04/10/2020
"Não me interessa o quão espiritual és ou quanto tempo consegues aguentar no taj mahal, quantas jornadas de peiote ou ayahuasca te fizeram abrir a mente, ou até o quão bem consegues manter-te em posição de corvo.
Honestamente. Não quero saber.
Não me interessa que planetas caem em que casas do teu mapa astral, quantos cristais tens ou quão vegetariana é a tua dieta.
Não me importam os teus diplomas de Reiki, cura quântica ou tai chi
Interessa-me bem mais saber o quão humano és...
Consegues sentar-te aos pés dos moribundos apesar do desconforto?
Aguentas a tua dor, ou a minha, sem tentar aconselhá-la, consertá-la ou mantê-la?
Eu quero saber se te vens sentar comigo à mesa e dividir comigo um pão.
Não me importa mesmo nada o quão brilhante és ou se tens os chakras alinhados
Será que consegues abrir e manter um espaço amoroso para com a pessoa que amas?
Consegues ouvir uma pessoa diferente de ti sem a julgar?
Não me importa nada quantos cursos de cura on-line tens, se vives no deserto, no meio da cidade numa cabana ou se dominas a arte do ta**ra.
O que me activa, o que me seduz, o que enche o meu coração são os olhos de um adulto tão brilhantes e puros quanto os de uma criança, são as mãos calejadas por um ofício feito com amor,
são as mãos laboriosas ocupadas no plantio de raízes.
são todos aqueles que lutam por uma causa de coração aberto, todos aqueles que tantas vezes, e apesar do cansaço, ainda arranjam tempo para estender a mão a quem precisa.
aqueles que andam km, apanham aviões ou barcos para irem ao encontro de um amigo.
O homem e a mulher que amam a sua terra
cuidam e amam os seus filhos
e muitas vezes dos filhos de outros
homens e mulheres que alimentam a família: com alimentos, com emoções e pensamentos maiores do que eles mesmos.
Eu não tenho interesse algum em saber se estás em processo de ascensão para a quinta dimensão, se viste naves, se falas com anjos, ou se fazes viagens astrais ou até mesmo se consegues fazer s**o fora do corpo.
Eu prefiro encontrar alguém que consiga integrar-se na realidade, sendo quem é, acolhendo os outros na sua vida sem julgamento.
Eu compreendo que te sintas só, que queiras melhorar e que neste mundo louco do consumo não consigas parar de consumir o que a vida te oferece
Eu entendo que queiras pertencer
entendo inclusivamente que queiras pertencer a um grupo restrito
porque te sentes único
diferente
especial
sozinho
mas nada do que fizeres te servirá se não cultivares o amor no teu coração, principalmente o amor pela diferença
são belas as pessoas que consigam ver beleza e gratidão na natureza, no seu corpo, na descoberta de cada nascer do sol e em todas as suas relações.
A mim comovem-me todos aqueles que tentam construir um mundo melhor, que investem energia amorosa nas pequenas coisas
Muitos são analfabetos, pessoas simples ou sem recursos mas que ouvem o apelo da sua alma e todos os dias trabalham para ser a melhor versão de si mesmos.
cometem erros, choram e levantam-se.
A mim interessam-me as pessoas sinceras. enraizadas e compassivas.
Será que consegues ser aluno?
Bom pai?
Bom filho?
Bom amante?
Bom amigo?
O que é verdadeiramente belo é o quanto podes oferecer ao mundo.
O que é honestamente valioso é o quão bom humano podes ser, num mundo que está alinhadíssimo com o consumismo espiritual e que te convida incessantemente a saltar para a próxima moda, aquela que te promete mais uma condecoração na mestria espiritual.
No final do dia, não me interessa o quão corajoso és. Quão produtivo, quão popular, quão iluminado. No final do dia, quero saber se foste gentil. Se foste real. Quero saber se podes descer do pedestal de vez em quando para beijar a terra deixar o teu cabelo ficar sujo e os teus pés lamacentos
Será que consegues juntar-te à dança de existir aqui e agora com todos nós?
Este texto é uma chamada de atenção para o consumismo espiritual dos dias modernos, a prática espiritual só é benéfica quando integrada na vida terrena.
Poderemos ter o céu na terra, se conseguirmos aplicar as leis espirituais na nossa relação com o mundo e para isso precisamos de mergulhar e viver ativamente no nosso corpo físico e lidarmos com as problemáticas do nosso momento histórico.
Fugir da existência humana desvia-nos do nosso propósito espiritual"
texto de Rute Alegria a partir de um escrito de Oriah Mountain Dreamer's, the Invitation