imediatos no comportamento social e na comunicação das crianças.
O número crescente de diagnósticos de TEA nos últimos anos tem despertado a atenção para novas necessidades e abordagens deste público. Isso demonstra o quanto famílias, profissionais, sociedade e demais órgãos devem se aprimorar em estratégias de inclusão.
Pensando na problemática relatada e levando em conta as diversas dificuldades, possivelmente enfrentadas pelos pais ou responsáveis, no que se aplica a todos os cuidados de crianças com TEA, é necessário ouvir essas famílias para o embasamento de assistência nutricional e atendimento multiprofissional efetivo para melhor qualidade na alimentação.
Diante do exposto, o objetivo deste estudo é conhecer a percepção dos pais ou responsáveis de crianças com TEA em relação aos aspectos alimentares e nutricionais caracterizando brevemente esse grupo de familiares e investigando os possíveis desafios enfrentados relacionados à alimentação.
Foi realizado um estudo quali-quantitativo com participantes do Projeto Dino (Associação de Amparo às Mães de Crianças Autistas), grupo de apoio localizado na cidade de São Paulo, com foco principal ao acolhimento de mães de crianças neurodivergentes, atualmente abrangendo pais e outros responsáveis por crianças previamente diagnosticadas com TEA. A instituição atende até o momento cerca de 80 famílias, em sua maioria de condição socioeconômica baixa, contando com empresas parceiras e profissionais voluntários na área de neuropediatria, psicologia, direito e nutrição, com dicas, informações, acolhimento, roda de conversa, ações e eventos sociais e em alguns casos atendimentos profissionais individualizados. As rodas de conversas do projeto acontecem de forma online e o principal meio de comunicação entre eles se dá por mídias e redes sociais com encontros presenciais esporádicos.
A amostra do estudo foi caracterizada como de conveniência e seu tamanho considerou o critério de saturação de respostas. Quanto a elegibilidade, para inclusão na pesquisa, o critério foi de ser pai/mãe ou responsável de crianças de 2 até 6 anos de idade, de ambos os s**os, com diagnóstico de TEA que se alimentassem por via oral e que fossem participantes do Projeto Dino. Foram excluídas as crianças com síndromes raras ou síndrome de Down associadas ao TEA.
O estudo foi realizado por meio de entrevista online com perguntas semiestruturadas em parte fechadas, para melhor caracterização de amostra e outras perguntas abertas.
As entrevistas compostas por perguntas semiestruturadas aconteceram com 19 integrantes, sobre a alimentação de 20 crianças, pois houve a participação de irmãs gêmeas e uma única responsável respondeu sobre ambas. Todas as respondentes foram mulheres, dezoito mães e uma avó. A avó morava com a criança e neste caso era a familiar ligada ao Projeto Dino.
A caracterização da amostra mostrou que a faixa etária média das mães no nascimento da criança, excluindo da média o caso da participante avó, foi de 30,5 anos (DP±6,4). Na data da entrevista apenas nove participantes possuíam nível técnico ou superior concluídos. Onze participantes eram ativas no mercado de trabalho, não necessariamente em sua área de atuação profissional, sendo que oito destinavam cuidados exclusivos para a criança e família.
Na ocasião da entrevista, conforme respostas das participantes, treze famílias residiam na Zona Sul de São Paulo, cinco na Zona Oeste e uma na Zona Leste. Ainda sobre moradia, as participantes responderam sobre o número de pessoas que moravam na mesma casa e o resultado mostrou que maior parte das crianças convivia com os pais e irmãos. Em 14 casos, a composição familiar era formada por mãe, pai, criança com TEA somente ou com mais irmãos ou avós. Nas outras cinco famílias as mães eram as responsáveis pela casa e pela criança, assumindo uma atividade solo.
Em relação às características das crianças, a média de idade da amostra foi de 4,5 anos (DP±1,1) e predominância do s**o masculino (n=14).
Uma das crianças teve o diagnóstico de TEA antes dos 12 meses de vida, relatado pela mãe como descoberta precoce devido quadro de prematuridade e dificuldade de atingir marcos de desenvolvimento desde o nascimento. Embora o TEA possa ser identificado até um ano de idade, a maioria das crianças não é diagnosticada até serem anos mais velhas. Quatro crianças obtiveram diagnóstico entre os 37 e 48 meses. Seis crianças tiveram o laudo próximo dos 23 meses de vida e a maioria das participantes, nesta circunstância, relataram que a fala dificultada ou ausência dela foi o que mais despertou atenção para a busca de ajuda. Em nove casos o diagnóstico de TEA foi obtido quando as crianças tinham de 24 a 36 meses de vida.
Falando sobre a comunicação verbal, este fator se apresentou demasiadamente importante, na perspectiva das participantes, para independência e melhor desenvolvimento da criança com TEA. As dificuldades de relacionamento, comportamentos e interação do filho levam as mães a evitarem diversos ambientes e saídas com as crianças devido difícil socialização e aceitação por parte da sociedade.
Os resultados desta pesquisa mostram alta adesão das famílias ao tratamento farmacológico (n=14) para controle de comportamentos disruptivos e das terapias multidisciplinares (n=16), que inclusive foram apontadas pelas participantes, como componente auxiliar para comunicação verbal das crianças com TEA, observou-se que somente quatro crianças não desenvolviam a fala. Entre as famílias que participaram do estudo, 80% sinalizaram o acompanhamento terapêutico com equipe multidisciplinar para desenvolvimento de habilidades das crianças com TEA. Conforme a pesquisa, quatro crianças que não fazem acompanhamento terapêutico são pertencentes às famílias em que as mães possuem menor grau de escolaridade, situação que também coincidiu com a inexistência do atendimento nutricional, sugerindo que, neste estudo, a adesão diminuída aos tratamentos pode estar relacionada com a baixa escolaridade dos responsáveis e limitação nas finanças. É interessante observar que entre as terapias realizadas, o acompanhamento nutricional era feito somente por seis crianças, inclusive em decorrência do atendimento voluntário por nutricionista do Projeto Dino. Outras duas mães relataram que a criança havia recebido atendimento nutricional, porém as profissionais não trabalhavam com casos de TEA e por isso não foi dado continuidade no tratamento, e dois relatos demonstraram inacessibilidade de atendimento nutricional devido questões financeiras. Este fator pode sugerir que o baixo consumo de suplementos alimentares esteja associado ao desconhecimento desses produtos pelas mães, consequentemente com ausência de recomendação nutricional, em casos necessários, visto que a maioria das famílias não tinha esse atendimento. Embora o TEA seja considerado um distúrbio biológico, ele é tratado principalmente por meio de educação e terapias comportamentais, tendo a medicação como um importante facilitador.
No presente estudo 70% das crianças fazem uso de medicamento para controle dos sintomas relacionados ao TEA. Risperidona que é um dos medicamentos mais utilizados, foi liberado para uso no TEA devido sua atuação nos sintomas de irritabilidade e agressividade O tratamento medicamentoso, apesar de ser considerado benéfico, também precisa ser avaliado devido seus efeitos colaterais, neste caso como apatia, aumento de salivação, aumento de apetite, ganho de peso. Isto coincide com as indicações de uso relatadas pelas participantes para utilização da risperidona e casos de ganho de peso excessivo (n=3) onde foi necessário realizar a troca do medicamento.
Outros medicamentos citados na pesquisa foram a melatonina e canabidiol. A recomendação da melatonina se dá para auxiliar no controle dos distúrbios de sono e melhorar o comportamento no decorrer do dia com efeitos colaterais mínimos. Utilizada por três crianças com TEA da amostra, a melatonina foi indicada para melhora da insônia e não apresentou efeitos adversos nestas crianças. O canabidiol, presente em espécies do gênero Cannabis, tem sido estudado como alternativa para tratamento de sintomas associados ao TEA visto sua modulação nas respostas socioemocionais, cognição, melhora de convulsões e plasticidade neuronal. Foi indicado para uso das crianças da amostra deste estudo principalmente devido agitação e baixa concentração nas atividades.
Com relação as comorbidades relatadas neste estudo, observa-se a alergia alimentar (alergia a proteína do leite de vaca, intolerância à lactose e alergia a amendoim) e alergia de pele (dermatite) como as mais citadas nas crianças estudadas (n=7). É possível que nem todas as participantes tenham associado, no momento da entrevista, a palavra comorbidades aos prejuízos gastrointestinais e por isso não tenham sido sinalizados esses problemas na mesma proporção que a literatura refere variando cerca de 9 a 91% de problemas gastrointestinais relacionados ao TEA.
Para a construção do Discurso do Sujeito Coletivo sobre o momento da refeição, as participantes responderam à seguinte pergunta: “Conte sobre um momento de refeição com a criança e quais comportamentos ela apresenta.”
A partir das respostas foram destacadas a seletividade e compulsão alimentar, os comportamentos disruptivos, baixa ingestão de alimentos considerados saudáveis, consumo elevado de alimentos ultraprocessados, hipersensibilidade sensorial e emoções e percepções dos familiares como os assuntos mais respondidos pelas participantes.
Assim como foi perceptível no estudo, a literatura mostra que entre as circunstâncias vivenciadas constantemente pelas famílias em relação a alimentação estão a escolha limitada de alimentos, recusa de frutas, verduras e legumes com preferências por alimentos de marcas específicas, comportamentos agressivos, horários e liturgias rígidas, dificuldade de sentar-se ao redor da mesa e pouca interação interpessoal.
Na pergunta seguinte da entrevista as participantes responderam: “Existe alguma preocupação relacionada à alimentação/nutrição de seus filhos?” e suas respostas geraram a Ideia Central e o Discurso do Sujeito Coletivo.
Na percepção das entrevistadas, houve relato em relação a preocupações com a ausência de nutrientes necessários para um crescimento saudável, problemas e doenças futuras, assim como, preocupação com o peso e imagem da criança.
A ingestão alimentar restrita realmente pode levar à deficiência nutricional se os tipos e variedade de alimentos permanecerem exclusivos, se tornando um perigo potencial à saúde, ascendendo para um risco de desenvolver desnutrição, raquitismo, obesidade, déficit de crescimento, problemas ósseos e baixo desempenho acadêmico. Da mesma forma, o excesso de nutrientes causado pela alimentação pouco variada e desordenada traz prejuízos à saúde da criança. Situações semelhantes foram observados na pesquisa ora nas crianças mais seletivas, ora naquelas que apresentavam um consumo mais compulsivo, por meio de restrição ou excesso de determinados alimentos e alimentação desordenada.
O peso corporal e imagem da criança com TEA também foi um assunto observado nas respostas das participantes da pesquisa.
Não obstante às dificuldades citadas no decorrer das perguntas semiestruturadas, e apesar das preocupações sobre alimentação relatadas pelas participantes, durante as entrevistas fatores econômicos foram fortemente reforçados como impeditivos indiretos de uma nutrição adequada para as crianças com TEA.
Uma parte das mães participantes, conforme citado anteriormente, não é atuante no mercado de trabalho, o que para as famílias dificulta o acesso a melhores condições financeiras para oferecer os tratamentos necessários para os seus filhos. Muitas mães, por exemplo, não conseguiram dar continuidade nos seus estudos, diminuindo possibilidades no âmbito profissional.
Em um único caso na pesquisa a mãe relatou que a criança não apresentava nenhum problema relacionado com a alimentação. Em três casos as participantes afirmaram que apesar da dificuldade com novos alimentos e de aceitação alimentar, procuravam ofertar alimentos de boa procedência e não ceder sempre ao apelo das crianças quando se tratava de pedidos de alimentos ultraprocessados. Como reforço positivo duas mães contaram na entrevista, que em família, decidiram por se alimentar juntos ao redor da mesa, sem o uso de telas ou outros entretenimentos e com o tempo esse hábito foi fixado sendo que até a data da entrevista acontecia de forma tranquila. Uma destas mães inclusive destacou a participação da criança com o pai no preparo das refeições, o que segundo ela, melhorou a rotina e hábito alimentar da criança.
Por isso é necessário informar que embora condições como sensibilidade sensorial e outros possam afetar a escolha alimentar da criança com TEA, fatores ambientais também podem ser determinantes, seja no reforço da seletividade alimentar ou a favor de uma alimentação mais saudável e diversificada. As narrativas desse estudo citado sugeriram que as crianças com TEA usavam comportamentos inadequados para garantir que conseguissem o que queriam comer e rejeitar tudo o que não queriam ou algum alimento novo. O receio da mãe, de acordo com seus próprios relatos, de que o filho não comesse nada, a obrigava permitir que a criança consumisse qualquer coisa. Dessa maneira, dependendo das preferências da criança e das atitudes da família, um ciclo vicioso podia ser instalado na dinâmica alimentar.
É interessante observar que no presente estudo, as mudanças positivas geradas dentro do próprio ambiente familiar, no decorrer do tempo tiveram respostas assertivas para alteração benéfica de comportamento das crianças com TEA, o que realmente sugere que intervenções realizadas com constância pelos familiares tem sua efetividade.
Isso condiz com as recomendações do Guia Alimentar da População Brasileira (2014), que enfatizam a importância da comensalidade, ou seja, realizar as refeições em horários mais regrados sem desenvolver outras atividades ao mesmo tempo, dando atenção para o momento da alimentação sem o uso de telas; propiciar local adequado e confortável sem a disponibilidade ilimitada de alimentos; comer em companhia, ao redor da mesa, priorizando alimentos in natura ao invés de ultraprocessados, participando de todos os momentos que antecedem e até mesmo sucedem a refeição compartilhando experiências em cada uma destas etapas.
Diante do exposto na pesquisa, percebe-se a necessidade de mais estudos que abordam aspectos e intervenções nutricionais no TEA mais precoces assim como é visto nas demais áreas profissionais. Um alerta é necessário para que outros fatores que possam influenciar a alimentação sejam abordados de modo que não impeçam uma nutrição adequada. Como resultado positivo a pesquisa possibilitou conhecer sobre os cuidados nutricionais reais por meio das narrativas das principais responsáveis por esse momento e inclusive saber quais são as estratégias adotadas por elas para futuras intervenções de forma mais direcionada.
Com a fala das responsáveis foi perceptível que fazem parte do cotidiano os problemas nos momentos de refeição devido comportamentos seletivos, de compulsão, rigidez ou disruptivos e em sua maioria, alimentação pobre de nutrientes necessários para o desenvolvimento da criança com TEA. Além dos aspectos nutricionais, as famílias por vezes enfrentam dificuldades financeiras pelos altos custos com tratamento, questões sociais e emocionais relevantes que impactam indiretamente na alimentação. F**a evidente a necessidade e importância de atendimento nutricional qualificado para atuar com famílias de pessoas com TEA. Com profissionais mais preparados e acessíveis é possível maior abrangência de conhecimento alimentar e nutricional por parte dos familiares sobre como lidar diante de fatores negativos, amenizar os comportamentos inadequados citados nas refeições e minimizar doenças futuras.
Patrícia da Silva Baptistucci – Nutricionista
Profa. Fernanda Ferreira Corrêa – Nutricionista. Docente do Centro Universitário São Camilo – SP.
Profa. Adriana Garcia Peloggia de Castro – Nutricionista. Docente do Centro Universitário São Camilo – SP.
Veja o artigo completo com bibliografia e tabelas em www.nutricaoempauta.com.br, edição dez2025.