Consultório de Psicologia Catarina Jardim Carvalho

Consultório de Psicologia Catarina Jardim Carvalho Avaliação psicológica; Planeamento, monitorização e avaliação da intervenção

14/05/2026

Em 2 de dezembro de 1991, diante de câmeras, jornalistas e de um medo que dominava a sociedade, um gesto simples acabou entrando para a história.

Naquele período, a Itália vivia um verdadeiro pânico em relação ao HIV. A desinformação espalhava preconceitos cruéis, e pessoas soropositivas eram tratadas como ameaças. Muitos pacientes não enfrentavam apenas a doença, mas também o isolamento, os julgamentos e o medo constante da rejeição. Em uma época marcada pela ignorância, o preconceito parecia se espalhar mais rápido do que o próprio vírus.

Foi então que surgiu uma pergunta que já alimentava o estigma há anos:

“É verdade que o HIV pode ser transmitido por um beijo?”

Ao lado do imunologista Fernando Aiuti estava Rosaria Iardino, uma jovem que vivia com o vírus e que, sem querer, havia se tornado símbolo da discriminação enfrentada por milhares de pessoas. Ela conhecia de perto os olhares de desprezo, os comentários cruéis e o peso de ser tratada de forma diferente por causa do diagnóstico.

O professor Aiuti não respondeu com discursos. Não pegou um livro. Nem tentou convencer as pessoas com explicações longas.

Ele apenas se aproximou de Rosaria, segurou delicadamente seu rosto… e a beijou diante de todos.

Foi um gesto direto, humano e impossível de ignorar. Naquele instante, a ciência saiu dos laboratórios e ganhou uma demonstração pública de coragem e empatia.

O auditório mergulhou em murmúrios enquanto os flashes disparavam sem parar. Em poucas horas, a fotografia já circulava pelo mundo inteiro.

Aquela imagem desmontava, de forma irrefutável, um dos maiores mitos sobre o HIV. O vírus não é transmitido por beijo, abraço ou aperto de mão. O que realmente se espalha com facilidade é o medo, o preconceito e a desinformação, principalmente quando ninguém tem coragem de enfrentá-los.

Depois daquele dia, Rosaria continuou sua luta pelos direitos das pessoas soropositivas, enquanto Fernando Aiuti seguiu defendendo a educação, a ciência e a dignidade humana.

Décadas depois, aquela fotografia continua sendo um símbolo poderoso. Um lembrete de que a ciência pode salvar vidas, mas que a empatia e a humanidade são essenciais para salvar uma sociedade inteira.

Porque, às vezes, um simples beijo pode se transformar em uma declaração de verdade.

25/04/2026

25 de Abril não é nostalgia — é luta. 🌹✊

A liberdade não se celebra só: defende-se. E hoje está a ser posta à prova.

Enquanto se enchem discursos de “Abril”, há mulheres sem acesso a cuidados de saúde dignos, maternidades a fechar ou em rutura, e direitos se***is e reprodutivos que, na prática, ficam cada vez mais difíceis de exercer.

Isto não é progresso. É retrocesso.

O direito a decidir sobre o próprio corpo, a ter acompanhamento seguro na gravidez, a parir com dignidade — não são luxos. São direitos básicos. E estão a ser fragilizados.

O SNS, uma das maiores conquistas de Abril, está a ser empurrado para o limite. Sem investimento, sem profissionais valorizados, sem resposta — abre-se caminho à desigualdade e à exclusão.

Não foi para isto que se fez uma revolução.

Abril exige mais. Exige coragem política, investimento real e compromisso com quem mais precisa.

Defender o SNS é resistir. Defender os direitos das mulheres é cumprir Abril.

Não recuamos. 🌹



🌹

20/04/2026

A sexualidade não é nem uma necessidade básica nem é tão natural como a sede. A forma como se fala dela - por vezes, na escola - parece torná-la numa espécie de cio sem hora marcada. E, de equívoco em equívoco, cria-se uma onda de mal-entendidos que enviesa, prejudica e maltrata.

A sexualidade não é um débito conjugal como, dantes, se falava quando era vista como uma obrigação do casamento. É um crédito que se subscreve e aprofunda entre duas pessoas que se confiam uma à outra.

A sexualidade é corpo, cérebro e relação. Daí que seja tão difícil que dois mundos diferentes um do outro se toquem da superfície da pele ao fundo da alma e os dois se alinhem e aprofundem num só voar.

A sexualidade não é um impulso. Mas o desejo é uma escolha! Que não é estranha à admiração, à beleza e à forma como duas pessoas têm a coragem e a humildade de se despirem por dentro uma para a outra.

Não há sexualidade sem compromisso. Porque todas as relações implicam lealdade, autonomia, transparência e liberdade. E verdade! Seja qual for o formato de compromisso que duas pessoas entendam assumir uma com a outra.

Ninguém nasce competente para a sexualidade. Nem a puberdade nem a adolescência capacitam para aquilo que só se aprende quando se vive. A sexualidade precisa de tempo e ganha se for protegida de experiências que a conspurquem de dor, de fealdade ou de violência.

Não é verdade que, na sexualidade, haja experiências descartáveis e experiências importantes. Todas elas, quando se juntam e dialogam entre si, criam as condições para sermos ou felizes ou para se tecerem, silenciosamente, os argumentos com que a sexualidade decepciona, agride ou mortifica.

É por tudo isto que vários acontecimentos recentes acerca de abusos se***is sobre mulheres não são sexualidade. São violência e são maldade! Que não só abalroam a vida de cada uma delas como comprometem a forma como virão a viver no futuro a confiança, o amor e a sexualidade. Poque criam cicatrizes para sempre!

Justificar a violência na sexualidade ou “normalizá-la” transforma essa discussão numa forma de nos conspurcarmos uns aos outros. E isso é perverso! Porque intoxica a sexualidade de malevolência e despudor.

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