25/04/2026
A Pedra e o Monstro
Nunca vi em toda a terra
criatura tão terrível.
Seu instinto desprezível
ganha forças quando erra.
Esse monstro nos habita.
Surge quando a vaidade fala,
quando a pressa nos embala,
quando a sombra nos agita.
É ele quem faz da pedra
algo bruto, duro e cego,
cheio de ponta e tropeço,
pesado no próprio ego.
Mas existe outro chamado:
o da mão que vai talhando,
dia após dia aparando
o excesso mal lapidado.
Cada queda é ferramenta.
Cada dor vira cinzel.
Cada escolha fiel
faz a alma mais sedenta.
Ser polido por inteiro
talvez homem algum consiga.
A jornada nos instiga,
mas o fim parece alteiro.
Mesmo assim vale a peleja.
Vale o esforço insistente.
Pois melhora quem consente
que a verdade o lapideja.
E eu fico então vermelho,
pois diante de um espelho
vejo a pedra em minha face:
bruta em parte, imperfeita…
mas em lenta e justa feita,
aprendendo o seu enlace.
Abraão de CA
Este texto é uma releitura inspirada no poema “O Monstro”, de Marcelo David.
Mantive a essência filosóf**a da obra original — o confronto do homem consigo mesmo — e transportei a reflexão para outro símbolo: a pedra bruta em processo de lapidação.
A construção segue base rimada e cadenciada, respeitando a tradição da poesia metrif**ada.